Encerrar é isolar

O isolamento das populações não acontece apenas na parte mais interior do território do nosso país, ainda que estejamos habituados a ouvir falar do isolamento nas regiões mais a norte, como Bragança, e mais a sul, como o Alentejo.

Não admitimos que no nosso “Berço da Nacionalidade” se possa falar de isolamento e de desertificação. Vivemos num concelho que nos oferece os diferentes serviços – saúde, cultura, educação, justiça. Daí que o primeiro pensamento que nos assalta seja o de não acreditarmos que exista ou possa existir isolamento em Guimarães.

No entanto, com um olhar mais atento e se pensarmos nas 48 freguesias somos capazes de encontrar isolamento. Desde logo começa no facto de não haver transportes públicos e a limitação na deslocação provoca os desequilíbrios sociais. Estas populações têm o direito à educação, à justiça, à cultura, ao desporto mas necessitam de se deslocar e se não têm meios próprios não podem aceder a tudo o que a Administração Pública oferece de forma mais centralizada.

O que temos vindo a assistir nos últimos tempos é a sede de privatização dos serviços e os sucessivos governos não escondem a sua posição favorável a elas. Depois das grandes indústrias, da PT, da EDP, privatizaram-se os CTT, a TAP e até se fazem experiências da privatização da água.

Como sabemos a privatização tem um fim muito concreto, o lucro, mesmo que à custa dos direitos dos utentes e mesmo do interesse nacional,  e, por isso, a CDU sempre se opôs aos processos de privatização, desde logo, de serviços que são direitos fundamentais dos cidadãos.

Até porque, para além do direito ao acesso aos diferentes serviços também se coloca a questão da desertificação que se reflecte em todo o país.

Senão, vejamos

Em Barco fechou, na semana passada, o posto dos CTT. Na Vila das Caldas das Taipas ouve-se dizer que irá fechar.

Apenas para que cada um reflicta sobre as justificações para a tal decisão, lembramos apenas que os CTT anunciaram lucros em 2016 na ordem dos 62 milhões de euros.

Fechar os serviços de proximidade é isolar as populações, é contribuir para a desertificação das freguesias mais distantes do centro da cidade, é dizer aos vimaranenses que podem ser tratados de forma distinta dependendo do local onde nasceram ou onde escolheram viver.

Não deixa de ser interessante (ou inquietante, como queiram) o silêncio do executivo camarário, que tem como responsabilidade defender todos os vimaranenses, independentemente da freguesia onde vivem. Estranhamente, a Câmara Municipal nada disse sobre o fecho deste serviço tão importante para as populações. Se pensarmos nos idosos que vão todos os meses levantar as suas reformas conseguimos perspectivar as dificuldades que são criadas.

Contudo, a surpresa é menor se nos recordarmos que o PS, que há mais de 20 anos governa em Guimarães, se mostrou sempre favorável às privatizações independentemente das dificuldades que podem surgir.

Daqui por diante, as pessoas de Barco pensarão duas vezes se tiverem de mandar uma carta. Talvez pensem em mandar uma destinada à sede do município porque, com a sua atitude, estão a contribuir para que o isolamento e a desertificação para além de outros concelhos, exista também no nosso.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.