Reflectindo

De repente… Meia-noite pela torre abaixo!

As gargantas, inflamadas pelos gritos, silenciaram, arrearam-se as bandeiras e as multidões dispersaram, individualmente ou em pequenos grupos, comentando o êxito da sua manifestação.

Pelas ruas da cidade e por todo o concelho, especialmente nas rotundas e cruzamentos, os candidatos continuam lá, esforçando-se por manter o sorriso, com que decidiram conquistar o eleitorado.

A quantidade e imponência das figuras, obrigava a pensar na bifana ou na fêvera, no boné, na camisola, na régua, no avental de cozinha, fazendo-os sentir a obrigação de agradecer, com o voto, o que tinham recebido.

-Eu até votava naquele mas, “c’um catano”, e se um dia preciso deles? Sabe-se lá! Um emprego, uma licença, enfim, um favorzito qualquer. O melhor é jogar pela certa! Suspirava um isolado.

Um pequeno grupo, bandeiras enroladas debaixo do braço, ia dando palpites sobre os resultados.

-Cá para mim, isto está no papo, dizia um, logo secundado pela maioria.
-Claro que está, reforçava um outro para vincar opinião, não se viu a quantidade de obra feita?
– Não acham um pouco estranho, tanta obra ao mesmo tempo, arriscou um terceiro.

Reacção geral – Ó pá! Pareces os gajos da extrema-esquerda, porra! Se a câmara fizesse uma estrada de cada vez, quem é que reparava?

O que tinha ousado questionar, já tinha a viola no saco. A conversa continuou, sempre debaixo dos olhares das figuras com que se iam cruzando.

Outros grupos, oriundos de diversos pontos da cidade e com objectivos diferentes, palpitavam sobre a possibilidade de substituir quem estava no poder.

Neste grupo notava-se um certo optimismo, exagerado nuns, moderado noutros. Tendo em conta o investimento feito, a maioria confiava.

-Porra, clamava um, com ar de líder, é muito ano a correr atrás disto! Se não for este ano, tem de haver mudanças.
-Mudanças, como?
-Sei lá! Mudar de táctica, de treinador ou outra coisa qualquer.
-Pronto, chegamos ao futebol!

Os candidatos, pendurados nas estruturas, reflectiam na eficácia dos brindes, das enormes caravanas ou dos porcos, cada um mais esperançado que o outro, mas sempre sorridentes.

Joaquim Teixeira é deputado pelo Bloco de Esquerda na Assembleia Municipal de Guimarães. É sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.