Fobia

Regressado da Guiné, depois de dois anos e meio de tropa, já o comboio da revolução ia a quatro meses de distância. “Céguinho” de todo, no que à política dizia respeito, trazia comigo, desde que comecei a trabalhar, com doze anos de idade, uma instintiva aversão pela injustiça.

No sentido de recuperar o tempo perdido, passei dos livros de romance e aventura, para os de política, revoluções, guerrilhas e guerrilheiros. Depois de integrado na empresa, iniciava ou entrava em todo o tipo de conversa, desde que girasse à volta da política.

O entusiasmo e a azáfama em aprender e compreender o porquê de tanta injustiça, foram serenados por uma conversa com um colega mais velho, já com larga experiencia, vinda de antes do 25 de Abril e por quem nutro grande admiração, a qual foi rematada com esta frase:
– “Remediar o passado, mudar mentalidades e preconceitos, pode levar cinco, seis ou sete gerações. O importante é sonhar com um mundo livre e justo, lutando por ele”.

Muitas vezes, ao longo dos anos, recordo esta frase. A última foi quando acompanhei, através da imprensa e, principalmente, das redes sociais, a reacção à decisão de Graça Fonseca, em divulgar a sua orientação sexual.

Tema debatido e rebatido, nos vários meios de comunicação, deixou uma amostra (mais uma) de como pode ser o humano, em grupo ou através de uma espécie de anonimato.

Desde tenra idade, no meio em que fui criado, aprendi a adjectivar todo o tipo de “anormais”. Para acalmar os ânimos e manter a ordem, invocava-se o preto, o cigano, o diabo, o zarolho ou o vesgo. Quando trovejava, era o Jesus a ralhar com os meninos que se portavam mal.

As centenas ou milhares de comentários, depreciativos e insultuosos, entremeados por alguns abonatórios, confirmam que, em termos de preconceito, temos um longo caminho a percorrer.

Em 1974, com o derrube do regime, não se pôs fim, unicamente, a 48 anos de fascismo ou treze de guerra colonial. Foram séculos e séculos de obscurantismo, esclavagismo, tortura física e mental, humilhados por elites civis, religiosas e militares que, ainda hoje, se apresentam nas cerimónias, dentro das suas distintas farpelas, como deuses venerados por quem aspira lá chegar.

O caminho, para alcançar um mundo livre, será muito mais longo, que o preconizado pelo meu colega de trabalho. Resta-nos a esperança, que o caminhar nos traz.

Um agradecimento e um abraço à Graça Fonseca, por mais esta ajuda, na luta pela liberdade.

Joaquim Teixeira é deputado pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Guimarães. É sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.