Cheira a… Alcatrão

Cerca das sete e meia da manhã, quando o Sol começa a tarefa diária de aquecer a terra, dou início à minha habitual caminhada. Desço, a partir do meio da encosta poente de Candoso, em direcção a Pevidém, enfrentando o perigo, em cada uma das muitas curvas que contorno, em cerca de cinco quilómetros, ida e volta.

O trânsito, composto por carros, carrinhas, camionetas e camiões, transportando passageiros de todas as idades, desde crianças para creches e jardins-de-infância, alunos para escolas primárias ou secundárias, trabalhadores de diversos ramos profissionais, até idosos que partem à aventura, diariamente repetida, para justificar o investimento no passe social.

Apesar dos gases, largados pelos escapes dos veículos, aprecio sempre os cheiros das sequentes estações do ano. Os deste início de Verão, em que, criados na Primavera, amadurecem os frutos e as flores atingem o seu esplendor, são particularmente intensos.

Até que, numa bela manhã, tendo em conta as agendas políticas, repetidas de quatro em quatro anos, com toda desfaçatez, oiço o barulho de máquinas, no alto, a meio e mais abaixo da freguesia. Inicio a descida e, de repente, entra-me, através das narinas, aquele cheiro característico a… alcatrão.

Chego à vila e, espanto! Mais alcatrão, em mais do que um lugar.

Decido passar por outras zonas do concelho e fico deveras surpreendido, com a quantidade de alcatrão que, só nos últimos meses, tem sido aplicada, nas estradas do concelho. Com tanta estrada alcatroada, a três meses das autárquicas, não se ouvirá mais aquela senhora, que perdeu o tacão na fenda estrada, aquele automobilista que rebentou o pneu no buraco ou aqueloutro que levou com gravilha alcatroada, depois dos “chapiscos” com que taparam as crateras, para aguentar até à pré-campanha.

Para culminar toda esta onda e perante os indecisos, na hora de votar, só falta aparecer um enviado, mesmo que tenha mudado de camisola, a aconselhar: VOTA NO ALCATRÃO!

Joaquim Teixeira é deputado pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Guimarães. É sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.