O preço de tudo

Vai longe a lentidão dos dias de Verão difíceis de preencher, em que se arrastavam conversas nas horas de maior calor ou nas noites em que o sono esperava por uma brisa amiga. Da chegada animada de familiares que traziam novidades que desafiavam a nossa quietude.
A velocidade com que tudo acontece e tudo encurta parece ter retirado lugar aos relatos das experiências que, para nós, são sempre únicas. As fotos partilhadas no momento, despidas das palavras e do colorido de outrora e das emoções que transbordavam são de uma monotonia assustadora. Rostos sem enquadramento, sorrisos de ocasião…

De ocasião são também os lugares de destino de férias no estrangeiro, cada ano uma moda, acompanhados das habituais queixas do excesso de frequentadores. Agora, o feitiço virou-se contra o feiticeiro e as nossas cidades, que adormeciam em agosto, estão povoadas de curiosos ávidos de uma cultura local que se esbate na proliferação de lojas de recordações massificadas.

Num país com uma média de duas centenas de dias de sol os restantes portugueses não são capazes de diversificar o seu tempo de lazer e peregrinam obedientes para o litoral, como se para Meca se dirigissem e, qualquer confusão com Meco nem é pura coincidência.

E ainda mais de ocasião é este pacote de propostas de um futuro local mais risonho, grande parte delas terão um rasto de anos ate se concretizarem. Com a distância será esquecido o dia da promessa e, na hora da inauguração serão coroadas de palavras como inovação e outras que vão entrando no nosso léxico, perdendo o seu sentido de tanto uso abusivo.

Como de ocasião são os grupos que se animam para um dia eleitoral e se desfazem, depois de serem conhecidos os resultados.

Nesta voracidade de acontecimentos não nos damos conta que não é de ocasião o êxodo de jovens para outros países, os portugueses têm nos genes esta ansia de partir, de largar tudo à procura no desconhecido de algo melhor, que nos levou a tantos cantos do mundo. E é profundamente hipócrita atribuirmos este fenómeno, ou o seu contrário, à vontade de alguns líderes como se fosse algo estranho. Por um lado, queremos ser parte de uma Europa alargada e depois negamos essa vantagem incrível de sermos europeus e podermos escolher onde estudar, trabalhar, residir e constituir família.

Nesta amálgama de contradições fica a esperança que o Verão trará sempre à terra os seus descendentes em busca de memórias, sabores e lugares que muitos nunca conheceram.

Luísa Oliveira, licenciada em Serviço Social , formadora e consultora. Presidente da Cooperativa Desincoop – Desenvolvimento Económico, Social e Cultural, CRL da qual é fundadora, iniciou  a sua intervenção politica como deputada municipal e anos mais tarde como vereadora da Câmara Municipal de Guimarães.