Diana, Diana, Diana

Um calendário esquecido

Esta é uma história que sei. O pouco que saberei contar.

O mundo é a nossa maior surpresa, uma coisa bela e terrível. E ter pessoas é a obrigação que mais conta. Ter uma cidade, uma vila, um lugar, uma rua, uma cama. Somos muitos.

Imaculadamente, por volta das onze horas da claridade do dia, entrava no quarto a mulher do homem velho, sem avisos, sem modos, sem que deixasse entender se para ela seria um bom ou um mau dia. Era mais um dia em que aquele homem velho permanecia deitado na cama, quase esquecido, inerte. Àquela hora era sempre do mesmo, a mulher disparava-lhe do corpo os lençóis fedorentos que acabavam por roçar o chão mal varrido, firmava-se com um só joelho no colchão de mola, e como se o mundo lá de fora urgisse ansiosamente a sua presença, velozmente se predispunha a retirar das pernas mortas do velho as calças do pijama que ali se acamavam há já severos dias. A fralda estava muito ensopada, daí que muita coisa acabou por ficar jorrada nas nádegas flácidas, e para isso vinha sempre a mulher preparada com uma toalha meio branca pousada no ombro direito. Sempre ao ombro direito. Desta vez era tanta a porcaria mesclada que uma simples manta não conseguia resolver a situação, de modo que não teve outro remédio senão ir preparar uma bacia de água morna, a mulher do velho, e procurar no armário uma toalha seca com aroma a naftalina. Pena que hoje a água morna era uma impossibilidade. A bilha de gás havia morrido durante a noite, enquanto amamentava o fervedor de chá de tília, mas foi coisa que se varreu da memória da velha. O velho tinha sido apanhado de surpresa com a gélida temperatura do farrapo, tanto que imensamente esbugalhou os olhos, surpreso, com a pele antiga de todo o corpo a eriçar-se-lhe que nem a pele de um frango. A sua escrava não reagiu, pois como sabia estar bem gelado o trapo já esperava o espanto do marido, e friamente continuava a esfregar as nádegas acamadas no colchão e tudo que em redor delas se encontrava. Uma vez tudo limpo e recolocado aos seus devidos lugares, e entenda-se por limpo aquilo que já se pode imaginar, a rotina mandava que a mulher rodasse o potenciómetro do rádio antigo para o mínimo, e que seguidamente empunhasse o comando que fazia contar as cinco voltas dos canais do televisor. Ora, sendo que a comunicação verbal entre os dois era de todo impossível, já há muito que tinham implementado um eficaz sistema de troca de informação. A velha mulher apontava o transmissor de infravermelhos ao receptor sem retirar da sua mira a face do velho acamado. Por sua vez, o velho tetraplégico cerrava os olhos quando decidia qual o canal que deveria permanecer em antena. Se havia coisa que a irritava, era que o inválido decidisse demorar a escolher o canal. E era um tanto compreensível que tal tarefa enfastiasse qualquer um. No universo de cinco canais televisivos, contá-los e reconta-los vezes sem conta na esperança de que surja milagrosamente uma transmissão interessante, coisa que àquela hora era muito difícil de acontecer, diga-se que é coisa digna de remexer os nervos até de um santo.

Mas infeliz era mesmo o velho; não que estivesse indeciso sobre o programa que queria ver, não que quisesse complicar a manhã daquela esposa, mas talvez por ser tão dolorosa a escolha da única companhia que iria ter até ao final do dia. É que não rolava mesmo nada de interessante no raio da televisão. O velho tinha razão, era uma tarefa dificílima. Como homem sensato que soube ser desde rapaz, quase sempre cerrava as pálpebras à emissora que transmitiria as melhores notícias, mas aí é que estava o grande dilema do acamado; o canal que passava o melhor jornal nem sempre presenteava o telespectador com um bom filme para passar a tarde, e se havia coisa que o velho gostava era de assistir a um bom filme romântico, ou a uma saga de acção.

Por entre boas e más escolhas lá se ia rendendo o homem ao que tinha, que graças a Deus, pensava, era bem melhor do que o silêncio. O silêncio apavorava-o, fazia aquele homem chorar, completamente estanque, ele que tinha sido um homem de mão rija e voz carnuda, jamais saberia que um dia iria lacrimejar no escuro, recear a solidão, o breu. Já a mulher ficava satisfeita com a decisão. Quanto mais rápido isso acontecesse mais rapidamente aviaria as coisas da vida. Dedicava então breves instantes a olhar o marido; esperava que aqueles olhos rugosos se afundassem nas cores baças do televisor e aí preparava a sua saída, não sem antes dar uma última espreitadela pelo chão, procurando peças de roupa que necessitassem urgentemente de uma boa torcida. Não era de seu costume adiantar a lavagem da roupa do velho, pois a ele isso pouco incomodava. Essencialmente pijamas e camisolas interiores. Assim, na lavandaria daquela casa mal construída, que era não mais do que um cesto de plástico desbotado e escondido nas costas da porta para a cozinha, quase jaziam alguns dos poucos panos do velho que endureciam com a moléstia do tempo. Hoje mais duas peças de roupa lá tinham ido cair pelas mãos desmazeladas da velha, e a única testemunha daquelas vestes em quarentena era o calendário de papel, oferecido pelo dono do restaurante chinês lá do bairro, que entretanto tinha falido, um calendário esquecido no lado de lá da porta, também ele em quarentena, no mês de Março, apesar de se encontrar a vida já em Dezembro.

As coisas da vida da velha são coisas comuns a todas as mulheres velhas da redondeza, comuns a idosas reformadas, de cérebro e algibeira pobres, camufladas na pequenez de uma vivência obsoleta. O despertar é sempre com a luz do primeiro sol, e depressa se amanham a descer até à pastelaria que faz esquina com a loja chinesa que, curiosamente é gerida por um casal de ocidentais. E velhos também. A mercearia, que é ponto eficaz para todo o tipo de troca de informações sobre o bairro e sobre tudo e todos que possam servir de tema, só abre por volta das dez horas, mais coisa menos coisa, dado que algumas velhas regressam a casa, outras vão raspando os passeios de laje com vassouras coloridas, perfumando toda a rua com a inconfundível mistura de lixívia e pedra antiga, e outras ainda, aproveitam para descer ao centro da cidade nos afazeres que mais tarde irão relatar à porta da mercearia. Há ainda as velhas mais velhas, que passam quase todas as horas de quase todos os dias sentadas nos desarranjados bancos de pesca, sem nada dizer, sem nada a acrescentar ao mundo, mas com aqueles pequenos sorrisos de pessoas que são felizes só porque alguma vida em si carregam.

Aquilo que aqui se retracta pode chamar-se de uma rua velha, de um estado de se ser brutamente parado no tempo. O curioso é que se trata apenas de uma rua, de uma rua de um bairro, de um bairro da cidade, que é não mais do que uma veia estourada, de uma raiz morta, nada mais fazendo do que sobreviver encrustado às bordas da metrópole como um pêndulo, como um adorno que se esconde pela vergonha de estar em desuso, mas que jamais é coisa de que se desfaça pois faz parte de tudo. Quem contorna esta e outras semelhantes ruas de paralelo disforme sabe qual é a matriz do assunto. E basta que se chegue ao fim da rua, onde a linha mal acabada separa o paralelo do alcatrão com meia dúzia de buracos, para que se sinta o peso da forma tão severa de existir.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.