Antes que me esqueça

E já quase não me lembro! Tudo são hoje memórias suavizadas pelo tempo que tudo cura, pelo tempo que tudo apaga!

Naquele tempo eu prometi que escreveria um livro:

– Antes que me esqueça de como foi, de como o senti, do que vi, do que me disseram, das pessoas e das sobrevivências, vou escrever um livro!

Guardei os cartões das marcações das consultas. Guardei as fichas dos especialistas com as medidas e os pesos. Guardei as análises. E não escrevi o livro.

“Antes que me esqueça” seria uma memória; eternizaria o que me acompanhará até à eternidade. “Antes que me esqueça” seria um título de quem passa, ultrapassa e aprende a viver (com a doença); eternizaria o que se mostrou latente e permanente.

Antes que me esqueça, lembro-me do peso de um pequeno-almoço, do peso dum almoço em família, do pesado lanche com a Paula (a minha amiga a viver e trabalhar na Alemanha que em 2000 vinha pelo Verão), do pesado jantar de Curso, do pesado gelado depois do cinema com o Bruno (o meu namorado que perseverou ao meu lado, até hoje).

Lembro-me deste peso, subjectivo, pessoal e intransmissível, sem escala que o meça, até me lembrar das gramas denunciadas pela balança – a balança que viria a acertar (n)os pesos .

Antes que me esqueça, pela manhã, a acompanhar uma bolacha maria, servia-me uma meia de leite numa chávena de café – e lembro-me de que os três mililitros de leite magro eram fervidos, pelo menos, três vezes. Passadas as saudáveis três horas, uma colher de sopa de arroz fazia-se demasiada no prato, acompanhada por três gomos de tomate com meio rissol para almoço. Pudesse, então, evitar aquela maçã mirrada do lanche e aguardar por um jantar mais brando.

Antes que me esqueça, lembro-me de quão insuportáveis eram os outros! Os outros que comiam, que não comiam, que não se mexiam, que vigiavam, que pagavam, que não aceitavam.

Não me esqueci destes volumes como não se apagou a memória do pânico em frente ao prato de comida.

Não me esqueci daquele volume do corpo, do peso do corpo, do corpo no espelho.

39kg. Trinta e nove quilos. Trinta e nove quilos, vestida, calçada, numa balança rigorosa. 39kg. Todos os dias. Todas as manhãs. Em qualquer oportunidade, um encontro com a balança. Até 2005 a única balança que usei foi esta. Nunca pesei uma refeição. O peso subjectivo e sem escala, pessoal e intransmissível, estava no que representava para mim na balança escondida debaixo da cama da mami.

A mami não entendia. Pesava o custo da doença. Pesavam as idas ao especialista, aos especialistas, de consultório em consultório, de vigia em vigia, de balança em balança, de violação em violação. A mami não entendia e eu tirava-lhe peso na balança. Controlava. Não estava doente. Nunca viria a ser internada. Nunca ficaria anémica. Nunca as análises diagnosticaram um défice. A doença é inteligente.

A doença é inteligente e permanente. É uma bactéria. Um parasita benigno. O doente é hospedeiro e (in)voluntário. É um alfa. Uma vida enferma.

Depois vim eu e veio o ciclismo. Do casamento foi lançada a partida e a corrida, sem fim, iniciou. Depois veio a balança e vim eu. Da competição foi planeada a prova e a jornada, sem termo, preludiou.

Depois, ficaram as balanças e as pessoas sem peso.

Antes que me esqueça, quanto cabe na tua chávena de café pela manhã? E já quase não do almoço da tua filha na cantina!

Ilda Pereira, 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.