E se o Picasso estava enganado?

A inteligência artificial (IA) é um termo tecnológico que resulta da tradução do inglês Artificial Intelligence e que recentemente tem tido uma crescente notoriedade mediática.

Não sendo possível nesta crónica apresentar com detalhe as bases deste termo e a área de conhecimento associada, digamos que, por simplificação e ponto de partida, a IA é fundamentalmente qualquer coisa que um computador faça. Até mesmo uma simples operação matemática que o computador resolve num espaço de tempo quase infinitesimal pode ser considerada IA. Contudo, quando atualmente nos referimos a IA não estamos a pensar em operações matemáticas simples, mas em operações e atividades bem mais complexas. E pensamos assim porque quando já todos interiorizamos que um computador é capaz de fazer uma dada operação “inteligente”, imediatamente deixamos de a ver e classificar como “inteligente”, mas na prática qualquer aplicação informática não é mais do que uma forma, simples ou complexa, de inteligência artificial.

Muito provavelmente, a razão para agora a IA estar sob os holofotes mediáticos será a grande e rápida evolução da forma como a máquina (leia-se o computador) tem demonstrado. Olhando para o nosso dia-a-dia, em particular daqueles que usam computadores, podemos perceber que a IA já está nas nossas vidas há algum tempo. Por exemplo, quando navegamos na internet ou consultamos o e-mail, vemos que nos são sugeridos anúncios para a compra de filmes, livros e viagens que vão ao encontro de algo que procuramos recentemente ou até, mais surpreendente ainda, de algo que estávamos apenas pensar fazer num futuro breve. Na prática, o que esses sistemas informatizados fazem é muito humano. Estes sistemas recolheram informação sobre os nossos comportamentos, tais como os termos que usamos nas procuras que fizemos, os vídeos a que assistimos, os “gostos” que colocamos nas redes sociais, etc. e, tal como um humano, assumem que nós teremos interesse nessas mesmas áreas. Repare-se que este comportamento não é mais do que o que um nosso amigo (humano) tem quando, perante a necessidade de ter de nos comprar um presente de aniversário, tenta perceber pelo nosso comportamento passado quais são os nossos interesses.

Para além dos milhares de exemplos de IA que já fazem parte da nossa vida, o que tem sido crescentemente divulgado pelos media é a possibilidade da AI, sobretudo à luz do seu desenvolvimento mais recente, se tornar tão inteligente que possa ser comparada com a inteligência humana. Atualmente é relativamente consensual assumir-se que um verdadeiro sistema de inteligência artificial é aquele que tem a capacidade de autoaprendizagem, tipicamente designada por machine learning. Estamos a falar de sistemas complexos que, baseados em conceitos igualmente complexos como as redes neuronais, conseguem estabelecer ligações entre ideias e significados sem necessidade de recorrer a comportamentos pré-definidos por um qualquer algoritmo. Nestes casos, a IA será capaz de melhorar o seu desempenho baseando-se em interações passadas, tornando-se consciente e mais eficiente (logo mais inteligente).

Sendo verdade que algumas das crónicas que lemos sobre este assunto não passam de meras teorias e previsões, mais ou menos catastróficas, sobre o nosso futuro, a verdade é que a IA já está nas nossas vidas, por vezes de forma evidente, por vezes de forma quase “transparente”. Os nossos telemóveis, carros, bancos e edifícios usam, todos eles, alguma forma de IA. As aplicações da IA são múltiplas e variadas, mas alguns exemplos das suas aplicações passam pelos casos mais conhecidos como, por exemplo, no retalho. Um dos maiores retalhistas ao nível mundial, a Amazon, usa os seus algoritmos de IA para prever (e antecipar) o nosso interesse em produtos que queremos adquirir e, em função disso, antecipa-se, envia-nos informação específica e, mais surpreendente ainda, abastece os seus armazéns de acordo com estas necessidades previstas. Outro excelente exemplo são os sistemas de controlo de ambientes domésticos que, mais recentemente, têm aparecido no mercado. Por exemplo, a proposta da Google permite que um sistema de controlo de temperatura preveja, com base em algoritmos preditivos de comportamento, as nossas necessidades em termos de aquecimento e refrigeração dos edifícios. Com isso, o sistema pode antecipar e ajustar a temperatura na nossa casa e escritório tendo por base o nosso padrão de vida. A título de exemplo, uma pessoa que vá todos os dias ao ginásio antes de ir trabalhar terá necessidade de uma temperatura mais baixa quando chegar ao escritório, dado o aumento do seu metabolismo resultante da atividade física.

E, claro está, o exemplo de IA mais falado ultimamente (e que foi objeto de uma das crónicas anteriores) é o da condução autónoma. Se muitos pensavam que a condução autónoma era apenas uma utopia, exemplos como o da Tesla mostram que estavam errados. Não se trata de um carro com muita tecnologia que segue uma rota pré-definida de um qualquer mapa e se orienta espacialmente por uso de satélites, mas, em vez disso, trata-se de sistemas de IA, de elevada complexidade, com a capacidade de aprender a conduzir da mesma forma que nós humanos o fazemos, através da experiência.

Apesar das enormes vantagens que possamos ver na utilização da IA, também é verdade que cada vez mais a vemos como uma potencial ameaça, em particular quando a associamos ao cenário, já milhares de vezes explorado em livros e filmes, em que os robots (que não são mais do que uma forma de IA) possam vir a dominar o mundo.

Existe hoje em dia uma quase polarização de opiniões face ao desenvolvimento da IA. Por um lado, temos aqueles que acham que se deve investir em investigação nesta área e explorar o seu potencial, sendo um exemplo disso o investimento anunciado na semana passada pela “gigante” IBM na ordem dos 240 milhões de dólares, os quais serão usados na criação de uma parceria com o MIT para a investigação sobre IA. Por outro, aqueles que entendem que se deve caminhar com muita prudência nesta área. Neste último grupo está, por exemplo, o famoso magnata e empreendedor Elon Musk, que numa entrevista recente a respeito da IA referia que é urgente que os governos regulem o desenvolvimento da IA. Segundo Musk, os reguladores devem intervir indicando às empresas para abrandar e terem calma no desenvolvimento da IA, sobretudo para se certificarem de que não estão a criar tecnologia perigosa.

Neste contexto, e numa tentativa de prevenir um domínio por parte das máquinas, alguns cientistas estão a desenvolver métodos que permitirão às máquinas adquirir e usar conceitos de ética, permitindo, por exemplo, que os computadores possam distinguir os conceitos do bem e do mal, com a expectativa de tornar estas máquinas mais empáticas e humanas. A abordagem é similar à que temos com as crianças quando lhes contamos histórias com o objetivo de lhes ensinarmos e transmitirmos a ideia do bem e do mal. É, no entanto, paradoxal pensarmos que esta abordagem de ensinar os valores humanos pode, ela própria, ser perigosa. Basta olharmos para a história mais recente da humanidade para percebermos que, mesmo que estes princípios básicos tenham sido transmitidos, haverá sempre pessoas capazes das maiores e mais inimagináveis atrocidades. Se os humanos podem ser perversamente malévolos, o que impedirá então que os computadores não o sejam? Para além disso, pode até acontecer que um computador superinteligente perceba que, por exemplo, o maior problema para o ambiente e sustentabilidade do planeta é o próprio ser-humano… e que possa decidir que o melhor é “eliminar” essa ameaça.

Para além das especulações sobre o futuro, uma coisa parece ser certa, a evolução da IA a que temos assistido tem sido tão impressionante que nos pode levar a pensar que é provável que Pablo Picasso estivesse errado quando, em 1968, disse: “… os computadores não servem para nada, pois só conseguem dar respostas”.

Pedro Arezes, 44 anos e natural de Barcelos, é Professor Catedrático na Escola de Engenharia da Universidade do Minho e Diretor Nacional do Programa internacional MIT Portugal (www.mitportugal.org). Tendo orientado mais de 100 teses e dissertações, é coautor de mais de 400 publicações científicas. Ao longo dos últimos 20 anos, foi palestrante convidado em mais de uma centena de palestras em cerca de 15 países.