12 minutos de silêncio, 90 minutos de (im)paciência

Todos os dias, no meu caminho para o trabalho, eu vejo o estádio do Braga. Para um vitoriano isso pode parecer uma espécie de maldição, mas esta época algo mudou. Esta época, quando a meio do caminho para o trabalho a Pedreira entra no meu campo de visão eu sorrio e imagino-a pintada de preto e branco, cheia de vitorianos a festejar a conquista da Taça da Liga.

Não importa o quão mau o meu humor esteja, o quão desastrosa tenha sido a exibição do Vitória no dia anterior; no dia seguinte, no meu caminho para o trabalho eu sorrio quando vejo a Pedreira: ali reside o sonho e o objetivo maior desta época (devo admitir que a Taça de Portugal tem maior relevância para mim, mas ganhar a Taça da Liga na Pedreira seria extremamente satisfatório). Os desaires deste início de época seriam, de certa forma, irrelevantes se a 28 de janeiro o Vitória se tornasse, pela primeira vez, Campeão de Inverno na casa do seu maior rival. Conseguem imaginar a felicidade (eu penso nisso quase todos os dias)?

Este fim-de-semana o Vitória deu o primeiro passo nessa longa caminhada até Braga (road to Braga). Não foi uma passada gloriosa, mas foi uma passada minimamente interessante de se ver (coisa que infelizmente não podemos afirmar sobre todos os jogos do Vitória esta época).

A determinada altura senti-me a ver Braga por um canudo: o Vitória foi sempre superior, mas faltou-nos objetividade no momento de chegar à baliza. Tantas vezes foi o Raphinha à baliza que a determinada altura lá conseguiu colocar o esférico na baliza (e respirou-se de alívio em Guimarães).

Foram 90 minutos de (im)paciência que acabaram com o sentimento de que mesmo não estando a 100%, o Vitória merecia mais, merecia a vitória. No sábado já conseguimos ver uma equipa com (alguma) vontade de ganhar, já conseguimos ver (algumas) jogadas de qualidade, mas continuamos com um sério problema de finalização e a defesa tem momentos estranhos de desconcentração que às vezes podem sair bem caros – como aconteceu com o golo que acabaríamos por sofrer na segunda parte e nos custaria dois pontos e a liderança do grupo.

O jogo de sábado fica principalmente marcado por 12 minutos de silêncio no estádio como forma de protesto pelos maus resultados e exibições que marcaram o início desta época. 12 minutos que pareceram uma eternidade… 12 minutos em que me senti deslocada. Era algo que precisávamos de fazer; era preciso demonstrar que não estávamos satisfeitos com o estado atual das coisas, mas naqueles 12 minutos eu senti que estava a falhar como vitoriana, admito. Senti que estar calada naquele estádio era quase a mesma coisa que não estar. A minha função como adepta é apoiar o Vitória nos bons e nos maus momentos e naqueles 12 minutos eu não o fiz…

Sabem quando os pediatras aconselham que os pais deixem o bebé adormecer por si no berço sozinho? Quando os pais têm de ficar fora do quarto do bebé a ouvi-lo chorar e a lutar contra todos os seus instintos de entrar no quarto, pegar o bebé no colo e acalmá-lo? Foi assim que me senti… Os pais costumam ser recompensados com a evolução do seu bebé e deste conseguir finalmente adormecer sozinho. No caso do Vitória, espero que o nosso sofrimento por estar 12 minutos sem apoiar seja compensado com um rápido regresso às vitórias e ao futebol com qualidade.

Como diziam as faixas que foram expostas no estádio, “Talvez seja o nosso silêncio que vocês merecem, mas é o nosso apoio que vão continuar a ter”. O 12.º jogador estará sempre lá para elevar o Vitória. Nós nunca desistiremos de lutar para ver o Vitória a tornar-se aquele Vitória que infelizmente neste momento só existe nas nossas mentes.

Eu sou uma eterna crente no que diz respeito ao Vitória! Eu vou sempre acreditar que os momentos bons vão ser eternos e que uma má fase termina no jogo a seguir. Isso nunca vai mudar! Eu continuo a acreditar que temos um bom plantel (não me arrisco a dizer igual ao da época passada, mas bom o suficiente para ter ganho a Supertaça, continuar a lutar pelo quarto lugar e (quem sabe) chegar à final das duas taças), mas as coisas não têm estado a funcionar como deviam.

Há jogadores lesionados (devíamos ter acautelado isso), a maioria do plantel chegou há “5 dias atrás” (eu compreendo a relevância do fator económico, mas isso não pode servir eternamente de desculpa) e as viagens de um lado para o outro (Liga Europa e Seleções) deixam os jogadores exaustos (os miúdos já estão a morrer quando entram para o campo).

Eu aceito não ganhar porque a maldita da bola não entrou na baliza (como aconteceu nos últimos 10 minutos do jogo em Belém e no jogo de sábado), mas eu recuso-me a aceitar não ganhar porque não há entrega, lógica de jogo em campo e estratégia (como infelizmente tem acontecido na maioria dos jogos).

No final do jogo com o Marítimo eu saí do estádio crente de que as coisas estavam finalmente a mudar, que a equipa que Pedro Martins persistia em dizer que existia (e nos pedia paciência para o conseguir) estava finalmente em campo, mas na quinta-feira seguinte (no jogo em Konya) sofremos um retrocesso e as coisas voltaram a descambar. Espero que o jogo de sábado não seja apenas mais uma brisa num dia negro, mas que seja o início do levantar da tempestade.

Sábado começa o nosso trajeto na Taça de Portugal. O Santo Graal dos vitorianos. Aquela prova que nos faz sonhar e aquele troféu que a época passada esteve tão perto de voltar a ser nosso. A Taça de Portugal de 2013 está sozinha no museu do clube e precisa urgentemente de uma irmã mais nova para lhe fazer companhia.

A pré-época começou há 3 meses, o mercado fechou há mais de um mês e o campeonato já tem 8 jornadas “jogadas”. A inexperiência no campeonato nacional, a não conexão com os colegas de equipa, a inadaptação e os problemas financeiros não podem continuar a ser desculpas. Sábado muito honestamente não há espaço para qualquer tipo de desculpas… Sábado quando entrarem naquele campo (sem querer pressionar, mas pressionando) só há duas opções ganhar ou ganhar.

Sábado eu não quero saber dos problemas financeiros, não quero saber do quão tardia foi o fecho da constituição da equipa, não quero saber das lesões. Sábado, quando entrarem naquele campo em Beja (por favor não se enganem, o jogo é contra o Vasco da Gama de Beja, não de Sines) lembrem-se que vocês são os FINALISTAS DA TAÇA DE PORTUGAL 2017. Sábado, quando entrarem naquele campo vocês são CONQUISTADORES que trazem o símbolo do Rei ao peito e que têm de honrar a todo o custo.

Sábado nós voltaremos a estar lá; voltaremos a deixar tudo para vos apoiar a 800km de casa e só aceitamos sair daquele estádio com a primeira vitória das 7 que precisámos para que a Taça de Portugal se vista de preto e branco e acabe nas mãos do Moreno a 20 de maio.

P.s.: No próximo domingo, dia 15 de outubro, às 9h00, há Assembleia Geral do Vitória Sport Clube no Pavilhão. Este é o momento de discutirmos (educadamente) o que se passa no nosso clube. É tanto nosso direito como dever, enquanto sócios, estar presentes na AG, questionar e contribuir com novas ideias para sairmos desta má fase. Não faltem.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.