Utentes da Cercigui em residência: degrau a degrau se faz o artista

Cerca de 20 pessoas da cooperativa de reabilitação vimaranense, entre os 20 e os 40 anos, viveram, de 25 a 29 de setembro, uma semana de dança, teatro e yoga, pontuada por uma alimentação vegetariana, com uma residência artística no Centro de Criação de Candoso, a cargo da Oficina. O projeto “5 dias, 5 noites: VivArt”, co-financiado pelo Instituto Nacional de Reabilitação (INR), aprofundou trabalhos anteriores, com benefícios visíveis, a nível “motor”, “cognitivo” e até “social”.

Por Tiago Mendes Dias

A residência artística, idealizada no rescaldo de outras iniciativas artísticas que envolveram a Cercigui desde a Capital Europeia da Cultura, construiu-se de movimento, voz, imaginação e meditação em S. Martinho de Candoso.

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Num “espaço diferente”, conduzidos por “artistas”, pessoas que habitualmente não figuram no seu “dia a dia”, descreveu ao Duas Caras a diretora técnica do centro de atividades ocupacionais da cooperativa, Ofélia Lestre, os utentes envolveram-se, em seis horas de cada dia, na dança, no teatro e no yoga – sempre no início e no fim de cada dia -, momentos todos eles captados pela lente de um realizador a cargo do objeto artístico final: um vídeo capaz de expressar o trabalho desenvolvido na residência, que estará pronto em finais de novembro e será posteriormente divulgado.

Com o “produto artístico” dependente, sobretudo, do “olhar do realizador”, explicou a coreógrafa Ana Dora Borges, os utentes puderam-se concentrar em “aprofundar” as “ferramentas” adquiridas em projetos anteriores.

A especialista em técnicas de dança na comunidade e em criação coreográfica, com um currículo dotado de vários projetos ligados à inclusão de pessoas com necessidades especiais, preocupou-se, mais do que com os movimentos corporais, em atribuir, neste residência, exercícios para as pessoas “andarem livremente pela sala e para terem consciência das outras pessoas” ou para “ocuparem a sala toda”, de forma a terem “outra noção que não estão habituados a ter”.

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“É extremamente difícil para eles terem a noção do próprio espaço. São coisas que tomamos como garantidas instintivamente para nos comportarmos fora daqui, no meio social, e efetivamente, eles não têm isso”, esclareceu.

Se na dança, o corpo manda, no teatro reina o primado da “voz e da imaginação”, reiterou Cátia Faísco ao Duas Caras. A dramaturga, também docente na licenciatura em Teatro, da Universidade do Minho, admitiu que as artes dramáticas surgiram como terreno algo desconhecido, mas enalteceu a vontade do grupo fazer os “exercícios” sempre em conjunto, com espírito de entreajuda, apesar de isso ter conduzido a um “processo” de aprendizagem mais lento” e “mais doloroso”, com alguns elementos a sentirem “mais dificuldades” do que outros. O intuito do trabalho, acrescentou, foi mais o de “despertar a consciência da voz”, a “articulação das palavras” e o de “associar o corpo à nossa voz e àquilo que também queremos dizer” do que o de ensinar o “bê à bá” do teatro.

“Os benefícios já são mais do que reconhecidos publicamente para quem usa estas ferramentas. Uma delas tem a ver com a concentração e o foco. São pessoas que, normalmente, têm muita dificuldade de concentração em tarefas, e nós realmente conseguimos ter estratégias na dança e do teatro que lhes dão um bocadinho mais de consciência”, Ana Dora Borges, coreógrafa

Independentemente do ritmo a que se trabalhou durante a semana, os benefícios, para a também investigadora, são notórios e traduzem-se, sobretudo, na aquisição de competências para a “construção de uma história” e da “consciência do que são capazes”, “mais-valias” até “em termos de competências sociais”.

O crescimento dos utentes sente-se igualmente a nível “motor”, como a nível “cognitivo”, na sequência da exploração de “competências” pouco utilizadas no dia a dia, relacionadas com as “técnicas de relaxamento”, de “meditação” e de “concentração”, sintetizou Ofélia Lestre.

Residência culmina trajeto de seis anos a conviver com a arte

A residência artística surgiu como mais um passo em frente na relação entre os utentes da Cercigui e a arte, iniciada há seis anos, quando Ana Dora Borges, coreógrafa já com experiência a trabalhar com pessoas com necessidades especiais na zona do Porto, onde reside, idealizou, em conjunto com o músico Jorge Queijo, o espetáculo “Ópera para todos” na antecâmara da Capital Europeia da Cultura (CEC) com a “instituição inteira” e uma “equipa de artistas muito grande”, com o número de participantes a rondar as duas centenas.

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“Foi tão marcante que, mesmo as pessoas que lá trabalham, quase que definem a Cerci antes desse espectáculo e depois desse espectáculo”, disse a coreógrafa e também bailarina.

Após dois espetáculos em 2012, para a CEC – “1.ª Sessão Inclusiva – Shazam” e “2.ª Sessão Inclusiva”, e um outro em 2013 – a vídeodança “Apetece simplesmente ser”, apoiado também pelo INR -, também em parceria com o músico portuense, Ana Dora Borges reconheceu a necessidade de se “modificar a maneira de trabalhar o próprio produto artístico” e surgiu-lhe o “desejo” da residência artística, para os utentes da Cercigui usufruírem de um “espaço” utilizado por um profissional para o “desenvolvimento do seu trabalho”, onde pudessem “dormir”, “respirar” e “viver” por uma semana, com um “envolvimento muito maior” e sem estarem “condicionados” por horários apertados e a deslocações diárias.

A diretora técnica da CERCIGUI, Ofélia Lestre, atestou, por seu turno, que, depois de criada a ligação à “parte artística” com a CEC, a instituição procurou desenvolver “todos os anos” projetos capazes de irem ao encontro do gosto dos utentes pela “expressão musical” e pela “expressão cultural”, tendo acabado por receber “luz verde” do INR para o projeto a 25 de julho, com um financiamento de 5.416,45 euros.

Ofélia Lestre admitiu que a iniciativa não foi possível por “iniciativa própria”, “sem ajuda financeira do exterior”, por “envolver profissionais de áreas muito específicas”, de fora da Cercigui, pelo que a candidatura ao INR garantiu uma percentagem do financiamento, que pode ascender, no máximo, até 75%.

A vontade é, agora, a de “replicar o projeto a nível nacional”, caso outras instituições assim o queiram, já que o “5 dias, 5 noites: VivArt” ultrapassou a “dinâmica” habitual do trabalho das instituições para pessoas com necessidades especiais com o meio artístico, que “normalmente” se cinge a “apresentações artísticas” que resultam de ensaios na própria instituição.

Treinar o palato: “comer com prazer e com princípios”

Por entre os movimentos da dança, o discurso do teatro e o relaxamento do yoga, os utentes colocaram também as “mãos na massa”, ao fabricarem o pão depois servido nas refeições, todas elas sujeitas a uma dieta vegetariana, com a chancela do restaurante Cor de Tangerina.

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A Cercigui quis proporcionar ao grupo da residência “uma experiência também diferente a nível alimentar”, “saudável” e “vegetariana”, indicou Ofélia Lestre, e, além do “corpo”, da “respiração”, do “equilíbrio” e da “criatividade”, o grupo trabalhou o palato, saboreando tofu, quinoa, ingredientes de uma cozinha que defende a “agricultura local, biológica e do comércio justo”, avançou Liliana Duarte, subchefe e coordenadora do serviço educativo do restaurante.

A oficina de fabrico do pão, por seu lado, baseou-se na ideia da “cozinha colaborativa”, esclareceu a subchef, com os utentes a “perceberem que o pão que comem pode ser produzido por eles” e a desfrutarem de uma “experiência sensorial”, com o toque “nas farinhas diferentes”, a absorver as “texturas” e gerar as “sensações” pelas quais aprendiam.

A residência, também ao nível da alimentação, abriu “opções” aos utentes da Cercigui e demonstrou, na perspetiva de Liliana Duarte, que é “possível comer com prazer e com princípios” e saciar a “gula” de “forma criativa”, com “cores e diversidade”, sem afetar o “equilíbrio diário”.

Fotos: Página do Facebook da Cercigui