No meio d’“A bicharada”

Dois episódios, quase simultâneos, mas separados por muitos quilómetros. No primeiro, junto de familiares, três adolescentes discutiam entre si, sobre quem admirava quem, da equipa do “Bitória” (não, não vou falar de futebol).

-Eu sou o…, e o jovem realçava as qualidades do seu ídolo.
-Pois, para mim, o melhor de todos é o…, um dia vou ser como ele!
-O quê!? Há algum melhor que o…? Esse é o maior!
-Oh filho, esse não carago, que deus me perdoe, mas é tão “feiinho”! Interveio uma tia, referindo-se ao jogador preto que o sobrinho admirava.

O segundo episódio, aconteceu no espectáculo musical, no qual participaram ou assistiram, dezenas de artistas e milhares pessoas, numa verdadeira “passerelle” de vaidades, com entrevistas em directo, cada um tentando mostrar-se mais solidário que o outro, frases emocionadas e lágrimas a preceito.

Não faltaram os aplausos e os gritos histéricos da praxe, até que, para gaudio da maioria, o Salvador se lembrou de largar, aquele desafio bombástico, muito aplaudido, num primeiro momento e rejeitado, com enorme indignação, posteriormente.

Nas redes sociais, um coro de virgens ofendidas, vociferava raios e coriscos, insultos e palavrões, pedindo o linchamento do que, há poucos dias, fora o herói de uma nação.

Preocupante, o modo como vem ao de cima, a veia racista, xenófoba, discriminatória e preconceituosa do ser humano.

Quando se junta uma multidão, seja qual for o género de iniciativa, desportivo, cultural ou religioso, as pessoas tem a propensão de reagir mais com emoção e menos com a razão.

Quando incitada de forma incisiva, uma multidão pode tornar-se num animal muito perigoso, levado a agredir, quantas vezes, até às últimas consequências, quem se lhes oponha.

O humano, quando isolado, chora perante a desgraça, mas quando faz parte da massa, idolatra imperadores, reis e ditadores.

Adora, de rastos ou de joelhos, deuses de barro. Chora a morte de um ditador e, no dia seguinte, grita vivas à liberdade.

O humano é, perante as outras espécies, um animal muito perigoso e, muitas vezes, cruel.

Mesmo por brincadeira, justifica-se aquela frase: Cuidado com o dono do cão.

Joaquim Teixeira é deputado pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Guimarães. É sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.