Gualterianas

“Os festivais no jardim, pela tuna dos Empregados do Comércio do Porto; o exercício dos bombeiros; a marcha milanesa, uma novidade de efeito fantástico, pelo bem combinado da composição, em que pela primeira vez apareciam entre os carros alegóricos de grande fantasia e surpresa, figuras com movimentos e interiormente iluminadas, uma inovação surpreendente; os concertos por bandas regimentais e outras; os fogos de artifício de lindo efeito, como só em o norte os fazem; as iluminações à moda do Minho, cuja fama chegou até ao sul, onde também já se apreciam; finalmente uma festa esplêndida que teve a cidade de Guimarães três dias em regozijo público e lhes trouxe um movimento extraordinário para o seu comércio, que é sempre a principal mira e lado prático a que se aspira, e cremos que desta vez com óptimos resultados, em vista da extraordinária concorrência de forasteiros na cidade como há muitos anos não sucedia.”

O Ocidente, n.º 1139, 20 de Agosto de 1910, pp. 187-189

Guimarães veste-se de gala a cada ano para receber os vimaranenses e visitantes na época das romarias e das festas populares. É Agosto e as noites quentes prometem, à imagem do que podemos ver no texto de 1910, ruas iluminadas, enfeites coloridos à moda do Minho, farturas, pipocas, algodão doce e muita animação.

Como todas as festas religiosas, o seu lado pagão é muito vincado, juntam-se em grandes grupos as famílias, com as diferentes gerações, para conviverem, divertirem-se e viverem ano após ano a tradição. De dia vivem as tradições religiosas em homenagem a S. Gualter com as longas procissões mantendo assim viva, embora de diferentes formas com diferentes intensidades, a adoração ao padroeiro da cidade.

Se algumas tradições se mantêm vivas, outras foram-se esquecendo por já não fazerem sentido, acompanhando o progresso e até a mudança de mentalidades. Outras ainda, foram sendo abandonadas, excluídas mesmo, sempre a pretexto de uma qualquer obra de recuperação, de uma estrada em remodelação, quase sempre, embora não assumida,  de uma visão diferente e até um pouco elitista para Guimarães.

A feira de artesanato com artesãos de todo o país foi deslocada do jardim da Alameda e confinada às paredes do multiusos e no presente, simplesmente, não existe. Aos poucos foram retirando as barraquinhas de comida e de venda de produtos vários das ruas principais da cidade e foram-nas amontoando perto da igreja de S. Gualter.

No presente temos a principal festa dos vimaranenses remetida a um espaço fora do centro e, apenas no último dia, a festa ganha as ruas com o desfile dos carros alegóricos e coloridos que, pelo seu brilho e grandiosidades, continuam a chamar muita gente para, todos juntos, manterem a tradição e homenagearem os obreiros que lhe dedicam horas dos seus dias durante meses.

Todas estas alterações foram surgindo sem que os vimaranenses fossem ouvidos, fossem consultados e sem que lhes fosse dada a oportunidade para se pronunciarem sobre os rumos da sua festa.

Em todos os locais, ouve-se o desagrado da população, sente-se a tristeza pela pobreza das festas e há até que teorize sobre a possibilidade do executivo camarário querer acabar com as festas, tal é o desinteresse que demonstram ano após ano pelas mesmas.

Uma coisa é cada vez mais clara. O palco principal da cidade, o centro histórico, está apenas disponível para as festas recentes, copiadas de outros contextos, enquanto as tradicionais continuarão a sofrer com certas opções políticas e a  não honrar a vontade dos vimaranenses em reviverem as suas tradições.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.