A época começou mal, vamos encarar a realidade

Caro Vitória,

Se estás a ler esta carta é porque nos encontramos numa fase complicada, cheia de pontos de interrogação e o plano “ano 1” afinal não correu como desejado. Mas não desesperes. Ainda há muito caminho pela frente e nós adeptos vamos tirar-te desta situação. Se tu colaborares, é claro.

Confesso que estou chateada, irritada e até frustrada. Este não era o início de época que desejava. Estes não eram os resultados que esperava. Mas como eterna otimista, continuo a acreditar que o melhor ainda está para vir.

Nós vitorianos andamos numa espécie de caça às bruxas para perceber o que deu errado. Como é que aquela equipa cheia de raça, garra e amor à camisola se transformou numa equipa sem chama?

Há quem culpe a direção pelo não planeamento da época. A realidade é que temos sinais de que ela começou a ser planeada em janeiro com a contratação do Estupiñán, houve um enorme esforço em manter a espinha dorsal da época passada (tal como todos desejávamos no final da época, Hurtado, Celis e Pedro Henrique foram as principais preocupações), o lugar de Hernâni foi rapidamente preenchido por Rincón (nem o maior dos nossos videntes podia imaginar o que viria a acontecer a seguir) e aos poucos e poucos a equipa foi-se compondo nas últimas semanas. Jubal e Victor Garcia chegam para reforçar aquela que parece ser até agora a área mais deficitária da equipa, Heldon vem reforçar a equipa e Wakaso vem ocupar o espaço deixado livre com a saída de Zungu (o tempo – e os timings – volta a ser um fator relevante em todo este processo e não me parece que tenha sido gerido da melhor forma…). A aposta na formação (que todos exigimos) mantém-se com Vigário, Kiko, Hélder Ferreira e Miguel Silva presentes em quase todos os jogos.

Há quem culpe Pedro Martins por dispensar algumas das “nossas esperanças” como João Afonso, Ricardo Valente, Tyler Boyd e Tozé ou por algumas das suas opções nos jogos (como a de estar a usar uma espécie de roleta para escolher os ponta-de-lança), mas, mesmo não compreendendo algumas destas decisões, acredito que tenha razões válidas para as tomar (continuo a achar que Pedro Martins conquistou o direito à nossa confiança pelas provas dadas na época passada). A realidade é que Pedro Martins não parece estar satisfeito com a situação que o clube atravessa e isso reflete-se quer nas suas decisões quer no comportamento da equipa em campo. Acredito que as novas aquisições e que esta, tão necessária, pausa no campeonato esteja a servir (e sirva) para um (re)começo de época e que a 10 de setembro voltaremos a ter sinais uma equipa “à Pedro Martins” como aquela que nos habituou na época passada.

Há quem culpe os jogadores por não estarem ao nível do ano passado (os que continuaram) e por não mostrarem total entrega em campo. A realidade é que a pressão psicológica pode não ter ajudado. O jogo de bastidores é bem mais complexo do que qualquer um de nós possa imaginar e tudo acaba por influenciar a performance dos jogadores. Sendo completamente honesta, não acho que este plantel fique muito aquém daquele que tínhamos na época passada nesta altura. Foi preciso muito trabalho e empenho, mas acabamos a época com uma das melhores equipas dos últimos anos, apurados para a Liga Europa, finalistas da Taça de Portugal e no quarto lugar do campeonato.

Há quem culpe o azar: Konan esteve lesionado durante toda a pré-época e até à 4.ª jornada da liga, Pedrão demorou a chegar e lesionou-se pouco tempo depois voltando apenas depois da Supertaça, Francisco Ramos vinha cheio de energia, mas tem sido impedido de mostrar o que vale devido a lesões, Vigário recebe vermelho, é expulso a meio do jogo, não pode jogar o jogo seguinte e lesiona-se no jogo em que volta… E ainda temos o caso do Rincón… A realidade é que a vida não é justa e o futebol muito menos…

Há quem culpe a arbitragem. A realidade é que o tão desejado Vídeo Árbitro tem deixado muito a desejar não por aquilo que assinala, mas por aquilo que deixa de assinalar.
A realidade é que podemos passar o resto da época a atirar a culpa de mão em mão tipo batata quente e continuaremos sempre com mais questões do que respostas. A realidade é que as coisas correram efetivamente mal neste início de época e não serve de nada continuarmos a discutir de quem é a culpa, precisamos é de trabalhar arduamente para acabar com esta série de infortúnios.

A realidade é que estamos a seis dias de três grandes desafios que podem moldar toda a época: recebemos no domingo o Boavista Futebol Clube para a Liga NOS (jogo que temos de vencer não só para somar pontos no campeonato, mas porque irá ser fulcral no estado psicológico dos jogadores para os jogos que se seguem), regressamos às competições europeias recebendo o Fußball Club Red Bull Salzburg no dia 14 (as vitórias dentro das nossas muralhas tornam-se quase que imperativas para a passagem à próxima fase da Liga Europa) e poucos dias depois vamos ao terreno do nosso eterno rival, o Sporting Clube de Braga (acho que não tenho de explicar o que está em jogo aqui).

A realidade é que ver-te neste estado dói. A realidade é que a época passada na quarta jornada estávamos apenas com mais dois pontos do que neste momento e questionávamos tudo e todos, mas os problemas foram-se resolvendo, os erros foram sendo corrigidos e a equipa foi-se formando.

Eu sou uma eterna otimista e é com esperança numa boa época que te falo. Eu não sei a resposta para o porquê de estarmos nesta situação, tenho consciência de que (tecnicamente) começarmos a época dois meses depois dos nossos adversários pode ser prejudicial e não tenho 100% de certeza se este plantel nos dá garantias suficientes para estarmos a lutar em 4 frentes diferentes ao mesmo tempo, mas, como em todas as relações, eu estarei ao teu lado (eu e os milhares de adeptos que estarão sempre a cantar nas bancadas) independentemente do momento que estivermos a viver.

É muito fácil estar lá a apoiar quando a bola entra, quando o futebol é bonito, quando só há festa nas bancadas. Agora é difícil. É realmente muito difícil continuar com o grito de golo entalado na garganta, é difícil sair cabisbaixa do estádio semana após semana, é difícil ouvir piadinhas todos os dias, mas sei que vamos sair desta situação. Esta é apenas uma fase má de uma época que ainda nos vai dar muitas alegrias.

Prometo-te que iremos encher o estádio como sempre te habituamos. Prometo-te que as nossas vozes na bancada serão ouvidas na Penha e que nunca estarás só em nenhum estádio onde fores. Prometo-te que quando os adversários marcarem golo nós cantaremos tão alto que abafaremos os festejos dos seus adeptos. Prometo-te que quando marcarmos golo o estádio irá tremer. Prometo-te que acreditaremos até ao apito final. Contudo, para sairmos desta fase difícil, nós adeptos não somos o suficiente (quem me dera que as bancadas vencessem jogos, que o apoio marcasse golos e que os berros defendessem ataques). Precisamos de ti Vitória. Precisamos que direção, equipa técnica e jogadores deem tudo de si naquilo que fazem.

Peço-te, a ti jogador, que acredites em ti. Que percebas que não estás neste clube por acaso. Que, quer tenhas chegado agora ou que já estejas aqui desde a época passada, estás porque alguém acredita que mereces estar aqui. Não precisamos de palavras bonitas, promessas ou beijos no emblema, precisamos que proves em campo a cada jogo que mereces estar aqui e que estás cá para honrar esse símbolo que trazes ao peito.

Imagino que estejas psicologicamente abalado, que te falte confiança e até que estejas tão confuso como nós com tudo isto que se está a passar, mas nós acreditamos em ti e precisamos que também acredites. Deixa tudo de ti em campo, corre atrás de cada bola como se a tua vida dependesse disso e luta por nós. Nós estaremos na bancada 90 minutos sem parar de cantar a torcer por vocês. Juntos vamos por um fim a esta má fase (isto é só uma fase). Juntos voltaremos a ser felizes.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.