O Carrossel do Comércio

As padarias, as mercearias com os produtos ao peso dentro de cartuchos de papel, as lojas de pronto a vestir, as imensas sapatarias, as livrarias, as lojas de malas e as retrosarias. As ruas com os passeios largos que surgiram da necessidade de se arrumar a cidade de Guimarães para receber a Capital Europeia da Cultura.

Montras preenchidas de produtos coloridos e diversificados, para todos os gostos e tamanhos foram cedendo às crises, à falta de dinheiro nos bolsos dos vimaranenses ou à abertura dos grandes espaços comerciais onde se concentram todas as comodidades. Nesses espaços existe a restauração, as lojas mais diversificadas, o estacionamento e o clima controlado tanto de Verão como de Inverno.

Teimamos em fugir para os espaços cobertos pelos tectos nos dias de calor na rua, aproveitamos para fazer umas compras e passar o tempo. Teimamos em fugir para os grandes espaços fechados nos dias de chuva e frio na rua e o horário como se estende em 14 horas diárias podemos frequentá-lo no horário que nos der mais jeito.

E assim vamos conscientemente destruindo o comércio tradicional, as lojas que vendem produtos únicos, a granel e em pequenas quantidades. As lojas pequenas onde se encontram lojistas que sabem o nome dos clientes mais frequentes e a atenção próxima e personalizada que só nestes espaços podemos encontrar.

Algum deste comércio mantém as suas portas abertas, principalmente, aqueles que herdaram o negócio e por isso teimam em mantê-lo vivo. Outros escolhem renovar os produtos, mudar o negócio ao sabor das modas e assim vão conseguindo sobreviver e manter o salário no fim do mês.

No entanto, muitas são as portas que abrem hoje e fecham amanhã. Espaços onde o dono aplicou todo o seu dinheiro, os seus sonhos e acreditou no seu sucesso. Depois o que encontra no dia-a-dia são as ruas vazias, os dias de chuva intensa ou de calor insuportável. Os dias em que os habitantes fogem para as praias, para a montanha, para os eventos das outras cidades, para as grandes superfícies.

Os dias de turismo em que o turismo é feito a correr, porque Guimarães pode ser visitada numa manhã e os guias encaminham os visitantes de forma ordenada e com pouca liberdade. Existem as grandes cidades para ver, Porto e Braga, Guimarães é bonita mas está nos roteiros como um local de passagem.

Desta forma, o comércio tradicional não resiste. Não se pode manter de pé algo que não alimentamos, que não dedicamos tempo, que não nos esforçamos para que evolua.

Em tempo de eleições ouvem-se todos, ouvem-se os comerciantes, os mesmos que andam há anos a pedirem para serem ouvidos. A pedirem que não se façam as festas todas no mesmo mês, a pedirem que se redistribua o dinheiro que financia as grandes festas de forma diferente, promovendo eventos mais pequenos que tenham lugar ao longo do ano, a pedir que olhem para eles naqueles meses ingratos de frio e de pouca luz em que ninguém se lembra deles e as contas ao fim do mês são demasiado fáceis de fazer.

Mais vale tarde do que nunca, também é verdade! Pode ser que depois das promessas e das palmadinhas nas costas, o comércio de rua onde qualquer vimaranense pode saborear uma boa refeição, pode comprar os mais diversos bens, ao mesmo tempo que submerge em ruas cheias de história e ar puro, se transforme na menina dos nossos olhos, num carrossel de luz e cor, num local onde o pequeno é grande todos os dias.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.