DIFERENÇA: (ATÉ) MAIS DO QUE UM DIREITO, UMA CARACTERÍSTICA INCONTORNÁVEL

(…) Ai esta mágoa, ai este pranto, ai esta dor,
Dor do amor sozinho, o amor maior (…)

Há uma certa facção intelectual, em Portugal, que gosta de apoucar o Povo, recorrendo ao estafado argumento dos ‘três éfes’, e de como estes ainda vivem, pujantes, no nosso seio, explicando, em grande parte, segundo essa linha de pensamento, o nosso (o dos Portugueses) pretenso (ou notório?) ‘atraso’.

Fado, Futebol e Fátima é uma falácia. Vou repetir: Fado, Futebol e Fátima é uma falácia.

É certo que o regime salazarento serviu, em banquete farto (porém de forma tosca), essa ementa. Mais do que servir, serviu-se. O jeito que deram, por exemplo, uma Amália e um Eusébio, embaixadores à força de um País a cadeado.

Nem sequer aceito um ‘também’. O atraso do País não se deveu, nem se deve, aos ‘três éfes’: O atraso do País é da exclusiva responsabilidade de uma Igreja repressora e juíza dos costumes, aliada a uma educação/instrução que manietou a seu bel-prazer, gerações e gerações de crianças tolhidas pelo medo. Essa herança está, ainda, embrenhada como uma lapa. Ou como uma carraça.

A Igreja pouco mudou (à excepção de ter perdido parte da influência no ensino) …e a educação/instrução, idem. O que realmente mudou foi o acesso à informação (que era, antigamente, ‘propriedade’ de poucos). Com isso, equilibrou-se a balança do ‘saber’ (ou conhecer).

A informação, mais do que o ensino, democratizou-se. É essa a grande diferença.

Porque, de resto, subsiste a salazarice (ou derivados) por toda a parte:

A falta de cultura no ensino/instrução, que ainda não se convenceu de que não vai lá com ‘ensinar’ (à força). Há mérito na apreensão de conteúdos por decalque?

– Será assim tão complicado deslindar que aquilo que é absorvido no ensino é replicado, mais tarde, na sociedade? A crise de valores (e de tudo, no fundo) é daí procedente. Será difícil apreender os valores do respeito, do trabalho, da palavra, da honradez e da justiça (esquecendo a competição, que nunca será justa, seja em que circunstância for)? Será impossível enveredar pelo cultivo das relações inter-pessoais (não por tolerância, que é uma palavra abominável, mas por princípios)? Talvez fosse hora de descer da cátedra e apostar na aprendizagem mútua: na valorização da diferença enquanto característica; –

Continua, porque foram muitos anos disso, a subserviência ao ‘Sr. Doutor’ (porque basta-lhe ser Doutor) por parte de uma larga fatia do nosso Povo (porque foi essa a realidade vivida);

– Agora, com a banalização dos ‘Senhores Doutores’, e com a realização de que são pessoas como as outras, com defeitos e virtudes, com boas decisões e com erros, não estaria já na hora de perceber que um título, por si só, não confere virtudes? Em que mundo paralelo (ou não, infelizmente) é que as pessoas vivem? No do culto do estatuto? –

Estas e outras considerações, que não têm lugar nestas linhas porque ocupariam um espaço bem mais (muito mais!) extenso, chegam-me de chofre, num misto de raiva contida e ânsia, de revolta ordenada, a propósito das declarações do Doutor Gentil Martins, reputado médico deste País.

Irei, por manifesta falta de pachorra, escusar-me a comentar a ‘polémica Ronaldo’ (o jogador, que não é Doutor, mas tem um estatuto – Oh, o sagrado estatuto que tudo desculpa! – do tamanho do seu ego (ou talvez não, ou talvez não). Concentrar-me-ei, apenas, na questão da ‘anomalia’ com que o senhor Gentil brindou os homossexuais de todo o mundo (e não apenas de Portugal).

Sou contra a exacerbação grotesca, o exagero, o ‘esfregar na cara’, o sensacionalismo, o show-off, os lobbies, tudo o que me soe ou pareça forçado, vindo(s) de Gays (percebo-as, apenas, à luz de uma tentativa de afirmação contra as amarras durante tanto tempo, demasiado, impostas). De pessoas heterossexuais não é diferente: aplicam-se exactamente os mesmos pressupostos.

Ser(-se) Gay é uma característica (e não uma diferença). Ser(-se) Gay não é uma escolha, nem uma paranóia momentânea ou passageira.

Ser(-se) Gay é um ‘fatalismo’ (nem bom, nem mau) parecido com o da cor do cabelo ou o da tendência para cores escuras ou garridas. Socorrendo-me da expressão de uma pessoa amiga, ainda que noutro contexto, ‘do que nasce para dar pêras jamais colheremos laranjas’.

Há quem considere que os Gays estão na moda, ou que agora há mais Gays do que antigamente. Essas pessoas, parece-me, nunca pararam para pensar. A Homossexualidade (tal como a Heterossexualidade) é tão antiga quanto a prática sexual entre Humanos. Tudo se transformou, ou quase, quando apareceu quem definisse o ‘certo’ e o ‘errado’.

Senhor Gentil, como pessoa informada que deve(rá) ser (e poupai-me ao vómito do argumento contra o ‘politicamente correcto’, porque não é disso que se trata), como indivíduo que não se reverá na ignorância, sem desculpas filosofico-teológicas (ou de qualquer outra ordem), como cidadão com responsabilidades, como explica a sua tirada, à luz da ciência?

Há uns anos, não muitos, num determinado período da minha vida, foi espalhado, por pessoas que nada mais tinham a acrescentar a este mundo, o rumor da minha suposta homossexualidade. Devo referir que não me magoou a falsidade do boato, mas sim o que a mesma acarretou (para mim): desprezo, escárnio, discriminação (a juntar ao que de mau eu já vivia, na altura). Imaginei como seria ter de (sobre)viver assim. A luta dos homossexuais é também a minha luta.

NOTA: Os versos que encimam este texto pertencem ao fado ‘Meu amigo está longe’ (Alain Oulman), letra de José Carlos Ary dos Santos, homossexual assumido, para a insuperável Voz de Amália Rodrigues. Especulou-se, muito, sobre quem seria o visado (talvez um soldado partido para a Guerra Colonial). Escolhi-o por várias razões: pelo desassombro do Poeta, pela coragem do compositor (preso e perseguido pela PIDE) e pela intrepidez de Amália, que teve fama de ‘salazarista’, mas para quem Alexandre O’Neill, David Mourão-Ferreira ou o referido Ary dos Santos, todos ‘homens do regime’, claramente, compuseram. Haja paciência.

Paulo César Gonçalves, Dramaturgo

NOTA SEGUNDA: Por expressa decisão do autor, este texto não obedece às normas do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa.