A celebração da democracia. Ou não.

O título desta crónica também podia ser “Do Esquecimento”.

Na Alemanha de 2017, a extrema-direita consegue chegar perto de 14% das eleições. 72 anos depois do fim da segunda guerra mundial. Depois do fim dos regimes totalitaristas que dominaram a Europa no século passado, parece que não aprendemos nada com o passado. As posições políticas extremam-se, infelizmente, sempre no sentido de voltarmos a repetir os erros do passado.

Na era da comunicação instantânea, não teremos desculpas para nos desresponsabilizarmos por aquilo que acontece à nossa volta, no nosso tempo. Pensando nisto, não posso chegar a outra conclusão a não ser que a democracia falhou.

Felizmente cresci num ambiente onde a democracia não era um dogma. Isto é, não era a única forma de nos organizarmos politicamente como sociedade e pode e deve ser questionada, para que as suas falhas possam ser melhoradas, sempre numa perspectiva colectivista, ou seja, sempre com o intuito de tornar a sociedade socialmente mais justa, para todos os indivíduos. Uma sociedade onde a competição fosse trocada pela cooperação.

Andava no 9ª ano quando na Áustria, Jörg Haider, através de uma coligação pode chegar ao poder. Andava precisamente a estudar na escola a 2ª Guerra Mundial. Lembro-me claramente ainda hoje da pressão internacional que a Áustria sofreu e a sensação de alívio que tive quando me explicaram, de uma forma simplista, que a União Europeia não tinham deixado que Jörg Haider chegar ao poder, com medo de repetir os erros do passado. Ora dessa sensação de alívio para a agonia que sinto agora a ver as notícias passaram-se 17 anos e, mais uma vez, sinto que democracia falhou.

E falha todos os dias. Falha especialmente em épocas de campanha eleitoral, que deveriam ser ocasiões de celebração da democracia, uma vez que é o exercício de delegação do poder do povo nos seus representantes.

Sondagens encomendadas, perfis falsos no Facebook para comentar ou atacar forças políticas, órgãos de comunicação ao serviço de partidos, pessoas que se dizem independentes, mas que sabemos todos que de independentes não têm nada. Pessoas que pensam que partidos publicamente apoiam tendo em consideração que partido lhe irá beneficiar mais. Dizem-me que política é isto, mas eu não acredito. E teimo em não acreditar.

Se eu puder fazer publicamente aqui um pedido ao futuro presidente da Câmara, peço-lhe que antes de mais nada, pense em cidadania e em cidadania informada. É preciso envolver a população nas tomadas de decisão e explicar-lhes que a democracia não se resume ao voto.

O voto para ser útil (no sentido de o eleitor estar devidamente representado) tem de ser um voto informado. Sem literacia política, não existe democracia.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.