Uma crónica sobre NADA

Esta é uma crónica sobre nada, sobre coisa nenhuma, nadinha, patavina, nicles, bulhufas, zero (como lhe quiserem chamar). Esta é uma crónica sobre as minúcias, sobre os pequenos, precisos ou triviais detalhes de algo que se pode transformar em nada ou em tudo.

Esta é a pré-época do nada: da ausência de reforços, do vazio deixado pelos que partem, da não informação, do silêncio, dos espaços publicitários por preencher nas camisolas, do branco e do preto solitários…

Se quiserem continuar com a mesma premissa de sempre, com a crítica constante, com os lamúrios e com os pronúncios de uma má época que se avizinha esta não será provavelmente uma crónica para vocês, mas se quiserem continuar a ler, convido-os a entrarem, por alguns momentos, na minha estranha mente e a verem o nada pelos meus olhos.

O preto e o branco são as cores do Vitória e sempre foram associados ao nada. Quando falamos de cores, a resposta à pergunta “O preto e o branco são cores?” é uma das questões mais debatidas de sempre e as suas respostas em nada nos ilucidam. Se perguntarmos a um cientista ele irá dizer, baseado na física, que o “o preto não é uma cor, mas o branco é uma cor”, mas se fizermos essa pergunta a um artista ou até mesmo a uma criança com um lápis de cor na mão, a resposta será o oposto ”o preto é uma cor, mas o branco não é uma cor”.

Na minha humilde opinião, o preto e o branco são a coisa mais colorida do mundo porque contêm todas as cores e, ao mesmo tempo, excluem tudo.

O branco pode ser desconcertante, eu sei… Por vezes é difícil perceber o que fazer com todo aquele espaço vazio, mas o espaço em branco está cheio de possibilidades maravilhosas se soubermos olhar para o caminho certo. Quando olhamos para o novo equipamento branco parece não haver nada lá, parece existir apenas um nada branco.

Nesta pré-época estamos no limite da nossa zona de conforto. Não foi fácil chegar aqui, foram muitas as lutas. Chegamos vitoriosos até agora porque, embora tivessemos lutado, ainda estavamos envolvidos dentro de um cobertor aconchegante, dentro da nossa zona de conforto: dos empréstimos, da dívida, das desculpas, do acaso. Tudo servia como bolha protetora, como desculpa, mas agora chegamos à borda do abismo e há apenas dois caminhos a seguir. Podemos ficar aqui a admirar e a contemplar o passado, as batalhas que os nossos antepassados gloriosamente venceram ou podemos tornar nossa a sua armadura e colocar o pé para fora da borda.

Se escolhermos saltar (por favor escolham saltar), a verdade é que podemos cair. Podemos cair tão longe nesse mar branco do nada e acabarmos por nos afogarmos ou podemos continuar a vaguear perdidos por esse mar sem conseguir encontrar um ponto de apoio para subir de volta e alcançar a nossa zona de conforto. Ou podemos cair sobre algum suporte invisível que seja como um espelho que reflete o nada branco lá de cima e que nos permite atravessar esse abismo desconhecido.

Aí vamos perceber que não estamos sozinhos. Aí vamos perceber que a cruz que parece perder-se no vazio do nada branco daquela camisola traz consigo todo o exército de D. Afonso Henriques. Aí vamos perceber que com o apoio das suas tropas, o Vitória pode voltar a conquistar Portugal e a Europa. Aí vamos perceber que o mais importante não é aquilo que se vê porque nem tudo é visível com os olhos, mas tudo é sentido com o coração.

Aí vamos perceber que a camisola branca com o V firmado a negro no peito não representa apenas Vitória. Que o V significa conexão e união, um espaço que simboliza o relâmpago que une duas forças, onde há uma grande conexão entre todas as coisas criadas. Aí vamos perceber que o V significa o reconhecimento de que o “nós e eles” deixou de existir, que jogadores, equipa técnica, direção e adeptos se tornaram apenas um na época passada e que foi essa simbiose que permitiu que o Vitória voltasse ao lugar que sempre lhe pertenceu. Aí vamos perceber que é essa simbiose que nos vai fazer crescer ainda mais nesta época.

Ao longo desta vida aprendi que o preto não é uma cor, é uma emoção. O preto é o desenfreado da nossa paixão, uma paixão que nós estamos constantemente a mostrar ao mundo. A um mundo que está constantemente a julgar, que mede o nosso valor superficialmente, que tenta nos sucumbir ferozmente para um lado onde não há sol. Um mundo com o qual precisamos de batalhar diariamente para mostrar que estamos aqui e viemos para ficar, que o nosso sucesso não é fruto do acaso, mas de uma estratégia a longo prazo.

Embora o preto esteja totalmente saturado, ele absorve todo o espectro e não remete para nada, ele proíbe que qualquer uma das cores capturadas por si consiga dominar (o preto é o conquistador, o soberano de todas as cores). Para esta luta constante estaremos bem protegidos com a cota de malha (muito usada nas guerras de D. Afonso Henriques)  representada pelos hexágonos na camisola preta (se o cavaleiro atacasse com a sua espada de lado a espada não poderia penetrar no corpo do conquistador).

Esta época a nossa armadura volta a ser preta e branca e a fazer referência constante ao passado que servirá de fonte de inspiração para a construção de um presente e futuro de conquistas.

O preto e o branco são a mistura da simplicidade mais difícil com a complexidade mais fácil. O preto e o branco são o refúgio das outras cores da sua própria nulidade. O preto e o branco são uma jornada no espaço que se destina a voltar à terra.

Eu podia olhar para esta pré-época e decidir ver o nada como um mau prenúncio, mas para mim é fundamental que os olhos aprendam a ouvir e a sentir antes de verem. A vida é feita de pequenos, precisos e triviais detalhes de algo que se pode transformar em nada ou em tudo dependendo da forma como decidimos olhar para eles.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.