O Deus das Pequenas Coisas

Não, esta crónica não está relacionada com o livro da Arundhati Roy. Se calhar, o título também não está bem escolhido e deveria ser mais a divindade nas Pequenas Coisas.

Ontem, no caminho entre a estação de comboios, vi um senhor de cadeira de rodas e uma senhora a ajudá-lo, a sair do passeio em frente ao Hotel Fundador e a tentar chegar ao carro. Dei por mim a pensar: se tivesse que fazer este percurso (desde a estação dos comboios até à Cruz de Pedra) de cadeira de rodas, seria possível? Não, se o quisesse fazer em segurança. Passeios demasiado altos entrecortados por estradas sem rampas de acesso a passadeiras, passeios em más condições ou pequenos demais para alguém que precise de uma cadeira de rodas para se deslocar.

Ontem ocorreu-me pensar nas Pequenas Coisas vs Grandes Coisas.

Em vésperas de eleições, os políticos tendem a pensar em Grandes Coisas, normalmente obras, grandes obras, coisas materiais que marcam a paisagem de uma cidade e ficam para a posteridade. Para mostrar trabalho feito.

Confesso que ainda não tive tempo de ler os programas eleitorais – disseram-me há relativamente pouco tempo que nenhum partido o tinha disponibilizado ainda. Ainda não procurei, falha minha. Por isso desculpem esta pequena observação de alguém que passa 12 horas por dia fora de Guimarães e ainda não foi procurar as ideias e rumos que os nossos partidos nos propõem para os próximos anos.

A campanha em si ainda não começou e, com franqueza, já estou um bocado farta. Há caras que levamos com elas há meses, colocadas  em todas as rotundas na cidade e com os seus slogans vazios e pobres. Através daquilo que vejo e leio na praça pública, até então, todas as ideias e propostas andam à volta de betão: pontes, túneis, parques de estacionamento. Grandes Coisas, portanto.

É uma pena que os nossos autarcas não pensem que são de facto as Pequenas Coisas que melhoram a nossa qualidade de vida como, por exemplo, termos uma cidade em que qualquer cidadão com problemas de mobilidade se possa deslocar autonomamente. Ou termos uma rede de transportes no concelho eficiente, que permite, a quem não vive na cidade, poder usufruir da vida social e cultural da cidade. Pequenos exemplos de pequenas coisas. E já que falamos em cultura, e numa cidade que já foi Capital Europeia da Cultura, porque não uma política real de proximidade para o desenvolvimento de novos públicos e uma aposta na educação artística/cultural de novos e adultos? Ah, o que eu não gostava de ver num grande outdoor CULTURA PARA TODOS!

Outra coisa que reparei: partidos obviamente com orçamentos grandes demais para as campanhas dão-se ao trabalho de produzirem as mesmas caras que encontramos em todas as rotundas, colocam aquilo num formato A4, escrevem banalidades e põem em todas as caixas dos Correios, mesmo naquelas com o autocolante amarelo a dizer PUBLICIDADE ENDEREÇADA NÃO.

Digo eu, não seria mais útil – e a mutilação de tantas árvores não seria em vão – se cada agregado familiar recebesse na sua caixa do correio pequenos questionários sobre a situação actual da cidade/freguesia, o que de melhor aconteceu nos mandatos que agora findam e o que as pessoas esperam/idealizam para um próximo mandato. Não sei, uma ideia naïve e disparatada de envolver as pessoas na vida política, ao invés de as irritar e encher as caixas de correios com panfletos que nada mais são que publicidade encapotada?

Na política, como de resto em tudo na vida, tendemos a perder a nossa atenção e energia nas Grandes Coisas – carreiras, casas, carros, acumulação de riqueza –  mas esquecemos que é nas Pequenas Coisas que constituímos a nossa rotina diária, onde encontramos o bem-estar, paz e uma possível ideia de felicidade: trabalhos/empregos onde sentimos que desempenhamos bem o nosso papel e nos sentimos valorizados por isso; relações de amor, respeito e apoio incondicional com aqueles que nos rodeiam e nunca abdicarmos da nossa dignidade. Pequenas Coisas, portanto.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.