5 de Outubro – O Início

Numa das várias intervenções, nas comemorações do 25 de Abril, referi que, com derrube da ditadura, não nos libertamos de 48 anos de fascismo. Foi, isso sim, o reencontro com o caminho libertário, iniciado com o derrube da monarquia e a implantação da República, interrompido a 26 de maio de 1926.

Em 1910, Portugal não tinha organização administrativa local. O poder era exercido, oficialmente, pelo regime monárquico, através de representantes nomeados, nas vilas e cidades. No entanto, o verdadeiro poder, estava nas mãos igreja católica, que o exercia através de uma rede de paróquias, sob o controlo das dioceses, dominando o povo a seu bel-prazer.

Das primeiras medidas, tomadas pelo governo saído implantação da República, foram a criação das freguesias, a partir das paróquias existentes e a organização do registo civil que, até aí, não existia. Foi um trabalho muito complicado, com a igreja a dar ordens aos párocos, de negarem a entrega dos cadernos de assento, que iriam facilitar o registo dos cidadãos, os quais não tinham outra referência, além da anotação do nascimento, baptismo, casamento e morte, como filhos da “santa madre igreja”.

É curioso o facto de ter partido de Braga, a mais poderosa diocese do país, a marcha dos militares em direcção a Lisboa, onde, em Maio de 1926, derrubaram o governo eleito, implantando uma ditadura, que durou até 1974. 107 Anos depois da implantação da República e 43 depois do derrube da ditadura salazarista, que influência tem, na vida dos Portugueses, os monarquistas, os fascistas e a igreja católica?

Por incrível que pareça, os autoproclamados herdeiros da coroa, organizam eventos em espaços públicos, convidam figuras que, tendo sido eleitas na República, dão cobertura a quem renega a democracia.  A própria imprensa é cúmplice desta farsa, transmitindo directos sobre acontecimentos, em que, os protagonistas, não passam de cidadãos comuns. Os herdeiros do regime a que o 25 de Abril pôs termo, andam por aí, disfarçados de democratas, perfilando-se em organizações que, claramente, não condizem com a sua génese.

A igreja católica lá vai conseguindo manter a sua influência, com outros métodos, mas com desígnios de sempre. As eleições autárquicas, uma vez mais, reflectiram a índole da nossa sociedade.

Visto de fora, dava a sensação que, em Guimarães, as eleições eram disputadas por dois partidos, tal era o espaço e o tempo ocupado, a clubite exacerbada, o endeusamento dos candidatos e as iniciativas “coincidentes”, num claro boicote, às iniciativas de outras forças políticas.

Quando perguntaram a um desiludido com os resultados, qual a solução para o futuro, este respondeu:

– Provavelmente, em vez de apresentarmos ideias, teremos de apostar em porcos. Sintomático!

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.