Esta paixão vai tornar o Vitória um dia campeão

Este fim-de-semana o Vitória venceu o Troféu da Póvoa do Varzim. Depois de um longo período sem jogos, os adeptos do Vitória puderam finalmente poder voltar a ver a sua equipa a jogar.

Eu comecei o fim-de-semana passado com um único objetivo: voltar atrás no tempo para os dias em que o Vitória era pura e simplesmente um passatempo, um prazer, uma diversão. Voltar aos tempos em que eu ia a um jogo de futebol, festejava os golos, berrava com o árbitro quando ele cometia erros, cantava sem parar e depois continuava a minha vida fora do estádio normalmente.

Tempos simples, em que reforços, questões financeiras e teorias da conspiração não faziam parte do meu dia-a-dia. Tempos simples em que o Vitória existia apenas nos 90 minutos em que estava no estádio e não nas 24h do meu dia. Tempos simples em que o Vitória era fonte de energias positivas e não o motivo do meu mau humor por ter passado dias e noites a discutir o seu futuro.

No sábado sentei-me acidentalmente na zona da claque do Vitória no estádio do Varzim SC e foi honestamente a melhor coisa que me podia ter acontecido.

Eu não sou ultra, nem tenho pretensões de o ser, mas aquela gente (que é a NOSSA gente) e que tão criticada foi no decorrer desta semana, fez-me relembrar do porquê de eu me ter apaixonado por este clube, fez-me voltar a sentir felicidade pura naqueles 90 minutos. Fez-me desvalorizar a segunda parte menos bem conseguida da equipa no campo e sorrir durante todo o jogo enquanto a minha voz se juntava às suas para em uníssono fazer aquilo que é o seu grande objetivo de existência: apoiar o Vitória incondicionalmente e tornar-se parte integrante da equipa, tornar-se o 12.º jogador que, mais uma vez, foi o MVP do jogo e o elemento fundamental na reviravolta do resultado.

Eles são o coração do Vitória que sem floreados fazem as mais simples palavras soarem a autênticos sonetos de amor ao nível das mais belas obras literárias. Não são poetas nem cantores, mas o seu amor por este clube faz com que as suas exibições fora de campo sejam autênticos espetáculos que nos deixam vontade de aplaudir de pé e desejos de voltar a ver vezes sem conta.

Ser ultra é muito mais do que estar num determinado sector no estádio de futebol, é uma forma de vida. É, acima de tudo, apoiar o Vitória intensamente fazendo uma autêntica festa nas bancadas utilizando-se de bandeiras, confettis, faixas de apoio, petardos, tochas potes de fumo, pinturas faciais e, acima de tudo, a sua voz. Eles apoiam a equipa durante 90 minutos sem parar na eterna esperança de que um dia este amor torne o Vitória campeão.

Esses espetáculos incluem efeitos de cor e de fumos que muitas vezes são criticados, mas que tenho de admitir embelezam a festa. Não podemos ser hipócritas e adorar fotografar e partilhar esses momentos nas redes sociais e depois insultá-los por usá-los.

Petardos e potes de fumo pertencem nas bancadas. As pessoas que decidem viver os jogos no meio das claques têm consciência que eles existem e não se opõe à sua utilização. Existe, com tudo, uma grande diferença entre usá-los para fazer a festa e usá-los para atos de violência. Na minha humilde opinião, a pirotecnia pode ser forma de apoio nas bancadas, mas quando sair daí, quando for arremessada para o campo e se tornar factor perturbador do jogo que está a decorrer e/ou se tornar uma ameaça para outros deve ser considerado crime e os seus infractores penalizados.

Enganem-se se pensam que estes grupos são constituídos por adolescentes marginais e arruaceiros. No meio do epicentro de apoio aos Conquistadores encontrámos homens e mulheres, indivíduos dos 8 aos 80 anos que estão unidos por este amor incondicional e que utilizam as suas vozes para empurrar o Vitória para a vitória, para os triunfos, para a glória. São eles os maestros dos belos espetáculos que se assistem nas bancadas de qualquer estádio onde o Vitória esteja a jogar.

Eles percorrem este país de lés-a-lés todas as semanas para garantir que o Vitória nunca estará só, eles sacrificam o seu tempo, o seu dinheiro e os seus tempos livres para apoiar o Vitória. Eles vivem e respiram Vitória 24h por dia, 7 dias por semana.

Ultras e marginais são, infelizmente, palavras que muitas vezes se confundem nos nossos discursos. As histórias de violência constantemente associadas aos elementos dos grupos de adeptos organizados impedem-nos, muitas vezes de valorizar a sua prestação, envolvência e presença nos jogos de futebol.

A maioria dos adeptos das claques não é violenta. Nos últimos anos tem sido mais fácil apontar o dedo às claques ao invés de confrontar os dirigentes e comentadores desportivos que persistem em usar o seu tempo de antena para propagar o discurso de ódio. A carga verbal que antecede os jogos continua a ser, para mim, um dos principais fatores do aumento dos episódios de violência que assistimos na época passada.

Durante muitos anos eu fui uma daquelas pessoas que fazia a associação automática de violência com claques e essa associação fez com que me mantivesse afastada do futebol até uma fase tardia da minha vida. Não podemos negar o histórico de violência – infelizmente já aconteceu -, mas continuo a achar que a solução passa por castigos àqueles que se servem do futebol e do Vitória como motivo para serem violentos e proibi-los de entrar nos estádios.

Numa época marcada pela violência e pelo confronto entre adeptos, devo admitir que me senti extremamente orgulhosa por não haver qualquer tipo de conexão entre esses atos e as claques do Vitória.

Aos ultras do Vitória resta-me agradecer por nunca permitirem que o Vitória caminhe só, obrigada por serem os maestros dos belíssimos espetáculos que temos assistido nas bancadas. Obrigada por me relembrarem que me posso permitir-me aproveitar um jogo de futebol e ser apenas feliz enquanto apoio o Vitória. Obrigada por fazerem com que a chuva seja sol. Esta paixão vai tornar o Vitória um dia campeão.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.