Peter Pan e os meninos perdidos

Enquanto crescia, a história do Peter Pan sempre foi uma das minhas preferidas. A ideia de viver na Terra do Nunca e de me recusar a crescer sempre me fascinou. O mundo dos adultos parecia algo demasiado cruel e sem qualquer tipo de espaço para diversão. A Terra do Nunca pode ser encantadora, mas um dia todos nós nos vimos obrigados a crescer (há, contudo, um número muito restrito de pessoas que se pode permitir viver o sonho de criança).

De acordo com o livro, os Meninos Perdidos são aqueles que caem do berço, ficam perdidos no parque, ou na rua, sendo abandonados pelo descuido da ama ou a própria Mãe. Quando uma destas coisas acontece, eles são levados para a Terra do Nunca, onde ficam ao cuidado das fadas. Por não terem Mães, os Meninos Perdidos não estão acostumados a obedecer, nem a ter obrigações. A única pessoa que eles respeitam e a quem obedecem é o Peter Pan, o chefe do grupo.

Ontem, enquanto via o Derby do Minho eu senti, muitos anos depois desde a minha última leitura do Peter Pan, que estava de volta à Terra do Nunca, mas desta vez apenas como um observador não participante – por mais alto que eu berrasse, cantasse ou aplaudisse parecia que nunca era suficiente, que a minha voz era incapaz de chegar à Terra do Nunca (algo muito estranho para mim).

Ontem, quando olhava para aquele relvado do cimo da Pedreira o que eu via (bem ao longe) eram Meninos Perdidos sem rumo, sem organização, sem saberem muito bem qual era o seu papel ali e às vezes até mesmo como agir. A bola que devia ser quase parte integrante deles mesmos parecia um objeto alienígena que havia caído do céu e que eles tinham receio de tocar (e quando tocavam tinham a necessidade instantânea de se verem livre dela).

Os Meninos estão Perdidos e urge-se que se encontrem o mais cedo possível. A chegada à Terra do Nunca pode ser de veras assustadora. O peso do emblema do Rei ao Peito pode ser colossal, o facto de terem chegado a diferentes partes da ilha em alturas distintas e muitos deles terem acabado de chegar torna a sua integração ainda mais difícil, mas o tique-taque do crocodilo não para e a urgência de se tornarem uma equipa torna-se cada vez mais imprescindível. O efeito bola-de-neve apodera-se cada vez mais de nós e derrotas trazem desânimo, desânimo traz mais derrotas (e por aí adiante)…

Segundo a história, o Peter Pan é o único que consegue “controlar” os Meninos Perdidos. Ele tornou-se o seu líder, eles admiram-no, respeitam-no e seguem as suas “ordens”. Ele é o único que pode mostrar-lhes o caminho, dar-lhes abrigo e oferecer-lhes algo que possam chamar casa.

Não há pessoa melhor para o fazer do que o Peter Pan. O espírito de aventura foi o que o levou para a ilha. A sua a inteligência de encontrar soluções e a sua capacidade de transformar Meninos Perdidos numa família, associadas à sua capacidade de liderança foram o que o fizeram dele o chefe dos Meninos Perdidos.

Na outra ponta da ilha, está ancorado o barco do Capitão Gancho. Outro que não pode crescer. Não há Mãe na história do Capitão Gancho, apenas um crocodilo que faz tique-taque, pois engoliu o tempo. Gancho foi parar à Terra do Nunca, o limite final para quem não consegue crescer. Como os adultos não podem entrar na Terra do Nunca, o Gancho perdeu a sua mão assim que chegou, agora o crocodilo quer o resto, pois o tempo engole quem não pode crescer.

O Peter Pan e o Gancho são inimigos, mas muito semelhantes. Enquanto o Peter Pan consegue permanecer criança, o Gancho tem o corpo de adulto preso no mundo infantil. O Peter Pan é “alegre, inocente e desalmado”, tendo sempre a parte do adulto que necessita existir para transitar pelo mundo infantil. O Gancho vive amargurado…

Na época passada nós vimos o Peter Pan a ser feliz pela Terra do Nunca, a ter capacidade de comandar os Meninos Perdidos e a transformá-los numa equipa, numa família que mesmo que “perdida” tinha a capacidade de se encontrar, reinventar e superar jogo após jogo.

Esta época, sinto que o Capitão Gancho se está a apoderar do Peter Pan. Sinto que as exigências desta época, associada a todos os desaires que têm acontecido colocaram uma espécie de nuvem negra em cima dele que lhe suga a parte do adulto que necessita de existir para transitar para o mundo infantil, tornando a sua estadia na Terra do Nunca tão dolorosa como a do Capitão Gancho (não imaginam o quanto me dói ver o Peter Pan naquele estado, mas continuo a acreditar que é a pessoa ideal para comandar as tropas do Rei, que conseguirá afastar a nuvem negra e voltar a ser o timoneiro da equipa).

Tal como dizia inicialmente, apenas um grupo muito restrito de pessoas tem o privilégio de poder viver na Terra do Nunca para sempre e, independentemente de todos os problemas que possam ter (inerentes à condição imposta de ser adulto), eu acredito que os jogadores de futebol fazem parte dessa minoria. Eles têm o privilégio de poder viver a sua vida adulta a fazer aquilo que mais amam e que sonham desde pequenos. Eles não são obrigados a “crescer”, mas têm de se obrigar a seguir regras, a evoluir, a trabalhar arduamente para serem cada vez melhores.

Precisamos urgentemente do Peter Pan – aquele “alegre, inocente e desalmado”, mas com um espírito de liderança absolutamente incrível que qualquer um seria capaz de seguir até qualquer lado sem questionar – de volta a comandar os Meninos Perdidos.

Precisamos urgentemente que os Meninos Perdidos se apercebam do quão felizardos são por poderem viver na Terra do Nunca. Nós, adultos que somos impedidos de entrar na Terra do Nunca, estamos sempre mais do que disponíveis para “perder uma mão” para poder experienciar, mesmo que apenas por uns míseros minutos, o que é viver na Terra do Nunca, o que é ser criança eternamente, o que é usar o símbolo do Rei ao peito.

A vocês, Meninos Perdidos, só vos pedimos que não tratem a bola como um objeto estranho, que ela se torne parte integrante de vocês, que sejam capazes de a controlar e partilhá-la entre vocês de forma inteligente, fazendo com ela o que é suposto: jogar futebol e marcar golos. Pedimos que de cada vez que pisem o relvado para representar o Vitória acreditem e lutem até ao fim. Lutem por nós! Esta é a NOSSA história, vocês são as personagens principais e têm o direito e o dever de usar os vossos talentos para elevar o emblema que representam. Vocês podem ser Meninos Perdidos, mas têm em vocês a capacidade de se organizarem e transformarem-se numa equipa, numa família.

Precisamos que o Peter Pan e os Meninos Perdidos voltem a ter a parte do adulto que necessita existir para transitarem pelo mundo infantil. Continuar adulto na Terra do Nunca é perigoso: o crocodilo já pode ter tirado muito, mas ele quer o resto, pois na Terra do Nunca, o tempo engole quem não pode crescer.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.