Sede de vencer

A sede é um desejo inevitável em todos nós. Todos os seres vivos têm sede de algo mais. Os nossos corpos têm sede de água, as nossas almas têm sede de conforto e os nossos espíritos sede de vitória. A vitória é como a chuva: refresca-nos e resgata os nossos espíritos esmagados das masmorras do medo e da derrota.

Depois de um início de época nada atrativo, foi com o desejo de matar essa sede de vencer que os vitorianos invadiram Paços de Ferreira; na esperança de espremer a dor que se instalou nos nossos corações e de libertar o grito que há muito está preso da garganta.

Depois de uma semana a pedir respostas a tantas perguntas na esperança de encontrar o fim para esta intempérie, cansados de esperar a cada deceção, os vitorianos fizeram questão de demonstrar que quem ama não desiste e que juntos somos muito mais fortes (como desejamos que as bancadas vencessem jogos), mas no final do jogo o grito continuou preso na garganta, a dor no peito teimou em não cessar e continuamos a procurar entender a que se deve esta intermitência de vitórias.

A nossa fonte de vitórias parece estar obstruída e estamos com dificuldades em conseguir desobstruir o caminho para chegarmos a essa água que iria satisfazer o nosso espírito sedento por vitórias.

Parte de mim começa a achar que estamos “mal-habituados”. Ser vitoriano sempre foi isto: um amor incondicional que não vive de vitórias, mas da forma como vivemos o clube; uma eterna esperança num Vitória que apenas existe nas nossas cabeças; uma época fantástica seguida de uma época desastrosa; uma série constante de vitórias nas bancadas que desejamos com todas as nossas energias que se repercutam em campo.

Mas na época passada ficamos “mal-habituados”. Finalmente tínhamos um Vitória vencedor que nos permitia sair felizes do estádio com frequência. Um Vitória no qual as vitórias se tornaram rotina e não um momento aleatório que surgia de vez em quando para nos saciar a sede.

Terminámos a época com a sensação que tínhamos encontrado a fonte das vitórias, a fonte do sucesso, a fonte dessa continuidade que tanto persistíamos em desejar. Finalmente tinha chegado a nossa vez. Finalmente todos os sacrifícios, todo o trabalho, toda a dedicação tinham sido compensados. Finalmente havia um plano, um caminho traçado.

Esse Vitória acaba a época com sede de vencer. A não conquista da Taça de Portugal custou-nos a todos, deixou-nos com uma vontade de vencer ainda maior e tudo indicava que essa sede de vencer ia ser o fio condutor para esta época.

Mas para infelicidade de todos nós, não foi isso que aconteceu. No futebol não existe justiça poética, o jogo que ficou por vencer e que impediu que o nome daqueles que nos fizeram tão felizes na época passada ficasse escrito na história do futebol não foi compensado por uma espécie de justiça divina. Os reforços não foram suficientes, as lesões invadiram o balneário, más decisões foram tomadas, erros foram cometidos e a sensação de desidratação é cada vez mais dolorosa.

A época acabou de começar, a sede está cada vez mais difícil de saciar, mas a palavra desistir não existe no vocabulário dos vitorianos. Eu preciso de continuar a acreditar que o sucesso da época passada não foi fruto do acaso, mas sim de um plano, de uma estratégia e de muito trabalho. Preciso de acreditar que seremos capazes de ultrapassar todas as adversidades que surgiram no caminho e finalmente desobstruir a nossa fonte de vitórias.

Não basta beber água de qualquer lugar, é preciso aproveitar esta pausa no campeonato – que não podia vir em melhor momento – e traçar um plano não só para manter as nossas chuteiras protegidas em Marselha, mas principalmente para que a época passada não se torne apenas uma pequena fonte de vitórias no meio do deserto, mas todo um sistema de abastecimento de água.

A melhor altura para planear a época e para construir a equipa foi há 8 meses atrás. A segunda melhor altura é agora.

É fácil acreditar que a época já está perdida, que vamos lutar para não descer, que vamos à Europa fazer má figura. O passado pode parecer cheio de escolhas ruins e oportunidades desperdiçadas. O agora pode parecer uma espécie de jogo final, um esticão descendente em direção a uma época completamente falhada, mas ainda nada está perdido. Não há nada a fazer quanto aos 8 pontos perdidos, mas ainda há muitos jogos pela frente e ainda é possível fazer da época 2017/18 a melhor de sempre.

Podemos passar estas duas semanas a lamentar aquilo que não foi feito ou podemos aproveitá-las para fazer aquilo que não foi feito até aqui e garantir que não morremos todos com sede de vencer.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.