Amar o Vitória: uma espécie de casamento

No domingo passado quando me preparava para sair de casa e ir apoiar o Vitória lembrei-me de pegar numa pequena caixa preta e prateada com o emblema do Vitória estampado que há muito está abandonada na gaveta reservada para o Vitória no meu quarto. Naquela bonita caixa estava um anel de prata com a frase “Vitória até morrer” inscrita. Há 7 anos eu costumava andar com aquele anel todos os dias, mas depois de uma situação em que quase o perdi resolvi guardá-lo na sua caixa e usá-lo apenas em alguns momentos especiais.

Depois de um início de época “menos bom” eu precisava de algo especial para levar para o estádio (uma espécie de amuleto da sorte). Quando fui buscar o cachecol à gaveta e vi aquela pequena caixa eu soube que estava na hora de permitir que aquele anel, que me acompanhou em momentos extremamente especiais, voltasse a ver a luz do sol (ele estava no meu dedo quando ficamos em terceiro lugar, quando o hino da Champions tocou pela primeira vez no D. Afonso Henriques e quando ganhámos a Taça de Portugal). Naquele dia o Vitória precisava de energia positiva extra, o anel voltou ao meu dedo anelar e o Vitória regressou às vitórias com uma excelente exibição.

Nós costumamos dizer que não somos do Vitória porque queremos, mas porque que fomos escolhidos. Há 7 anos quando comprei aquele anel na loja do Vitória eu escolhi usá-lo no dedo anelar esquerdo e quando me perguntavam se me tinha casado, respondia em tom de brincadeira que estava casada com o Vitória e que este amor era para a vida toda.

7 anos passados, aquilo que eu dizia em tom de brincadeira parece agora demasiado real. “Escolher” um clube de futebol é o mesmo do que escolher um companheiro/a para a vida. Nós apaixonámo-nos e, às vezes, as razões não são minimamente compreensíveis. Algumas pessoas podem pensar que a pessoa com quem escolhemos partilhar o resto da nossa vida não é “linda”, mas nós, que a escolhemos, vemo-la de uma forma que mais ninguém vê.

Eu “escolhi” o Vitória (ou melhor, o Vitória escolheu-me a mim) quando estávamos quase a descer de divisão. Eu escolhi o patinho feio e não o belo cisne. Era bem mais fácil ter escolhido ser de um dos ditos “3 grandes” que estavam sempre a ganhar, mas eu “resolvi” apaixonar-me por um clube que tinha uma espécie de sentença de morte declarada (naquela altura eu não percebia muito bem o que era a segunda divisão, mas parecia-me um lugar horrível, pior do que o labirinto do Triwizard Tournament). Porquê? Não sei, aconteceu comigo…

Eu detestava futebol, não percebia nada daquilo. Ir àquele estádio devia ter sido algo tão banal como uma ida ao cinema ou ao bowling, mas, no entanto, quando lá entrei eu senti que tinha de apoiar o Vitória (Apoiar o quê? Apoiar porquê? Nada daquilo fazia sentido – Ainda não sei se faz). É realmente a mesma coisa de quando nos apaixonamos por um homem/mulher.

Eu conhecia o meu namorado há vários anos, tinha com ele uma relação baseada maioritariamente no Vitória, mas um dia quando estávamos no cinema, as nossas mãos tocaram-se e houve algo de anormal naquele toque, uma espécie de borboletas que invadiram a minha barriga (isto é tão cliché, mas é tão verdade) e que me fizeram perceber que havia algo de especial ali. Porquê? Bem, eu não sei, apenas aconteceu.

Também aconteceu com o Vitória. Em 2006 eu apaixonei-me pelo Vitória (o meu namorado sabe que tenho um relacionamento duradouro com o Vitória e aceita-o, não se preocupem).

O efémero sempre fez parte da minha vida. Eu pensei que ia achar isto do Vitória “giro” por uns tempos, ia ver alguns jogos de futebol e que passado algum tempo me iria cansar, mas o “problema” é que, depois de todos estes anos eu ainda amo o Vitória e ainda estou muito feliz por fazer parte deste relacionamento.

Eu não sou casada, mas baseando-me nas experiências dos outros (quer na vida real, quer na literatura ou televisão) acho que é correto dizer que o casamento nem sempre é um conto de fadas. Ao longo dos anos acontecem argumentos e desentendimentos. As relações são complexas. Há momentos em que parece que o amor está a desaparecer lentamente. Há momentos em que as coisas más parecem superar as coisas boas. Em qualquer relação, há momentos em que duvidamos se aquele amor vai durar, se é para a vida toda (se nunca tiveram esses sentimentos na vida, acho que ou se esqueceram de algo ou são pessoas extremamente sortudas. Com muita, muita, muita sorte mesmo).

Quando confrontados com esse momento, há duas coisas que podemos fazer. Acabar o relacionamento ou ficar naquela relação porque ainda amámos a outra pessoa. Podemos ficar com aquela pessoa porque ainda existe aquele lado dela que se importa connosco e que quer fazer-nos muito felizes, mesmo que não seja óbvio naquele momento.

Então, qual é a conexão com o casamento e o futebol (devem estar a perguntar-se)? Tudo começa com o facto de me ter apaixonado por um clube de futebol. Ao fazer isso, comecei um relacionamento duradouro com este clube, com o Vitória.

A minha relação com o Vitória é como um casamento. Boas épocas e más épocas. Grandes deceções e momentos de colossal alegria. Tal como num casamento, fiquei com o Vitória nos maus momentos e tive a enorme felicidade de testemunhar os seus bons momentos. Depois de tudo o que já passamos juntos, estou pronta para aceitar os maus momentos. Porquê? Porque eu sei que o Vitória ainda me dará bons momentos. Quando? Bem, na realidade isso não é importante. Eu sei que teremos dias (épocas) bons novamente. Eu sei que a chuva voltará e que ela será sempre sol para nós.

Quero-os agora? Sim, claro que sim, não há nada que eu queira mais do que vitórias do Vitória (devem estar a pensar que se calhar eu devia arranjar uma vida, mas tudo bem). Eu gostava muito de os ter agora. Gostava que o Vitória ganhasse cada jogo que jogasse, mas isso não é possível. Eu sei disso e posso aceitá-lo (se calhar não devia, se calhar é isso que nos impede de crescer, mas eu consigo aceitá-lo).

Nos bons e nos maus momentos eu vou ficar com o meu (NOSSO) Vitória. Marcar não é assim tão importante (mais uma vez, se calhar é esta mentalidade que nos impede de crescer, mas o amor é cego). O que é importante para mim é continuar a ter a capacidade de o amar. Mesmo durante a derrota mais dolorosa, posso dizer a mim mesma: não importa, eu amo este clube.

O que eu aprendi ao longo destes anos, desta que é a relação mais longa da minha vida, é que devemos tentar aproveitar cada momento, celebrar cada golo, festejar cada defesa. Não posso admitir ser muito infeliz com os desaires do Vitória. Não me devo preocupar tanto e tenho de me permitir ser feliz. Não é fácil e dou por mim a sofrer terrivelmente muitas das vezes, mas a realidade é que este amor é muito mais forte do que isso tudo. A verdade, é que eu vou amar o Vitória até morrer.

No domingo, quando cheguei a casa eu guardei o cachecol na gaveta, mas não consegui tirar o anel e voltar a condená-lo a uma existência solitária na sua bonita caixa preta e prateada com o emblema do Vitória. Ele permanece no meu dedo anelar esquerdo numa espécie de eterna lembrança de que mesmo depois da noite mais escura, o sol voltará a aparecer pela manhã, de que chuva para nós é sol, de que estamos nisto juntos e que juntos somos muito mais fortes. Uma lembrança de que o importante é que, sofremos o Vitória, pensamos o Vitória, apoiamos o Vitória e sentimos o Vitória. Ele permanece no meu dedo porque este amor é para a vida toda! Ele permanece no meu dedo porque efetivamente eu sei que serei do Vitória até (e se este “eu” continuar a existir, mesmo depois de) morrer!

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.