Diário de quem espera a morte

“A morte causa menos dor do que a espera da morte”. A frase do poeta romano Ovídio do início do milénio resume os dias de Fátima Marinho, que há um ano vê o pai, esse homem “robusto, uma espécie de samurai” a definhar entre sucessivos internamentos no Hospital de Guimarães. A equipa de gestão de altas daquela unidade de saúde é o principal alvo de críticas – aquela unidade de saúde não fala sobre o caso em específico mas realça que “o Hospital e os seus colaboradores pautam a sua atuação por padrões de qualidade e segurança”.

05 de dezembro de 2016

O homem que não aceitava que estava doente

Bernardino Marinho fazia nesse dia 86 anos. Estava internado no Hospital de Guimarães com uma infeção respiratória gravíssima. Mesmo assim, sorria. A fotografia que a filha Fátima lhe tirou para mostrar aos irmãos não revelava as dores provocadas. “Não aceitava que estava doente”, descreve. A partir daí, começou o ano horribilis de Bernardino e da família, sendo obrigado a sair sucessivamente da sua casa “com vista para a lua e sol de lés a lés”, para internamentos devido ao agravar do seu estado de saúde. Além dos problemas decorrentes de um estado débil, acumulou infeções hospitalares.

30 de julho de 2017

“Pensei que era o fim”

A Fátima não restou outra alternativa a não ser a transferência para uma cama de internamento que o Hospital de Guimarães, como unidade de saúde que tutela o Alto Ave, mantém em Cabeceiras de Basto, onde Bernardino reside. Aí, aguardava um lugar numa unidade de cuidados continuados. Fátima diz ter assinado o pedido de cama para a unidade de cuidados continuados “sob protesto, considerando os procedimentos da equipa de gestão de altas de Guimarães”. “Aprendi que com a terapêutica de corticoides se mascara tudo”, pontua, dizendo que o pai “está consciente de que anda continuamente a ser transportado, segundo ele empurrado, de cama para cama, por razões que não consegue alcançar”.

Mas a 30 de julho Fátima pensou que era o fim. Naquele domingo, Bernardino teve um novo episódio de convulsões por falta de ar. Fátima chamou o médico, tendo lhe suplicado que não enviasse o seu pai para o Hospital de Guimarães, “pois tal só lhe iria acrescentar sofrimento”. O médico respeitou esse pedido e estabilizou-o com injetáveis e morfina. Assim manteve-se na mesma cama de internamento em Cabeceiras. “Debilitado mas sem sofrimento visível”.

04 de agosto de 2017

“A ameaça terrorista: ‘Ou aceita a vaga ou o seu pai vai para casa’”

Na sexta-feira seguinte, a 04 de agosto, Bernardino é internado na unidade de cuidados continuados de Guimarães, nas instalações do antigo hospital. “Fui contactada por volta das 12h00 e informada de que o meu pai seria transportado, pelas 14h00, para a unidade de cuidados continuados de Guimarães e ameaçada de que se não aceitasse a ida para os cuidados continuados ele iria para casa”, conta Fátima. Nesta transferência, apanhou uma pneumonia. A 08 de agosto, volta a ser internado no Hospital de Guimarães.

11 de agosto de 2017

“As mil mortes de todos os imortais”

Durante quatro dias, Fátima assistiu àquilo que chama as “sevícias” da equipa médica de forma a recuperar Bernardino e voltar a transferi-lo para a unidade de cuidados continuados. Afinal, acusa Fátima, “tal como o médico que o seguia vaticinou: isto não é um asilo [referindo-se ao hospital]”. Foi-lhe diminuído o fornecimento de oxigénio por forma a avaliar se teria condições para a deslocação. Só quando as mãos se apresentaram roxas, e perante a insistência de Fátima, é que lhe foi restituída a mesma quantidade de oxigénio que vinha recebendo para se manter bem. O conforto da morfina também deixou de lhe ser administrado. Neste momento, Bernardino é alimentado através sonda nasogástrica com auxílio de uma seringa. Seringa, essa, que Fátima marcou com uma caneta de acetato, quando percebeu que não era substituída. Relata que depois dessa medida, a seringa passou a ser substituída diariamente.

É a 11 de agosto que Fátima, socorrendo-se das referências literárias que lhe marcam a vida, escreve na sua página pessoal do Facebook sobre “a multiplicação da agonia das muitas mortes do meu pai” e “as sevícias a que tem vindo a ser sujeito, no Hospital de Guimarães, pelo serviço nacional de saúde e pelos insanos e indignos procedimentos da Segurança Social”. “Num país civilizado, como alegadamente é o nosso, ninguém, com um débito de oxigénio como o meu pai tem, deve ser transportado. Tanto assim é que, cada vez que isso acontece- e já aconteceu inúmeras vezes -, ele volta para o hospital onde agora se encontra ligado, por todos os lados, a fios, num sofrimento inominável!”.

Um ano a vaguear pelas imediações do hospital de Guimarães assistiu o pai que “vem sofrendo as mil mortes de todos os imortais” e a “situações inenarráveis”. “Sei que a morte é inevitável, mas estas sevícias, que vêm precedendo a sua, são gratuitas, não podem fazer parte de nenhum procedimento hospitalar, tampouco estar ao abrigo do estado e financiadas pelo dinheiro dos contribuintes”, termina.

23 de agosto de 2017

“Talvez o meu pai morra amanhã. Se Deus ouvir as minha preces.”

O desabafo de Fátima na mesma rede social revela o desespero de quem quer que o pai morra, para que não sofra mais. Recorda a data de 08 agosto de 2017, “data a partir da qual o pai deixou de ter o conforto da morfina para ser sujeito a um sofrimento inominável, que passou por o obrigarem a estar, já sem carne entre os ossos, diariamente, cerca de três horas preso a uma cadeira de rodas, só para que, em conformidade com a intenção da equipa de gestão de altas do Hospital de Guimarães, pudesse, no mais curto prazo, voltar para a Unidade de Cuidados Continuados”. E continua: “Tentaram até reduzir o seu débito de oxigénio colocando-lhe uma máscara normal e diminuindo os litros de oxigénio. Só perante a minha insistência e a evidência das suas mãos já negras, foi prescrita máscara de alto débito e o oxigénio voltou aos 15 litros”.

“Colocaram-lhe uma sonda e ensinaram-me a alimentar o meu pai, com uma seringa descartável que ninguém descarta. A seringa é usada dia após dia. Para que não restem dúvidas, já a marquei”, descreve, sentenciado que: “o meu pai tem fome”. O desejo neste momento é apenas um: “Talvez o meu pai morra amanhã. Se Deus ouvir as minha preces”.

30 de agosto de 2017

Hospital disposto a dialogar com Fátima

Hoje, Bernardino Marinho continua no piso 07 do Hospital de Guimarães, aguardando que se cumpra o fim. Ao mesmo tempo que ia cuidando do pai, Fátima Marinho continuou, até finais de julho 2017, a trabalhar full-time. Fátima sente-se exausta. Exausta das viagens, do horário das 11h00 às 20h00 de acompanhante significativo que cumpre, sempre que o seu estado de saúde, também já débil, o permite. Fora desse horário que lhe rege os dias, o sono custa a chegar. “Sabe, não consigo dormir descansada.” Conta apresentar uma reclamação formal sobre os procedimentos da equipa de gestão de altas assim que se sentir mais forte. “Neste momento, nem consigo pensar. Apenas sei que incumpriram os princípios enunciados no Decreto-lei n.º 101/2016, de 6 de agosto e não verificaram, apesar de advertidos para que o fizessem, as altas que sucessivamente contribuíram para agravar o estado de saúde do meu pai”, sentencia.

Ao Duas Caras, o Hospital de Guimarães diz que não se vai pronunciar sobre o caso. “O Hospital da Senhora da Oliveira Guimarães, quer por força de requisitos do seu sistema de qualidade internacional (Acreditação JCI) quer por força de requisitos legais nacionais e europeus de proteção de dados, está obrigado a respeitar, de forma absoluta, a privacidade dos doentes internados ou de qualquer cidadão a quem presta cuidados de saúde”, esclarece.

Adianta ainda que “o Hospital está e estará totalmente disponível para dialogar e prestar qualquer esclarecimento ao doente e/ou à sua família sobre o caso, respeitando o seu direito à privacidade e a sua reserva de intimidade pessoal”. “Da mesma forma prestará informação sobre o caso a qualquer entidade que regule ou tutele as atividades de saúde em Portugal, caso lhe seja solicitado”, vincula.

De forma genérica, aquela unidade de saúde informa ainda que “o Hospital e os seus colaboradores pautam a sua atuação por padrões de qualidade e segurança. Não temos nenhum indício ou indicação de qualquer comportamento contrário a estes padrões que possa ter dado azo às ‘queixas’ [referidas]”.

Texto: Catarina Castro Abreu
Imagem: “A Vida e a Morte”, de Gustav Klimt