Diana, Diana, Diana

O MEU SONHO É MORRER

Já não há retractos.
A hora corre ao passo do minuto diminuto. Não há tempo a perder
Que este tempo está perdido.
Tem vezes que mendigo, foragido,
As vezes são de severa modernidade, Vezes de tempo esquecido.
Houve tempo de retractos
Onde Homens se faziam,
Não como lábios em tela vazia
Que nem dados de arremesso.
Houve tempo dos Homens imortais,
Imemoriais,
Espectros do dia, sombras da madrugada,
Nobres vultos dos sábados da rua grande da minha cidade.
As ruas dos portões lambidos de verde,
Das bacias de flores frescas,
Do sabão exausto e esquecido no tanque encardido, São cadáveres refeitos.
Lisos e perfeitos sem demão.
Os tanques são jangadas em terra
E a terra é de alcatrão.
Já não há retractos de parede.
Em cada esquina, ninguém.
Uma nostalgia por decerto se encontra Ou uma doença
Ou uma venda opaca que se trespassa, Uma mulher que fala sem saber de si
Um relógio entediado sem ponteiro trabalhado
Um rio de gente que se farda no espelho equiparado.
Vive-se, é certo.
Vive-se paredes-meias com o incerto,
Como num deserto,
Onde se espera encontrar o vórtice que acalma a sede Louca e ofegante,
E que senta o sequioso nas rochas lúbricas
Duma qualquer cascata refrescante.
Hoje ainda há a vida que acorda. É o deserto.
Chamam-lhe realidade.
Vale papel,
Vale centavos.
Há ainda a vida que jamais deita. É a cascata.
Chamam-lhe virtualidade.
Vale milhares de tudo um pouco, Feitas as máquinas como escravos.
Reinventaram o amor
E gravaram-no em toda esta maquinaria,
Pois assim se sabe amar à margem do tempo. Amor-máquina,
Objecto,
Jamais obsoleto,
E a outrora graça de uma carta que se escrevia, É pelo melhor uma tão inútil fotografia,
Não um retracto,
Que desses já não há arte que os valha.
Se pudessem honrar amor como se honra arte, Estandarte digno e indelével da humanidade, Nunca se jorraria sangue de verdade,
Mas sim um de outra galhardia.
Se dissesse um retracto palavras de revolta,
Se pincéis tingissem de sangue as paredes da paz, Se as tingissem de amarelo ou de lilás,
Se o retracto fosse lição,
De facto,
A fazer entender quem nunca viu,
Quem nunca quer ver
O que realmente se entende por amor e arte
Tão certo com se agrega amor e morte, Explodiriam cordas de vinil na areia inexplorada. Explodiriam em sete notas,
Íngremes,
Possantes,
Sete tons de arco-íris
Fazendo dançar os tentáculos das palmeiras.
O mar, esse,
Mudaria a cantiga, Roubaria a areia manchada, Colorida,
E vivo como nunca,
Pobre mar velho,
Castigado,
Maltratado,
Galgaria as suas própria ondas,
Riscaria a sua própria rota,
Para um dia mostrar ao mundo e à Terra Que existe amor e que existe arte, Suaria para que todos vejam,
Para que todos sintam,
Para que todos aspirem,
Para que todos amem como amam os céus.
Tristura.
Imensurável tristura que por aí paira. Tudo tem um preço.
Tudo tem um dono.
Oh. Mil infernos.
Que já nem por Rabelos se tem apreço. Que nos venha. Raios.
O eterno sono.
Sorrisos é coisa pouca que se vê por aí. Vê-se fúrias e engarrafamentos,
Almas que voam e se escangalham ao chão, Beleza a granel,
Vestimentas do arco-da-velha,
E velhas.
Velhos e velhas que não morrem avós.
Pudesse eu pintar agora o mundo Deslindá-lo de preto e branco,
Num só flanco,
Pelo certo ajoelhar-me-ia na demência. Essa que por agora é moda,
Deprimente depressão do pobre, Inocente errante já nascido neste nojo, Nesta lava que foi crescendo e fervendo, Ferindo e matando.
Está tudo feito.
Agora só falta destruir.
Ainda que parecendo poucos,
Todos esses loucos,
Querem atear a nossa alegre casinha
Como quem ceifa a mata que debulha demasiado Na esperança de que cresça o feno e a erva fresca.
Fedavelha de mundo. Horda dos diabos.
Isto não está a acontecer. É ver para querer,
Que para ser contado mais vale morrer.
Se eu contasse a história de um país, Pediria a Cristo que não ouvisse isto,
Vendaria todos os olhos de todas as crianças, Roubaria o papel de todos os poetas,
Segaria as garras de todos os artistas,
E mordaças em meus próprios dentes eu poria.
Porque um país agora é isto. Isto que se tem visto.
Isto que agora urge.
E salve-se os clandestinos, Os de crenças e requebros. Vai tudo a eito
Sem nada,
Sem glória,
Sem respeito.
Eu sou o pontífice dos clandestinos, Vigário da humildade,
Profeta do sacrilégio.
Minha glória é não mais que palavras de Régio.
Reinventaram as coisas. Bordaram as algibeiras. Espáduas de amigos valem ouro E ouro é coisa de igrejas.
Ah. Que não me gritem cobranças, Tristes de pesares e esp’ranças, Que o predestino foi ludibriado.
O operário é um calhau,
O estudante um esvaziado, O contista está morto,
O político absorto,
As donas,
As garças,
As graças,
As cantigas,
Os filhoses,
As conversas ao relento, Cantarinhas,
Poemas,
Novenas,
A lenha de fogão,
A geada de verão,
São fendas de um outro tempo,
De um outro alento que nunca,
Mas nunca voltará a fervilhar o sangue Que nos amornava o coração.
O meu sonho é morrer.
Morrer para voltar a viver Viver para de novo para te ter E agarrar o tempo bem lá atrás.

César Elias, 31 anos, escritor vimaranense. licenciado em Estudos Culturais pela Universidade do Minho, editou em 2010 “secretária antiga” (poesia), em 2012 “América” (romance), “A Cova da Moura”, (guião, bienal de Cerveira 2012). Publica contos, poemas e crónicas em alguns jornais.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.