Sejam bem-vindos ao Inferno Branco

Sejam bem-vindos ao Inferno Branco! Aqui canta-se até que a voz nos doa. Aqui apoia-se do primeiro ao último segundo. Aqui tem-se fé sem ter qualquer explicação para ter fé. Aqui respira-se história. Aqui ama-se incondicionalmente. Aqui está o exército do Rei!

Em Guimarães nós não sabemos o que é ser adepto de futebol (a sério, não sabemos). Nós não vamos ao estádio apenas para ver um jogo de futebol. Nós não somos vitorianos apenas 90 minutos por semana. Nós não enchemos estádios apenas quando estamos no topo.

Em Guimarães, ser do Vitória é muito mais do que ser um adepto de um clube de futebol. Ser vitoriano é um estado de alma, é um suplemento de existência. Ser vitoriano é uma forma de vida que não escolhemos, mas que nos escolheu a nós. Ser vitoriano faz parte daquilo que somos e fazemos 24 horas por dia (não conseguimos tirar férias ou fazer uma pausa). Ser vitoriano é sofrer nos momentos difíceis em que as vitórias persistem em escapar e continuar a acreditar que depois da tempestade vem sempre a bonança. Ser vitoriano é um sentimento de identidade que nos estrutura e justifica.

Para nós a chuva é sol. Nós não permitimos que as derrotas nos abalem, nós sabemos usá-las como impulso motivador para voltarmos ainda mais fortes. Nós continuamos orgulhosamente vitorianos após as derrotas e sentimos o nosso orgulho ainda mais enaltecido nas vitórias impossíveis.

Às vezes acho que somos masoquistas, que gostamos de sofrer, mas na realidade nós gostamos é daquele momento em que após um longo período de derrotas experienciamos a felicidade em todo o seu esplendor. Aquele momento em que, mais do que tudo, nos sentimos orgulhosos por termos apoiado a equipa da nossa vida nos seus maus momentos dando-nos o direito de agora também sermos felizes porque nunca deixamos de acreditar e de apoiar.

Contra tudo e contra todos, ontem foi um daqueles dias especiais em que a simbiose entre jogadores e adeptos foi o elemento chave no triunfo. Um daqueles dias em que os adeptos levaram a equipa às costas e que a equipa soube servir-se desse apoio para crescer em campo e fazer aquilo que todos desejamos: jogar bom futebol, marcar golos e ganhar.

No final da época, quando o Vitória tiver feito uma das melhores épocas de sempre, eu juro vou procurar Fábio Veríssimo, vou abraçá-lo (esta parte se calhar não é boa ideia) e vou agradecer-lhe.

Obrigada Senhor Árbitro! Obrigada pelos 5 minutos de compensação completamente desnecessários. Obrigada pelos cartões amarelos que ficaram por dar aos jogadores do Marítimo. Obrigada pelo cartão amarelo absurdamente dado ao João Aurélio. Obrigada pelas duas expulsões pela razão mais absurda de sempre. Obrigada por parar o jogo por motivos irrisórios e fazer tudo para evitar que se jogasse futebol (se calhar até lhe agradeço pelo que fez enquanto estava atrás do VAR na semana passada, mas isso não fez parte deste jogo).

Sem Fábio Veríssimo, muito provavelmente a história dos jogos passados ter-se-ia repetido… O Vitória entrou a todo o gás, permitiu o empate e depois esteve a jogar contra um Marítimo que fez por jogar o mínimo possível, tornando o jogo chato e fazendo diminuir o nível de qualidade até da equipa do Vitória. A rajada motivacional parecia estar a esmaecer quando Veríssimo decidiu expulsar dois jogadores (um de cada equipa) por um motivo absurdo, provocando uma ânsia de vencer que ainda não tínhamos vivenciado esta época.

Não há nada que consiga unir mais os vitorianos do que o sentimento de injustiça, a sensação de que somos nós contra o resto do mundo (contra tudo e contra todos) e a convicção de que ganhar aquele jogo passa a ser uma questão de honra.  A partir desse momento vimos um Vitória mais audaz e com mais responsabilidade para somar os três pontos.

Obrigada Senhor Árbitro e obrigada Marítimo – que com a sua falta de vontade de jogar e com o seu antijogo – deram aos nossos jogadores a injeção de confiança que eles desesperadamente precisavam para se tornarem numa equipa “à Vitória”.

Naquele momento tenho certeza que todos aqueles jogadores, mesmo os recém-chegados, sentiram o que era ser do Vitória, sentiram que aqueles “tipos” que tinham estado nas bancadas a apoiá-los incansavelmente e que até reclamaram com eles no final dos jogos eram muito mais do que adeptos, eram uma força especial que esteve/estava e estará sempre lá para os empurrar para a vitória.

O jogo de ontem serviu para atenuar o início de época intermitente. O Vitória teve uma exibição de qualidade, regressou aos triunfos e deixou-nos confiantes no futuro e com a sensação de que este é o Vitória que Pedro Martins persistia em dizer que existia, mas que se recusava a aparecer.

Valeu a pena ter paciência para ver finalmente este Vitória (a ser uma equipa e a jogar bom futebol)! O Vitória está de volta! Que o jogo de ontem seja o ponto de viragem!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.