Não, não está tudo bem, Vitória

Ontem era o início do campeonato, depois veio a Supertaça, recomeçou a Taça de Portugal e já estamos na terceira jornada da Liga Europa. O tempo passa voar e nós continuamos com uma equipa em construção. Há 4 meses que estamos com uma equipa em construção: QUATRO MESES!

Já repararam como nós temos sempre a desculpa perfeita para não realizar as coisas naquele momento? “Os jogadores acabaram de chegar”, “Os jogadores tiveram de fazer longas viagens”, “Temos muitos jogadores internacionais”, “As lesões não permitem ter todos os jogadores disponíveis”, “Fizemos o maior investimento dos últimos anos”, “Temos um plantel com qualidade”, “Precisamos de ter paciência”, “Tudo pode acontecer” … Estas respostas são muito convincentes, por isso é que acreditamos e deixamos passar. Por isso é que mesmo depois de sairmos do estádio desiludidos e cabisbaixos jogo após jogo continuamos a fazer quilómetros no jogo seguinte na esperança de que o nosso apoio seja o suporte do “click” que tão ansiosamente esperamos que aconteça.

Por isso é que cada golo, cada remate, cada jogada bem-feita, cada segundo de ambição é visto como uma faísca na escuridão. Nós, vitorianos, mantemos essa pequena faísca ativa o maior tempo possível. Essa faísca, por mais pequena que seja, é capaz de iluminar a nossa esperança de que dias melhores virão por um período alargado de tempo. Servimo-nos de qualquer migalha que nos é dada para saciarmos a nossa fome de vencer (já estou cansada de falar em sede de vencer, vou falar antes de fome de vencer: deu sorte à Seleção Nacional, pode ser que sobre alguma para nós).

Há anos que andamos a adiar o “salto” que tanto desejávamos. Há anos que andamos a adiar esta coisa de sermos o “quarto de Portugal” (já agora, eu não quero que o Vitória seja o quarto de Portugal, quero que seja o primeiro). Não vamos chegar lá a dizer que o queremos ser, não vamos chegar lá a jogar pelo seguro. Vamos chegar lá com estratégia e planeamento (que continuo a defender que existe no clube), mas também com vontade de arriscar. A inércia aprisiona os covardes. A falta de atitude deteriora qualquer esperança que nos possa alimentar.

O tempo é raro, é ágil e nunca para. Não o podemos desperdiçar com a paralisia inútil da inação. Precisamos de agir AGORA para que aquele Vitória que, infelizmente, neste momento só existe nas nossas mentes seja uma realidade e não apenas um sonho (que parece cada vez mais distante). Precisamos de ter CORAGEM para assumir que se cometeram erros e, acima de tudo, para AGIR de forma a corrigi-los. Os sonhos não são para depois. Os sonhos são para agora!

Há pessoas que vivem uma vida de insatisfação e não dão um murro na mesa porque têm medo de quebrar a loiça empoeirada da frustração, da rotina e da mesmice que incomoda os fracos (acreditem, eu sei do que estou a falar porque já passei por lá – se calhar ainda ando por lá). O medo de ousar é realmente o maior “empatador” do mundo.

Se as coisas não vão bem (e a realidade é que efetivamente não vão), não há motivos para deixar tudo como está. O tempo é a residência da vida e nós não podemos ficar sentados à espera da ordem de despejo. Chega de adiar planos. Chega de pensar em só realizar amanhã. O depois pode ser tarde demais porque a vida é um instante (e o instante passa a correr).

Adiaram-se as contratações. Adiaram-se as substituições. Adiaram-se os murros na mesa. Adiaram-se as apostas na formação. Adiaram-se as evoluções tecnologias. Adiaram-se as relações com os sócios. Adiaram-se os sonhos…

Adia-se a aposta firme num ponta-de-lança. Adia-se a reformulação da defesa. Adia-se a estabilidade do meio campo. Adia-se a correção dos erros. Adia-se a marcação de golos pelos ponta-de-lança (os dois últimos jogos dão-nos esperança de que eles estejam finalmente de volta). Adia-se o golo 3000 (há quase 2 meses que podíamos ter marcado o golo 3000 na Liga Portuguesa). Adia-se a campanha europeia. Adia-se a conquista da taça. Adia-se a vitória. Adia-se o salto.

Enquanto isso, vamo-nos mantendo felizes com 20 minutos de exibições de qualidade (num jogo que dura no mínimo 90 minutos). Vamo-nos mantendo felizes com 5 remates à baliza (ao longo dos ditos cujos 90 minutos). Vamo-nos mantendo felizes com os momentos raros em que conseguimos fazer 5 passes seguidos sem perder a bola. Servimo-nos de qualquer migalha que nos é dada para saciarmos a nossa fome de vencer.

Chega! Até eu (eterna crente) digo BASTA.

Não, não está tudo bem, Senhor Presidente. Não, não está tudo bem, Pedro Martins. Não, não está tudo bem, jogadores. Não, não está tudo bem, Vitória! Está muita coisa mal. Houve muitos erros cometidos, mas o pior erro que podemos cometer neste momento é continuar a negar que eles existiram/existem e que não fazermos nada (ou pelo menos não o suficiente) para os corrigir. Já Einstein dizia que “Fazer, todos os dias, as mesmas coisas e esperar resultados diferentes é a maior prova de insanidade”.

Eu acreditei em si Júlio Mendes quando me disse que tínhamos feito o maior investimento dos últimos anos. Eu acreditei em si Pedro Martins quando me disse que tínhamos um plantel com qualidade e que só precisava da nossa paciência para o conseguir demonstrar. Eu acreditei em vocês jogadores de cada vez que bateram nesse emblema e lhe juraram amor eterno. Eu acreditei em mim quando disse que o melhor ainda estava para vir (no final do jogo do Jamor).

Meses e meses a fio, jogo após jogo, derrota após derrota, deslocação após deslocação eu tive a paciência que tantas vezes me pediram. Eu continuei a largar tudo para fazer quilómetros (e mais quilómetros) crente de que o salto iria ser dado, de que o trabalho estava a ser feito e que isto era só uma má fase (eu ainda acredito que é só uma fase, mas podemos deixá-la o mais rapidamente possível? Isto ainda é pior do que a fase em que achávamos que era giro usar vestidos por cima de calças – felizmente conseguimos todos ultrapassar isso, espero que também consigamos ultrapassar isto).

A realidade é que há problemas (há muitos problemas). Eles estão à vista de todos. Eu não quero saber de culpados, não quero saber de causas: eu quero saber de soluções. Eu não quero a demissão de ninguém (as demissões causariam ainda mais problemas e instabilidade; não acho que sejam, de todo, a solução), só quero que encontrem SOLUÇÕES.

A vocês que o podem fazer – direção, equipa técnica e jogadores – só vos peço que façam o que podem fazer (o que vos compete fazer) para sermos todos mais felizes, mas façam-no AGORA. O relógio continua a avançar e nós continuamos numa luta contra o tempo (que estamos claramente a perder).

Paulo Coelho diz que “Muitas vezes temos que dar tempo ao tempo. Outras vezes, temos que arregaçar as mangas, e resolver – nós mesmos – determinada situação. Neste caso, não existe pior coisa do que adiar.”

Este desabafo não se deve ao jogo de quinta. Quinta lutamos com um adversário muito acima da nossa “liga”. Entramos com tudo, mas a nossa inferioridade começou a ser notória depois de 20 minutos em campo. Refiro-me aos jogos com concorrentes diretos, com orçamentos iguais ou mais baixos do que o nosso contra os quais não conseguimos ser mais vigorosos.

Não somos os maiores do mundo por termos ganho na Vidigueira, nem somos os piores do mundo por termos perdido no Vélodrome (aparentemente esta é a frase da época e estava a sentir-me excluída por ainda não a ter usado), mas dói ver o Vitória assim. Eu reconheço que evoluímos muito desde aquela equipa que nos foi apresentada na Póvoa em julho; fico feliz em ver mais garra do que aquela que vi na Supertaça, mas, honestamente, nós MERECEMOS MAIS.

Será que nós não somos capazes de mais? Será que esta equipa, mesmo não sendo tão forte como a da época passada, é assim tão fraca? Será que o Pedro Martins da época passada (com uma estratégia clara, visão de jogo, inteligência, soluções inovadoras) foi apenas fruto da minha imaginação? Será que a Direção que eu não me canso de elogiar por nos ter salvo da extinção (devido aos problemas financeiros) afinal só teve mesmo sorte?

Se calhar é porque o amor é cego ou eu sou um ser estupidamente crente (no que diz respeito ao Vitória), mas eu continuo a acreditar. Continuo a acreditar que nós temos um plantel cheio de jogadores com talento que só precisam de encontrar o seu lugar e de começar finalmente a jogar em equipa. Será importante reforçar a equipa em janeiro, mas a base tem de ser consolidada bem antes disso.

Continuo a acreditar que Pedro Martins é o treinador ideal para o Vitória e que se há alguém que nos consegue tirar desta fase má é ele (não sei o que se passou nem o que se passa, não sei muito bem onde anda o Pedro Martins da época passada, mas sei que nem a minha imaginação – que é extremamente fértil – seria capaz de o inventar, portanto ele é real e vai ter de voltar mais dia menos dia). Tenho consciência de que a missão desta época é muito mais exigente do que a da época passada, mas, mais uma vez, continuo confiante de que ele está à altura do desafio.

Continuo a acreditar que os sucessos desta direção não são baseados apenas na sorte (vamos ser realistas, somos do Vitória e a sorte nunca está connosco), mas sim numa estratégia bem planeada e executada. Acredito sim, que lhes está a faltar algo (talvez um pouco de coragem) para darem o salto e levarem o Vitória para a próxima fase.

Nós estamos preparados para dar o salto. Nós estamos preparados para parar de adiar os sonhos. Nós estamos preparados para festejar o golo 3000 hoje à noite. Nós estamos preparados para celebrar as vitórias. Nós estamos preparados para sermos felizes. E vocês?

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.