95 anos de resiliência

Há algo especial num hastear de bandeira. A sua subida manual num processo lento, mas cerimonial faz uma bela analogia do processo de crescimento e evolução necessário para chegarmos ao topo.

Na sexta-feira nas primeiras horas da manhã quando a bandeira preta e branca com o símbolo do Rei ao meio for hasteada no complexo ela terá consigo 95 anos de História. 95 anos de glória, de sacrifícios, de resiliência, de lealdade, de amor incondicional.

Não há relatos concretos de quando “nasceu” o Victoria Sport Club (assim referenciado nos primeiros documentos conhecidos). No início dos anos 20 o futebol começava a ser uma modalidade popular e o Vitória foi “apenas” um dos muitos grupos organizados de futebol fundados pela juventude vimaranense – grupo de estudantes, filhos da sociedade industrial e proprietária que dirigia a cidade.

O ano de 1922 fica na História do clube como o ano da sua fundação pois representa o ano da sua filiação na Associação de Futebol de Braga (este foi também o primeiro ano da entidade que iria dirigir o futebol no distrito).

A aposta na formação esteve presente desde a sua criação. Em 1927 conquistávamos o primeiro título oficial, com o Vitória Sport Clube a sagrar-se Campeão Distrital de Infantis.

Na década de 30 são consolidadas algumas das coisas que fariam para sempre parte do Vitória.

O Capitão Mário Cardoso desenhou o emblema oficial do Vitória SC, claramente inspirado na estátua de D. Afonso Henriques, Primeiro Rei de Portugal, e assumiu as cores preta e branca numa alusão à igualdade e à admissão de todos sem distinção, sem discriminação de raças ou estatutos sociais (ou como mais tarde viria a ser referenciado no hino do clube “A cor preta é da unidade, a cor branca é do amor”). O primeiro emblema era muito semelhante ao atual, com exceção para a existência da letra “V” junto com as letras “S” e “C” que se encontram ao lado de D. Afonso Henriques.

O emblema foi rapidamente adotado para documentos oficiais do clube, mas apenas nos finais da década de 40, inícios da época de 50 é que viria a surgir nas camisolas do Vitória. Até essa altura era apenas utilizado um V com as cores preta e branca.

Em 1934 Vitória tornava-se pela primeira vez Campeão Distrital numa final disputada a duas mãos frente ao seu eterno rival do Minho.

A década de 40 marca a chegada do Vitória ao patamar máximo do futebol nacional (1941) e a disputa da primeira Final da Taça de Portugal (aquele que se tornaria o Santo Graal dos adeptos vitorianos). O início do percurso ascendente do Vitória levou ao aumento do entusiasmo em torno do clube e o número de associados chegou aos 1000. Já no final da década (1948) foi inaugurada a mítica sede do Vitória no coração da cidade de Guimarães (Rua D. João I).

Nos anos 50 o Vitória dá os primeiros passos para se tornar o clube eclético e global que hoje tanto nos orgulha com a criação da primeira modalidade amadora, o Hóquei em Patins, e com a contratação de Ernesto Paraíso, o primeiro jogador de futebol brasileiro do clube.

A década de 60 pode ser considerada como a época prateada do Vitória. Destacam-se nomes como Roldão, Caiçara, Peres, Mendes, Bártolo, Rola ou Daniel, o atleta que mais jogos oficiais disputou no Vitória SC. Daniel manteve-se com a camisola do Rei durante 20 anos. Os brasileiros Edmur e Carlos Alberto haveriam de se juntar a Ernesto Paraíso, formando uma tripla que jamais desaparecerá da memória de todos os que tiveram o privilégio de os ver jogar. Edmur Pinto Ribeiro viria mesmo a tornar-se um dos símbolos maiores do Vitória ao conquistar, com a camisola do Rei, a Bola de Prata na época 1959-60 (25 golos). A 10 de Setembro de 1969 o Vitória Sport Clube participou, pela primeira vez, nas competições europeias. A estreia na então Taça UEFA aconteceu frente ao Banik Ostrava e a equipa de Guimarães venceu por 1-0.

Se podemos chamar à década de 60 a época prateada do Vitória, a época dourada começaria com certeza nos anos 80. A década de 80 fica marcada pela construção do Complexo Desportivo – que foi a primeira infraestrutura do género a ser construída em Portugal por um Clube de futebol – e pela equipa que deslumbrou a Europa. Neno – que acabaria por se tornar um dos símbolos do clube – e Paulinho Cascavel – considerado pela grande maioria como o melhor jogador da história do Vitória – foram alguns dos nomes marcantes desta década. O registo da melhor participação de sempre na Europa remonta à época 86/87. Nomes como Ademir, Roldão, Jesus, Nascimento, Adão e o incontornável Paulinho Cascavel encantaram com o seu futebol e ajudaram o Vitória a realizar a mais bem-sucedida campanha europeia de todo o sempre. O Vitória atingiu os quartos-de-final.

É ainda nos anos 80, na época 88/89 que o Vitória escreve a sua primeira página de ouro, conquistando o seu primeiro título nacional, conquistando a Supertaça Cândido Oliveira frente ao FC Porto.

Os anos 90 começam com a conquista do título de campeão nacional de Juniores com uma equipa liderada pelo Prof. Manuel Machado A década de 90 fica marcada por grandes embates europeus. O Vitória SC disputou partidas com Parma, Lazio, Barcelona, Fenerbaçe, Real Sociadad, Ajax, Standart de Liege, Anderlecht e Celtic de Glasgow.

O novo milénio é uma fase bastante agridoce na História do Vitória Sport Clube. Em 2006 o Vitória SC desde de divisão (depois de 48 anos consecutivos na primeira liga). Aquele que poderia ter sido um período negro no clube é transformado num momento de afirmação e aproximação das gentes de Guimarães com o clube. O Vitória registou as maiores médias de assistência de sempre na competição e aumentou em milhares o seu número de associados (incluindo a minha pessoa). Na época 2006/07 o Vitória SC regressa à primeira divisão, após um ano na segunda divisão, conseguindo um 3º lugar e, consequentemente, a primeira qualificação da sua História para a pré-eliminitória da Liga dos Campeões.

Um ano depois do Regresso do Rei, o clube vê o sonho a ser-lhe roubado naquele fatídico golo (mal) anulado frente ao clube-cujo-nome-não-deve-ser-pronunciado que impede que o Vitória SC entrasse pela primeira vez na fase de grupos da Champions League.

No início da década de 10 do novo milénio o Vitória regressa ao Jamor 25 anos depois. O FC Porto venceu, mas foi absolutamente fantástico voltar aquele palco que para muitos de nós apenas existia nas histórias dos sócios mais antigos.

Na época de celebração dos seus 90 anos de existência, em 2012/13 o Vitória Sport Clube conquistou, finalmente, o Santo Graal dos vitorianos. Aquele troféu que gerações e gerações sonharam conquistar. Os golos de Soudani e Ricardo no Jamor deram ao Vitória a sua primeira Taça de Portugal. Já se passaram 5 anos e acho que nenhum de nós consegue olvidar a felicidade imensurável que sentiu no momento em que o capitão Alex recebeu a Taça de Portugal. Nenhum de nós jamais esquecerá os nomes dos eternos conquistadores: Douglas, Paulo Oliveira, Kanú, Addy, El Adoua, Olímpio, André André, Tiago Rodrigues, Ricardo, Amidó Baldé, Soudani, Assis, Alex, N´Diaye, Crivellaro, Barrientos, João Ribeiro e Marco Matias e do Treinador Rui Vitória.

Na época 2014/15 o Vitória SC, a disputar a Liga Europa, consegue o melhor resultado europeu de sempre, batendo o NK Rijeka, da Croácia, por 4-0 no Estádio D. Afonso Henriques.

O título que faltava aos escalões de formação do Clube chega na época 2014/15: a equipa liderada por Tozé Mendes sagra-se campeão nacional de Juvenis.

Na época 2016/17 o Vitória Sport Clube iguala o maior número de pontos conquistados numa época, consegue finalmente vencer o Sporting Clube de Braga no estádio AXA e chega à sua sétima final da Taça de Portugal.

Em 2017/18, época que marca os seus 95 anos de existência, quem sabe quais serão as histórias que ainda poderemos escrever. É importante estudarmos e conhecermos o passado para compreender o presente e mudar o futuro. Independentemente do sucesso ou do insucesso, de estarmos numa era de ouro ou numa fase miserável o Vitória sempre teve algo que o tornou diferente de qualquer outro clube: o Vitória sempre teve uma massa associativa extremamente conectada com o clube.

Na sexta-feira, quando a bandeira chegar ao topo do mastro e começar a abanar com o vento, terão subido com elas todos estes (e mais alguns) pedacinhos de História que fazem deste clube muito mais do que um clube. No Vitória sempre soubemos honrar a nossa História e eu estou ansiosa por viver aquilo que o futuro tem reservado para nós.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.