As próximas Eleições Autárquicas

O país político-partidário e também os órgãos de comunicação social vão agitando este tema, à medida que se aproximam as eleições de 1 de outubro. O primeiro enreda-se, em casos, ainda que específicos, numa luta intestina, sem paralelo no passado, que pode vir a provocar alterações localizadas, que surpreenderão aqueles que não acompanham de perto as atividades políticas locais. Os segundos analisam diretamente o tema aqui e ali, sendo de louvar este seu legítimo e justificado trabalho, dirigido ao esclarecimento do cidadão em geral. Complementam-no, porém, de uma forma sub-reptícia, enxertando-o nos acontecimentos mais candentes do quotidiano. Adaptam-nos à “lógica” das circunstâncias mais convenientes, visando a audiência da sua clientela.

Voltando ao país político-partidário, impõe-se abordar o modelo de atuação que começa a ganhar lastro e que a lei de limitação de mandatos acabou por incentivar. De facto, hoje, há nas autarquias lugares políticos de relevância local, cuja “morte” está anunciada nos termos da lei. Isto agita, por antecipação, algumas gulosas apetências, predispostas a não perder o comboio das suas ambições.

No primeiro mandato em que tal lei entrou em vigor e foi aplicada, vieram a terreiro alguns sinais no seio dos aparelhos partidários locais, que se foram refinando até aos nossos dias.

As subtilizas de então deixaram de o ser e deram forma a comportamentos desviantes, pondo a nu a falsa militância que por aí vai grassando.

A conduta de uns quantos, ainda que localizada, reforça a fragilidade do conceito negativo que a generalidade dos cidadãos tem da política autárquica. Os eleitores de proximidade, penso, não validarão pretensões estritamente pessoais, castigando os oportunismos dos travestidos de independentes. Estes, à falta de outros argumentos, lançam mão de um populismo bacoco, assente em “bandeiras” locais que tiveram o seu tempo no Portugal de antanho.

A essência da cidadania exige, de qualquer candidato a um órgão politico, a probidade e o lastro social e intelectual que credibilize as instituições que vão servir e aquelas de onde emanam e não o seu contrário.

Também os eleitores se vão apercebendo de que, por razões várias, quem nos governará, poderão não ser “os homens bons” das nossas terras, nem os mais habilitados que sempre se empenharam nos interesses da rés-pública. Aproximam-se agora os chico-espertos, sempre disponíveis para chafurdar na mesquinhez de um qualquer sindicado de voto, que lhes permita atingir, ainda que de forma soez, os objetivos que darão corpo às suas egocêntricas pretensões.

Adivinha-se, a nível nacional, e particularmente nos dois partidos de maior expressão eleitoral, uma luta doméstica, ainda que de contornos bem localizados, que de luta politico-democrática séria nada tem.

Cá estaremos para observar os avanços e recuos do posicionamento cívico-político de uns quantos e então, com os resultados de tão emaranhado calculismo que por aí campeia, poderemos e deveremos tirar ilações do que vier a suceder. Os responsáveis da vida política nacional, caso tal se justifique, não devem permitir o agonizar dos sãos princípios democráticos, consagrados na Constituição da República. Falo, como é óbvio, de uns quantos, e começam a ser muitos, que usam o cartão de militante político para ínvios fins pessoais.

As eleições de 1 de outubro vão permitir-nos conhecer os franco-atiradores de última hora que, julgo, salvo situações excecionais, não terão sucesso. É que, uma coisa é ser assumidamente independente, outra, bem diferente, é usar o estatuto de militante, cujo cartão guardam no bolso mas não lhes toca a alma político-partidária, que remetem para o inferno ao primeiro aceno do diabo, deixando-se enredar por ele nos seus abjetos interesses pessoais.

António Magalhães, 72 anos, é presidente da Assembleia Municipal de Guimarães desde 2013. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).