“With great power, great responsibility”

Não sendo fã do Spiderman, sempre gostei muito desta frase. É simples, curta e resolve muitos problemas. Quem tem mais poder, tem mais responsabilidade. Ponto final.
Estando no início do ano lectivo, as notícias sobre as praxes começam a surgir como cogumelos.

Eu faço já o meu disclaimer: fui anti-praxe, sendo que da família que ganhei na universidade e que ainda hoje mantenho, metade fomos praxados e metade não fomos. Tirando o cinema, este deve ter sido o assunto que mais discuti durante a universidade, sempre que referia a alguém que não quis ser praxada era tratada como um ET.

Disseram que não ia ter amigos durante o percurso académico, disseram-me que não tinha sentido de humor, disseram que não tinha estofo para aguentar a praxe e que por isso não ia conseguir manter um emprego, disseram-me que não ia poder ir a festejos académicos e por aí além. Disseram-me inclusive e textualmente, que para minha segurança, devia assinar um papel (?) a dizer que era anti-praxe (como se esta fosse uma instituição oficial), porque segundo um artigo do código de caloiro vigente no meu tempo na minha universidade, “o caloiro é de quem o apanhar”.

Apesar de todas estas profecias, sobrevivi e fui feliz durante o meu período académico.
Estávamos em 2003. Passaram-se 14 anos. O mundo mudou, Portugal mudou. Sofremos uma crise económica, perdemos direitos. Um louco disse que todos os direitos adquiridos podem ser referendáveis (até os direitos humanos) e um outro louco assumiu o controlo do outro lado do Atlântico e esta semana, num discurso na ONU, pôs-nos perante a possibilidade de uma guerra nuclear. Nos EUA, como em alguns países europeus, os direitos reprodutivos da mulher voltam a estar em causa. A União Europeia morre aos pouquinhos enquanto deixa milhares morrer nas suas fronteiras. O planeta Terra está no limite da sua sustentabilidade.

Hoje precisamos ainda mais de uma nova geração de pessoas pensantes, com sentido crítico e com vontade de tornar o mundo um lugar melhor. Não precisamos de pessoas que saibam obedecer, precisamos precisamente do contrário, que desobedeçam, que digam não, que resistam e lutem contra esta corrente de loucura e alienação em que todos andamos.

O princípio da praxe vai contra tudo aquilo que eu acredito ser o espírito académico e aquilo que foi a minha experiência. Não fui para a universidade para ser domada, fui para me libertar, para aprender, para sair da minha zona de segurança, para me encontrar.

Os que se auto-intitulam “doutores” e “veteranos” têm responsabilidade direta naquilo que é o acolhimento de novos estudantes, muitas vezes pela primeira vez deslocados e sem a companhia de familiares. Não vale a pena dizer que só se sujeita ou que só “obedece” quem quer, porque não somos todos iguais. Estes senhores alegam que a praxe é uma preparação para a vida e eu pergunto-me em que mundo é que eles acham que vivem.

O mais assustador é pensar no que a praxe significa ou representa a nível político e a definição de que estas pessoas têm por respeito. Não me querendo alongar, é também sintomático da sociedade que estamos a construir quando as representações e as brincadeiras destes praxistas são, na sua maioria, sexistas e machistas. Isto já era assim em 2003 e é triste, que em 2017, neste tópico, tanta pouca coisa tenha mudado.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.