A eleitora na feira

Cinco minutos de pausa, para a viatura e condutor. Encostado ao muro, vou apreciando a multidão que, nos dois sentidos, vão passando pela rua, oriundos ou a caminho do mercado e da feira, onde andavam os partidos em campanha.

Pelo canto do olho, saída da feira, vejo uma senhora cuja idade, tanto podia ser de setenta como de oitenta anos. Lentamente dava um ou dois passos e parava. Mais dois ou três movimentos e está a meu lado.

-Bom dia! Que partido é este?
-É o Bloco de Esquerda, minha senhora, está escrito na carrinha!
-Eu não sei ler! É o daquela “pequeninha”? Como é que ela se chama…?
-Catarina Martins!
-Ai, eu gosto muito dela! Pode ser pequena, mas dá cada bigode aos homens..! Gostava de a ver.
-Por acaso, neste momento, está no mercado.
-Fica para outra vez, já estou cansada de tanto barulho e a desta não faz mal aos ouvidos.

E, à medida que ganhava confiança, foi desfiando: olhe, perdi a minha mãe aos dezasseis anos, o meu pai, coitado, o que ganhava, estourava na tasca e, quando chegava a casa, era porrada para todos. Criei cinco irmãos, quase sozinha, trabalhei como uma burra, levei quantas me deram, mas não perdi nenhum.

-Quando o meu homem, começou a andar atrás de mim, sempre lhe disse: Enquanto o mais novo, não puder fugir a cão, não temos nada; E assim foi! Quando o último saiu de casa, preparamos as coisas e daí a três meses estava casada.

-O raio do homem aprendeu depressa, o caminho da tasca, começaram a vir os filhos, conforme Deus queria e lá criei sete, da melhor maneira que se pôde. Passei muita “fominha”, para dar aos filhos!

-A senhora trabalhava, fazia descontos?

-Trabalhava, como criada, numa quinta. Só mais tarde fui trabalhar para uma fábrica e quando ela fechou, fui para a reforma, mas deram-me uma côdea. Estou a receber 247€ e meu homem recebe pouco mais de trezentos.

-Vai dando para a sopa! Arrisquei uma frase corriqueira.

-Ó senhor! Depois de pagar os remédios, a renda, a água e aluz, o que fica só dá para ir tenteando.

-E os seus filhos?

-Um ficou-me na Guerra, em Angola, os outros foram uns para cada lado e quase nunca os vejo, só o mais velho vive na terra mas, se calhar precisa mais do que eu.

-Eu bem gostava de ter uma placa de dentes e uns óculos, mas olhe, paciência! Vou ver se ainda arranjo um boné ou um avental. Fique com Deus!

E lá foi, para o meio da multidão, do ruído infernal das músicas pimba e dos berros que ninguém percebia.

Fiquei ali mais uns minutos, pensando numa mulher, da qual nem sabia o nome, analfabeta, míope e desdentada, vítima de uma sociedade fria e egoísta, que me pôs a reflectir sobre o que estava ali a fazer.

Joaquim Teixeira é deputado pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Guimarães. É sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.