Amor sem fronteiras

Há 2 anos num jogo de pré-época como o de ontem, depois de um (sempre demasiado) longo período sem jogos no D. Afonso Henriques, eu estava sentada na minha cadeira quando me apercebi da presença de um senhor todo vestido de branco sentado duas filas abaixo no setor ao lado do meu (sentado talvez não seja o termo correto: se o senhor conseguiu estar 5 minutos sentado durante todo o jogo foi muito).

Nunca o tinha visto, nunca mais o voltei a ver, mas aquele senhor, naquele jogo, marcou-me. Já não me recordo com quem jogamos, como ficou o jogo, nem sequer da prestação dos jogadores (é esse o objetivo dos jogos de pré-época, certo?), mas lembro-me da forma como aquele senhor viveu aquele jogo.

Aquele senhor viveu cada passe como se fosse decisivo, celebrou cada bola à trave como se de um golo se tratasse, aplaudiu cada defesa como se estivesse a ver o melhor espetáculo de sempre e entrou em êxtase com os golos como se fossem o melhor momento da sua vida. O senhor corria atrás da equipa, dava indicações sobre o que os jogadores deviam ou não fazer. O senhor foi um verdadeiro treinador de bancada naquele dia. Não precisei de lhe perguntar. Soube nos primeiros momentos que era emigrante e estava a ver o seu (nosso) Vitória pela primeira vez em muito tempo.

Aquilo que para mim se tinha tornado de certa forma “banal” – ver um jogo do Vitória no estádio -, era algo que aquele senhor ansiava fazer há muito tempo. Imagino-o a aproveitar todas as oportunidades que tivesse para falar do seu Vitória aos amigos e colegas de trabalho do país que residia. Imagino-o a viver numa casa portuguesa com certeza onde para além do pão e vinho sobre a mesa fica bem um cachecol do Vitória. Imagino-o a ver os jogos do Vitória na televisão e a sofrer por não poder estar ali no meio dos seus, nas nossas bancadas a torcer pelo nosso Vitória. Imagino-o a tornar os seus filhos e netos sócios do Vitória assim que nasceram e a ensiná-los amar o Vitória incondicionalmente mesmo sem nunca terem pisado o solo vimaranense. Imagino-o a contar os dias para poder finalmente regressar a casa, para voltar ao estádio do Rei.

Como este senhor, são muitos aqueles que por múltiplas razões se viram obrigados a deixar o seu país e a sua cidade em busca de um futuro melhor.

Emigrar implica duas coisas: estar disposto a recomeçar e saber abdicar; e quando se trata de um vitoriano, emigrar implica ter de abdicar não só da sua família e amigos, mas também do Vitória – de acompanhar o Vitória de perto, porque do Vitória nunca abdicam de forma alguma. Muito pelo contrário, acho que o seu amor pelo clube ainda consegue fortificar-se e a sua relação com o clube tornar-se mais íntima do que quando estavam perto.

A forma como as histórias de vida destas pessoas se cruzam com a história do Vitória sempre me fascinou. Há quem percorra longos quilómetros só para poder ver um jogo, apoiar o Vitória e voltar para o outro país passadas umas horas. Há quem se sacrifique a trabalhar por vários turnos consecutivos para que depois possa passar uns dias em Guimarães e faça questão que esses dias sejam agendados para dias em que o Vitória jogue. Há quem venha da Índia de propósito para ver o Vitória no Jamor (eu só vi a placa nas fotos, não vi a pessoa no Jamor, mas aquela placa ainda hoje me rouba um sorriso). Há quem fale tanto do Vitória no país onde reside que consegue colocar pessoas que não percebem uma única palavra de português a cantar o hino do Vitória.

São estas pessoas que gritam Vitória sempre e mais alto achando que nunca é demais, são elas que levam o D. Afonso Henriques ao peito enquanto galopam pela Europa (mundo) e levam o nome deste grande clube aos quatro cantos do mundo.

Ser emigrante não deve ser nada fácil. A maioria dos relatos que oiço/leio demonstram o quão estranhos eles se sentem em ambos países a que pertencem. Em Portugal olham para eles como os “tipos que vivem lá fora e que não fazem a mínima ideia do que se passa aqui” e onde vivem são vistos como estrangeiros – por muito integrados que estejam acabam sempre por sentir, de certa forma, que não estão o suficiente. O sentimento de pertença é extremamente híbrido e muito difícil de alcançar.

Gosto de acreditar que naqueles 90 minutos que estão no D. Afonso Henriques (ou em qualquer estádio a apoiar o Vitória) estas pessoas encontram finalmente o seu lugar, se sentem parte integrante de algo. Gosto de acreditar que no D. Afonso Henriques, no meio da família vitoriana eles se sentem em casa.

Na verdade, eu gostava que todos pudessem ser felizes na cidade onde nasceram e que se pudessem orgulhar que o Vitória é grande e que Guimarães é o seu lugar. Gostava que o tempo e o espaço não fossem indicadores de sofrimentos e que as fronteiras se encurtassem com a proximidade dos sentimentos.

Tal não é possível, mas espero que aproveitem este mês para encher a mala de cânticos, de palmas, de abraços, de sorrisos, de passes, de defesas, de golos e (se possível) com a Supertaça para ajudar a atenuar a saudade do Vitória, de Guimarães e da família nos longos meses que se avizinham.

Num ano de regresso às competições europeias é bom pensar que mais do que a Europa à sua espera, o Vitória terá, onde quer que vá competir, um número elevado de vitorianos que há muito espera por vê-lo perto de si e que serão, sem dúvida, elementos fundamentais na conquista da Europa.

Eles podem sentir-se estranhos em ambos os países, mas tenho certeza que o seu coração tem residência fixa, que conhecem o cheiro do relvado, que a sua língua é o amor pelo clube e que se eu olhar para o lado estará sempre lá o senhor todo vestido de branco sentado duas filas abaixo no setor ao lado do meu no estádio a viver o jogo intensamente.