Issa Mei
Issa, destruída, amargurada, rompida pelo punhal do amor, deixou quebrar o corpo rendido pelas quatro paredes do estúdio semiluxuoso. O fluído lacrimal passara de prantaria a manchas secas nos lençóis vexados, a muco morto em todos os cantos. A braveza da raiva e do arrependimento era visível na cómoda vazia, nas bugigangas derramadas às avessas pelo chão, na roupa mal tratada e mesclada por toda a parte, nas garrafas partidas e no cortinado sempre aberto, esquecido, só. O que se poderia chamar de sentimento, lascado nele mesmo, já não era certamente algo rente a paixão. O corpo, quase há um inteiro dia imóvel, estirado no colchão desembrulhado, espanava de quando em horas. A mente daquele corpo inerte ainda fervilhava de ódio, ainda latia em silêncio, e era esse o único alimento para o arcaboiço desnutrido, fraco, rendido à verosimilhança de poder nunca mais voltar a ser um corpo condescendente.
Conforme abalavam as horas, o eco da aversão ia desaparecendo, a mente ia serenando e o sangue que acelerava nas veias ia-se apaziguando até deixar de se ouvir a respiração. Agora, no lugar de toda aquela cólera ia crescendo uma dor, uma débil picada no lugar da bomba sanguínea. À mistura, no intelecto do corpo esbelto cresciam imagens nefastas. Imagens de sombras baloiçantes, de fumaças mórbidas, em círculo, e pequenas vozes risonhas cantavam do fundo do horizonte escuro da imaginação. A estéril de forças estava agora dominada pelo horror da penumbra humana, pela dor que crescia em si como um tumor. A um outro nível passara aquele sofrimento. A picada cada vez mais forte beliscava o cadáver vivo. Mexiam-se os braços procurando conforto, moviam-se lentamente as pernas exibindo desconforto. Toda se começava a agitar, tentando inconscientemente deslaçar-se da cova que ia descendo naquele leito, e que pelo certo a levaria à morte já no fundo da tábua.
Gemidos. Frágeis gemidos escapavam-se pela boca severamente cerrada, obrigando a que os lábios, impregna- dos entre si, se tentassem ver livres daquela união tenebrosa, rasgando-se, deixando lascas de derme na epiderme, acerejando-se com gotículas de sangue fresco, dorido. Se a mente havia desaparecido, o cortiço começava agora a ganhar terreno na luta contra a dor. Movia-se como um todo,
Nua, com o peito garboso trançado com mesclas de suor, ia pendendo paulatinamente na dança cada vez mais leve do ziguezague para a frente e para trás. Tresandava a fadiga. Abatera-se ao chão, o espantalho nu, numa queda estupenda e ressequida, única, fustigando o soalho como um magnete de pernas e braços. O dano da queda teria sido fatal. A dor que tragava o coração buliu em alvoroço, atordoada, e como o último respingo que cai num dique superlotado, explodiu em todas as direções aguilhoando-lhe todo o corpo consumido pela tenebrosidade.
Torcia-se e sacudia-se com violência e, inevitavelmente, o aparelho vocal começava a ressoar com dificuldade como um piano velho e esquecido numa cave poeirenta dos subúrbios da Alemanha. Os membros em descontrolo rasavam os chispes trabalhados da cama, varriam, com os tecidos enrodilhados, a imundice imbuída nas falhas do taco; a cabeça rolava na madeira, entoando um para cá e para lá de uma bola de bowling, e chagava-se na nuca sempre que ressaltava nas fendas do chão de tábua nova e encerada, assim como os cotovelos e os calcanhares que se iam avermelhando, rompendo até aos veios. Dá-se a viravolta e o tórax toma o lugar de baixo. Eram agora os mamilos que se aferrolhavam nas fendas sebáceas e que sofriam puxões violentos. Tremiam eriçados, acompanhados do engelhar da pele redonda que os sustentava, já roxa. Também os joelhos provavam o sabor da insânia frisando-se no mesmo chão, batendo nele como que a toque de caixa, e desobstruindo-se com maior facilidade até ao osso. O genital descoberto, trôpego, absorvia quaisquer impurezas perdidas no chão, e por consequência de até si escoarem os fios da transpiração, o seu pelo grisalho tornara-se visivelmente encrespado, escabelado, e em alguns pontos retorcido como pequenos novelos. Em surdina, todo aquele delírio foi perdendo terreno. O canastro ia dando sinais de enfraquecimento, de extenuação. Iam abrandando os membros histéricos, os cabelos finos pendiam, e a cabeça, agora soerguida, deixava de rolar pateticamente e apontava para uma qualquer direção. Por detrás das pálpebras encarvoadas, os olhos castigados e de cor púrpura espiolhavam qualquer coisa do lado oposto ao que se encontravam. A cabecita inclinava, ora para um lado, ora para o outro, muito lentamente, como se isso pudesse fazer entender aos olhos aquilo que enxergavam, ou o que que- riam enxergar.
Em simultâneo soltaram-se os braços com virilidade, e o cérebro gasto ordenou às mãos que cravassem as unhas nas ripas emadeiradas, para que o cadáver anima- do se pudesse arrastar até lado oposto. A mesma ordem, a de cravar as garras em jeito de alavanca, foi dada pelo cérebro estuprado aos pés imundos. Começou então a mover-se em arrasto, o ser visivelmente punido que nem uma velhaca- ria, e a ritmo de caracol. O cálcio das gadanhas rangia a cada centímetro alcançado, e tudo o que surgia pela frente era levado calmamente e em demora. Estagnou. Finalmente tinha confluído até à outra ponta daquele mundo. O que tinha suscitado interesse à viseira trucidada era afinal, somente, uma garrafa translúcida, desfeita em pedaços pela anterior azáfama.
Recompôs-se. Elevou a estatura com enorme dificuldade, friccionando os joelhos rasgados contra o pavimento. Susteve, num primeiro passo, o meio corpo sob os braços que oscilavam sem pujança, e num segundo, aliando todas as forças, impulsionou o caparro dócil para trás, de forma a se posicionar ajoelhada. Com aquele movi- mento, o cabelo badalhoco saltarinhou meio perdido, ficando estendido ao longo das costas escoriadas. A face, voltada para o teto branco, permaneceu imóvel por segundos, até se virar de frente para o cortinado escancarado, de onde invadia um fina sombra de luar, cor de leite jorrado num pântano. O parapeito de mármore, de forma lisa e oblíqua, evitava que entrasse o mar de chuva que caía sem parar. Foi então que a confidente dos cisnes alcançou um dos cacos de vidro arremessados pela violência. Tomou-o na palma da mão direita, com argúcia, esmagando-o, permitindo que se entranhasse nas linhas da mão e que deixasse escapar uma fiada de sangue que lhe ia gotejando na coxa. Num gesto exasperado, aproximou o pedaço ao pulso oposto, de bico, e sem aguar- dar um único segundo lanhou sem dó a pele fina e imunda, e no mesmo instante repetiu o gesto no outro pulso. Uma cavalgada de sangue fresco, vermelhíssimo, quente, a borbulhar por entre a pele esfarrapada e os tendões, descia-lhe rapidamente pelos braços, ziguezagueava as formas perfeitas do corpo, até desaguar no soalho e penetrar as fissuras que há momentos haviam molestado pele, carne e osso. Esbugalhou os olhos, abriu a boca sem nada soletrar e logo tombou de frente, totalmente embaciada pelo momento.
