Vamos à lenha

Sou do tempo em que, todas as famílias utilizavam lareiras para cozinhar e aquecer as casas. Para isso era necessário arranjar lenha e, como não havia possibilidade de a comprar, apanhava-se onde houvesse.

Mulheres acompanhadas das filhas, enquanto os homens jogavam à sueca e os filhos à bola, invadiam os montes, as matas e as quintas à procura de lenha, caruma e pinhas dos pinheiros, cascas e “piurras” dos eucaliptos.

Quantas vezes, especialmente quando o senhorio estava por perto, se viam os caseiros a perseguir o mulherio que, na pressa da fuga, deixavam o que tinham apanhado, para quando o perseguidor fosse à vida, voltar e acabar o serviço. Sem outra intenção, que não a de encher o cortelho, acabavam por limpar as matas, contribuindo para o quase nulo risco de incêndio.

Com o aparecimento dos electrodomésticos, principalmente os fogões a gás, eliminaram-se as lareiras e, por consequência, as folhas, os caniços e outras sobras da natureza, foram-se acumulando, ano após ano, constituindo autênticos barris de pólvora. Outro modo de limpeza que, com o avanço da modernidade, foi abandonado, eram as podas e as roçadas.

Todos os anos, por alturas do inverno, os lavradores podavam as videiras e as árvores que as suportavam. Atavam a lenha em pequenos molhos e guardavam, para mais tarde servir de troca pelo estrume que, desde o ano anterior, se ia formando nas retretes e estrumeiras das casas dos “artistas”, designação atribuída a quem não era da lavoura.

Um carro de bois com taipais recolhia o estrume e, quando cheio, regressava à quinta, deixando atrás de si um cheiro insuportável. O segundo carro, carregado de mato roçado no dia anterior, substituía o estrume extraído, tentando abafar o fedor que, durante dois ou três dias, inundava todas as casas. Como compensação, deixavam meia dúzia de molhos de lenha da poda.

Não raras vezes, havia incêndio numa casa, causado por lareira mal controlada, uma vela que caía na caruma ou a candeia que alguém deixava cair na corte da lenha. No entanto, enquanto houve daquelas autênticas formigas, não havia mata ou monte que alguma vez pegasse fogo.

O abandono das florestas, o desinteresse na sua conservação e limpeza, fruto de políticas economicistas, de visão lucrativa, tinha de dar no que tem dado e com tendência a piorar, se não se tomarem medidas sérias e drásticas, que levem a que os proprietários, incluído o próprio estado, sejam responsabilizados.

Os meios de vigilância e prevenção devem ser prioritários, seguidos de meios de combate eficazes, debaixo de um controle apertado, no sentido de evitar aproveitamento, por parte de oportunistas que, na mira do lucro, esquecem, ou até fomentam, a tragédia que lhes dá o ser.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.