A necessidade aguça o engenho ou como a dinâmica musical de Guimarães se Revolve(u)

É por esta hora, dia 07 de outubro, que o Mucho Flow concretiza a sua marca na agenda cultural vimaranense. Desde 2013 que o festival traz os nomes “por explodir”, “nem sempre confortáveis para o espectador”. Chega-nos pelas mãos da Revolve, uma editora e promotora de Guimarães, que nasceu e cresceu para responder à necessidade de mais concertos e mais espaços para a música na cidade-berço.

Ao Duas Caras, Bruno Abreu explica que com Miguel de Oliveira sentiu que “faltavam concertos e espaços” em Guimarães. “Amigos nossos levavam ao Porto bandas que também poderiam passar por Guimarães e fomos conseguindo, sem qualquer tipo de experiência, aprendendo com os erros, trazer essas bandas aos palcos vimaranenses”, pontua. Desde então que essa necessidade identificada aguçou o engenho de solidificar eventos como o Agora Aqui, o Vai-m’à Banda, o Soirée, Flow de Maio, e, a “jóia da coroa”, o Mucho Flow.

O modus operandi é ‘punk’, baseado no ‘do-it-yourself,’ no fazer pela cidade: “nós procuramos as bandas com as quais nos identificamos” e, nisso, reconhece, “há um certo lado egoísta”. Destaca que a Revolve, cujos responsáveis – Bruno Abreu e Miguel de Oliveira, que depois, para que o projeto prosseguisse, tiveram que chamar os amigos Rui Dias, Pedro Ribeiro, Francisco Novais, Maurício Cunha, Rui João e Pedro Magalhães – não trabalham a tempo inteiro para a editora/promotora. Cresceu sempre com o princípio de uma associação, em que “as receitas são sempre investidas numa banda, numa edição, num concerto”.

Para que os eventos que organizam se afirmassem na cidade precisou, também, dos apoios do município: “De outra forma seria impossível para a Revolve fazer o Mucho Flow da forma que faz. São 14 artistas, sendo que o preço do bilhete [10 euros] é quase irrisório. Iniciativas como o Agora Aqui e o Vai-m’à Banda, é difícil sustentarem-se a elas próprias sem a ajuda pública. Não é impossível, porque foi o que fizemos durante grande parte da vida da Revolve, mas vimos que a única forma de darmos um passo à frente foi com esse apoio, nunca perdendo a identidade que sempre tivemos”.

Antes dos Toulouse, depois dos Toulouse

Para Bruno Abreu, há uma marca na evolução musical em Guimarães e ela chama-se Toulouse, no sentido de se ter “quebrado uma barreira psicológica”. “Acho que os Toulouse [banda agenciada pela Revolve] mudaram algo na cidade. Guimarães sempre teve muita música e muitas bandas mas, a certa altura, as pessoas continuavam a fazer música, mas por alguma razão ela não saía. Acho que se criou uma barreira em Guimarães”, pontua. Acredita que “os Toulouse foram a prova de que era possível sair de Guimarães, sair da sala de ensaios, eles tinham duas músicas e foram tocar ao concurso de bandas do Mexe Fest”. “É a prova que qualquer miúdo precisa para fazer uma banda com um amigo e começar a tocar”, resume Bruno Abreu.

Bruno Abreu reconhece que a programação de eventos como o Mucho Flow “não é uma programação para massas”. “Os artistas com quem trabalhamos ainda não explodiram”, exemplificando com os Growlers, “que num ano estavam a tocar no Mucho Flow e no ano seguinte estavam no palco principal do Paredes de Coura”. “Não é uma programação com grandes nomes que enchem o CAAA, seria fácil fazê-lo, trazendo um grande cabeça de cartaz que venderia os bilhetes. Mas a ideia é trazer o maior número de bandas possível, que possam de alguma forma até criar desconforto nas pessoas e descobrir”, resume.

Para esta edição do Mucho Flow, sublinha que “não há um nome forte” e que o cartaz foi feito “com um crescendo”, com o objetivo de despertar a curiosidade nas pessoas, focando-se no “pós-concerto”. Revela ainda que a Revolve não aspira a festivais mega, sendo que o valor da editora/promotora “está aqui, nesta forma de trabalhar”.

Texto: Catarina Castro Abreu
Foto: Direitos Reservados