Vidigueira: a essência da festa da Taça

O Vitória venceu o Vasco da Gama por 6-1, os 3 ponta-de-lança que jogaram conseguiram (finalmente) marcar golo e apuramo-nos para a ronda seguinte da Taça de Portugal, mas mais importante do que o resultado final, foi a verdadeira festa do futebol que se viveu na Vidigueira no sábado.

Depois de cerca de 5 horas de carro, num dia de sol envergonhado (que nos ia presenteando esporadicamente com raios brilhantes), depois de muitos quilómetros de autoestrada e planície percorridos vislumbramos o local onde começaríamos a longa caminhada pelo sonho de voltar ao Jamor e ganhar a Taça de Portugal: Évora, Portel, Vidigueira. “Terra de pão, gente de paz”, dizia a placa.

A vila dava-nos as boas vindas e à medida que ali entravamos a frase confirmava-se: pão de quilo, feito na hora a cozer no forno e tanta paz que não se ouvia qualquer barulho. Podia ser um dia pacato de outubro como todos os outros, mas entre ruas e ruelas, guiados pelo cante alentejano, que belissimamente serve de hino para os navegadores, deslocamo-nos para o epicentro de toda aquela animação: o estádio da Vidigueira.

No sábado existia muito pão e muita gente boa na Vidigueira, mas a animação da festa da Taça tinha substituído toda a paz. Fomos recebidos de braços abertos, muitos copos na mão e uma mesa farta (senti-me como se estivesse a visitar familiares que viviam longe e que fizeram questão de tornar cada segundo da nossa visita memorável).

Antes, durante e especialmente no final do jogo os adeptos do Vasco da Gama fizeram questão de vivenciar cada um dos segundos deste dia especial, provando que a competição rainha em Portugal continua a merecer a coroa e que de realeza esta prova só tem mesmo o título porque a festa da Taça é realmente do povo.

O futebol profissional português joga-se maioritariamente na zona litoral norte/centro do nosso país, mas existe uma espécie de luz ao fundo do túnel: a Taça de Portugal, que celebra o futebol e as suas tradições, levando o desporto rei aos quatro cantos do país.

As regras da Taça de Portugal ditam que na primeira eliminatória em que entrem as equipas da Liga NOS é obrigatório que os jogos se realizem sempre no terreno dos clubes que não competem na primeira liga. Apesar de todos saberem das regras, assim que terminou o sorteio surgiram reações negativas por parte dos ditos “grandes” que se queixavam de não existirem condições satisfatórias para que os jogos sorteados se realizassem nos estádios dos clubes mais “pequenos”.

A festa do povo não tem (não pode ter) limitações geográficas: acontece nas vilas e nas aldeias, no interior do país e nas cidades mais pequenas. A festa da Taça faz-se em estádios improvisados, celebra-se com panados e cerveja e joga-se ao domingo à tarde em locais que provavelmente nunca tenham visto futebol ao mais alto nível.

Quando uma equipa da distrital tem a oportunidade de receber um jogo da Taça de Portugal a festa ultrapassa os resultados e torna-se um marco histórico destas pequenas coletividades.

A Taça de Portugal e toda a festa a ela associada são parte da essência do futebol em Portugal.  Deslocando as partidas do lugar de origem e alterando as datas dos jogos para dias pouco convidativos estamos a matá-la, a tirar-lhe todo seu sentido.

Por muito que me expliquem os motivos e os riscos continuarei a opor-me a esta arrogância aterradora dos ditos “grandes” que persistem em impor as suas próprias regras numa competição sorteada.

Todos os clubes que hoje jogam na primeira liga nacional começaram como associações bairristas, de umas dezenas de sócios e torna-se imperativo que não se esqueçam da essência do futebol português.

No sábado, a Vidigueira, uma aldeia alentejana de gente de paz, entusiasmou-se com a ideia de ver jogar o Vitória entre as suas gentes. Eles receberam-nos oferecendo tudo aquilo que podiam oferecer e dentro das normas impostas pela Federação e isto é, para mim, tudo aquilo que representa a festa da Taça.

Impõe-se, portanto, que seja feito um esforço por parte de todas as entidades envolvidas para que a festa da Taça não perca a sua essência e que momentos como os que se vivenciaram no sábado na Vidigueira não sejam a exceção, mas sim a norma.

No sábado, naquele estádio alentejano, vimos um Vitória aparentemente sem problemas de adaptação ao sintético que fez, de certa forma, aquilo que lhe competia num confronto com um adversário de uma divisão completamente diferente da sua.

Num confronto entre Conquistadores e Navegadores, a goleada aconteceu com naturalidade devido à nossa sobriedade. O Vitória entrou a “todo o gás” à procura de resolver depressa a eliminatória para evitar eventuais surpresas e marcou logo aos cinco minutos: Moreno, como capitão, deu o exemplo e abriu o marcador.

Depois de um (demasiado) longo período de seca dos ponta-de-lança, numa altura em que o desencanto de não ter um matador à altura das responsabilidades nos começava a inquietar, chegaram finalmente os golos. A Taça de Portugal parece ter finado a agonia vigente no ataque e aos 15 minutos Rafael Martins conseguiu colocar o esférico na baliza e terminar com a desinspiração ofensiva que nos atormentava desde o início da época.

Para provar que depois da tempestade vem sempre a bonança, Tallo e Texeira (2x) também acabariam com a sua abstinência de golos. Dénis Duarte mostrou porque mereceu a confiança de Pedro Martins – sendo convocado para a equipa A – e marcou o terceiro golo da partida.

Depois de gritar e celebrar 3 golos do Vitória, o speaker do Vasco da Gama – vimaranense de gema e vitoriano a viver na Vidigueira há muitos anos – teria finalmente a possibilidade de gritar golo da equipa da casa nos minutos finais da primeira parte do jogo. O golo de Pázinho fez sonhar os exploradores e foi aplaudido de pé por todos os adeptos, incluindo os do Vitória.

No Alentejo, em terra de pão e gente de paz, o Vitória assegurou a passagem à quarta eliminatória da Taça de Portugal, mas mais importante do que isso, o Vitória aumentou a família e ganhou muitos adeptos na Vidigueira.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.