Nós somos Vitória (mesmo com erros)

Todos já ouvimos as expressões “errar é humano” e “temos de aprender com os erros”. Cometemos erros todos os dias, quer sejam grandes ou pequenos, mas é difícil senti-los como uma ótima oportunidade de aprendizagem. O medo de assumir o erro torna-o ainda mais grave e o efeito bola de neve vai fazendo com que um pequeno erro tome dimensões monstruosas.

No sábado em Aveiro esses erros foram pagos a preço de ouro. Esses erros custaram-nos a conquista da Supertaça e a possibilidade de começarmos a época a assumirmo-nos como um dos grandes de Portugal.

O guia da época do Record começa por dizer que “não se pode exigir ao Vitória que mantenha os bons resultados da época passada” e eu pergunto-me “porque não?”. Porquê que o Vitória continua a não conseguir assumir-se futebolisticamente como uma potência nacional? Porquê que continuamos a falhar nos momentos cruciais? Porquê que não temos a capacidade de dar o salto? Porquê que sabemos que cometemos erros, mas persistimos em não aprender com eles?

Nós sabemos que as nossas deficiências nos tornam únicos e que devíamos aceitá-las e fazer com que elas se tornem uma armadura para que nunca possam ser usadas contra nós, contudo, é um desafio contante viver e agir de forma a evitar os erros: não assumimos riscos, não saímos da nossa zona de conforto e vivemos a vida escondidos numa caixa. Assim torna-se difícil sermos o Vitória que nós sabemos que somos capazes de ser.

Não serve de nada continuar a chorar os erros de sábado, mas os erros ensinam-nos a esclarecer o que realmente queremos e a forma como queremos viver. Queremos ser eternamente o clube que quase conseguiu, o clube que ganha eternamente nas bancadas, mas que não consegue responder em campo? Ou queremos dar o salto e ser finalmente o clube que existe na cabeça de todos nós? O clube que tem potencial para conquistar a Liga Nacional e fazer uma boa campanha europeia?

Queremos apostar na formação? Vamos apoiá-la mais e depois fazer render os frutos desse trabalho não só na equipa A, mas também nas transferências. De que serve andarmos a “gastar tempo e dinheiro” com um jogador se depois não lhe damos espaço no plantel ou o vendemos por trocados? De que serve “gastar tempo e dinheiro” com um jogador se depois vamos buscar jogadores emprestados com qualidades inferiores e lhes damos o seu lugar?

Queremos ser uma potência nacional? Chega de nos encobrirmos nos infortúnios do passado. Está na hora de apostar, de crescer. Há 5 anos eu aceitava a justificação da péssima situação financeira (ela existiu, foi real e o clube esteve a muito pouco de fechar portas, nós sabemos), mas graças ao fantástico trabalho da direção nessa área e às conquistas desportivas que se foram alcançando, essa não devia de ter deixado de ser uma desculpa?

Queremos ter um plantel competitivo? Sempre me ensinaram que para ganhar é preciso gastar. Não precisamos de fazer compras milionárias, mas está mais do que evidente que temos posições deficitárias e para as quais se torna imperativo encontrar soluções. Se elas não estão na formação, precisamos de as encontrar em algum lado (o mercado de transferências está aberto até dia 31 de Agosto).

O Vitória começa quinta-feira uma luta com 4 frentes (Liga Nacional, Liga Europa, Taça de Portugal e Taça da Liga) e, por mais que eu acredite na capacidade de sucesso do plantel que temos neste momento (estou tão confiante numa boa época que se isto corre mal eu acho que entro em depressão), questiono-me se teremos um plantel capaz de estar nestas 4 frentes ao mesmo tempo e obter sucesso nas quatro. Eu sei que uma das nossas grandes vantagens sempre foi fazer muito com pouco, mas acredito que este é o momento de investir.

Queremos que os outros nos respeitem? Está na hora de “batermos punho” e de não permitirmos que sejamos motivo de gozo. Os erros individuais da Supertaça não se ficaram pelos elementos do Vitória. O vídeo-árbitro – que supostamente vinha para melhorar a verdade desportiva – veio apenas para justificar a incompetência e parcialidade dos árbitros portugueses. A ferramenta tão desejada mostrou-se claramente ineficaz e prejudicou nitidamente o Vitória, mas não ouvimos qualquer tipo de declaração quanto a isso. Nós não queremos ter mais um Presidente que passa os dias nos media a reclamar de tudo e mais alguma coisa, mas precisamos que quando o Vitória é claramente prejudicado exista alguém que nos defenda.

Os erros deviam servir também para perceber que a grande riqueza do Vitória são os adeptos. Que nós continuaremos a apoiar o Vitória independentemente de todos os erros que forem cometidos porque o nosso amor é incondicional, mas nós merecemos muito mais: mais garra, mas atitude, mais eficácia, mais concentração, mais investimento, mais transparência, mais informação. Está na hora de perceberem que o mau não é ter adeptos críticos: mau será o momento em que não quisermos saber (acho que nunca irá acontecer, mas nunca se sabe), o momento em que aceitarmos tudo sem reclamar. O Vitória é NOSSO. Nós SENTIMOS o Vitória, nós SOFREMOS o Vitória, nós PENSAMOS o Vitória, nós APOIAMOS o Vitória.

Eu recuso-me a entrar em teorias de conspiração e de pensar por um segundo que seja que quem está lá dentro o sente, sofre, pensa e apoia o Vitória menos do que nós adeptos, mas está na hora de pararmos de nos vermos como inimigos e de nos juntarmos para elevar o Vitória ao máximo. Chega de nós e vós, chega de nós e eles: nós (sócios, adeptos, dirigentes, equipa técnica e jogadores) somos Vitória!

Nós seremos Vitória mesmo que os erros não sejam corrigidos. Nós seremos Vitória mesmo que a bola não entre, mesmo que o Pedro Martins pare de berrar com os jogadores, mesmo que os árbitros nos prejudiquem, mesmo que a vitória esteja longe. Nós seremos Vitória mesmo sem troféus. Nós seremos Vitória com uma equipa de milhões ou com uma equipa de tostões. Nós seremos Vitória quer faça chuva, quer faça sol. Seja longa a jornada, seja dura a caminhada, com o D. Afonso Henriques ao peito e na alma, nos gritos e nas palmas, seremos Vitória mesmo depois de morrer. Nós somos Vitória ontem, hoje e sempre!

Sandra Fernandes, 28 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.