O dia da menina

Dia 11 de Outubro comemora-se o Dia Internacional da Menina. Ontem, a propósito disto, lia num blogue escrito por um senhor, que se criou mais um dia da rapariga baseado na “velha cantiga” de que os homens têm mais direitos que as mulheres.

Escrevo estas linhas e não sei por onde começar. Se há coisa que me irrita em algumas pessoas é a ausência da noção de privilégio. Não estou a falar da perspectiva de quem olha para a sua vida e pensa “ai, podia ser pior, há quem passe fome”. Factualmente, o país onde nascemos, a cor de pele que temos e, também, o sexo que temos são factores determinantes da nossa vida e com a conjugação certa das três (ocidental, branco e homem) estamos em posição de privilégio em relação ao resto da população mundial.

O homem ocidental branco é aquilo que temos por normalidade. Tudo diferente disso são minorias. As mulheres, por muito que representem metade da população mundial, são consideradas uma minoria. Importa referir aqui que minoria não é um conceito numérico. Uma minoria é uma parte da população mais vulnerável porque não tem o mesmo, poder, voz, privilégios e status social.

É, exactamente, para mudar esta questão que se celebra o Dia Internacional da Menina. As meninas quando nascem estão já, à partida em desvantagem. Ora vejamos:

  • Uma em três meninas casa antes dos 18 anos nos países em desenvolvimento, o que aumenta a probabilidade de violência pelo parceiro.
  • 700 milhões das mulheres de hoje casaram antes dos 18 anos e um terço destas casou antes dos 15 anos.
  • As meninas pobres têm 2,5 vezes mais hipóteses de casar na infância do que as meninas ricas.
  • 7 milhões de meninas menores engravidam por ano nos países em desenvolvimento.
  • 40% das gravidezes não são planeadas, com grande parte deste número a resultar de violações.
  • Mais de 3 milhões grávidas não têm acesso a planeamento familiar e cerca de 40% das jovens procuram contracetivos sem êxito.
  • Entre 100 a 142 milhões de raparigas terão sido submetidas a mutilação genital.
  • 31 milhões de raparigas em idade de escola primária e 34 milhões em idade do secundário não vão à escola.
  • Há meninas que não vão à escola porque não tem acesso a produtos de higiene íntima quando estão menstruadas.

As meninas por nascerem meninas e se transformarem em mulheres, têm dificuldades e desafios com os quais os meninos não se deparam. Há 1,1 mil milhões de meninas no mundo que esperam crescer num mundo melhor e que lhes seja mais favorável.

Estes números entristecem-me porque, já tendo sido menina e sendo mulher, tenho a sorte de ter nascido branca e num país ocidental. E esta ideia de sorte é terrível. É terrível que o momento em que nascemos e do qual não controlamos nada seja tão determinante na nossa vida. A sociedade deveria ser uma rede de segurança para ninguém precisar de ter sorte no momento de nascimento e todos termos acesso às mesmas oportunidades.

É incrível o progresso tecnológico e científico e todo o conhecimento que todos os dias se desenvolve e a velocidade a que se desenvolve. Já fomos à Lua e estamos a uma colónia em Marte. É incrível aquilo a que a humanidade já chegou. É uma pena que todo este conhecimento, desenvolvimento e recursos ainda não tenham sido direccionados para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa, onde a humanidade dependa menos da sorte e mais do esforço colectivo para vivermos todos melhor.

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.