Futuro

Não sou particularmente fã de ficção científica como género, quer literário quer cinematográfico/televisivo. Nunca gostei de extraterrestres e de bicharocos humanizados, mas há um outro tipo de ficção científica que eu gosto e muito, aquele que pretende pensar, reflectir, adivinhar aquilo que é o (nosso) futuro próximo.

Estranhamente ou não, estas obras são maioritariamente sobre distopias, como se algo na nossa consciência colectiva nos fosse mostrando o caminho que estamos a seguir. Não é, pois, de estranhar, que na era em que mais se fala em vigilância eletrónica, as vendas do “1984” de George Orwell subam em flecha.

Por estes dias e por indicação de uma amiga (obrigada Ana!) ando a ver uma nova série chamada “The Handmaid’s Tale”, baseada na obra com o mesmo nome de Margaret Atwood.

Ainda vou no início da série e já estou completamente viciada. “The Handmaid’s Tale” fala-nos de um futuro macabro onde as mulheres perderam todos os direitos e têm posições estanques na sociedade conforme a sua classe social: as esposas (que se vestem de azul), as Marthas (classe média/baixa inférteis e que são cozinheiras) e as aias (que são mulheres fertéis e que uma vez por mês tem de passar por um ritual – uma violação (enquanto o marido viola a aia, a senhora está sentada atrás dela a segurar-lhe as mãos).  Nos dois primeiros episódios, ainda não percebemos muito bem que sociedade é esta. A protagonista Offred (Of Fred, em português pertencente a Fred), aqui representada pela incrível Elisabeth Moss  tinha o nome de June antes da mudança. Aliás, antes da mudança, June era uma mulher casada, com uma filha, trabalhava numa editora e havia uma data de direitos que ela tomava como certos. A deterioração do ambiente provocou um problema de fertilidade, sendo que a possibilidade de uma criança nascer saudável é de 1 em cada 5 e um acidente ambiental dá o mote para a imposição de uma nova era.

As armas do poder são claras: estado policial, exército na rua, vigilância apertada e a instrumentalização da religião para controlo das massas. Os que não se encaixam (opositores ao regime, homossexuais, pessoas que professam religiões diferentes) têm como destino o enforcamento ou as colónias – onde vão limpar o lixo tóxico. No caso das mulheres férteis – poupadas a todo o custo – o castigo é a cegueira ou a mutilação genital feminina.

June mostra-nos o seu mundo através da forma como observa e ironiza sobre o mundo em que vive. A ironia é a arma para manter a sua sanidade, uma vez que a sua intenção é sobreviver para se reencontrar com a sua filha. Aos poucos e através de flashbacks vamos entendendo como é que o “nosso mundo” se tornou na macabra Gilead . Os antigos Estados Unidos estão em guerra em várias frentes e o espaço onde se passa a série é o que resta de uma sociedade que não está na frente de batalha.

June mostra-nos como o mundo se transformou com a complacência da sociedade. Diz-nos “Eu estava a dormir, foi assim que deixámos que isto acontecesse. Quando aniquilaram o Congresso continuámos a dormir. Quando culparam os terroristas e suspenderam a Constituição continuámos a dormir”.

Visualmente forte e com um elenco incrível, esta série antes de mais, relembra-nos o nosso papel como cidadãos e confronta-nos com a responsabilidade que todos temos no desenho das nossas futuras sociedades. Não podemos contar com o facto de que os direitos que adquirimos estão assegurados para todo o sempre, nem podemos continuamente delegar a responsabilidade do nosso futuro em outros sem sermos altamente vigilantes.

É preciso estarmos permanentemente acordados.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.