Transporte público para que te quero!

Falo-vos de transporte público porque o uso diariamente. Não falo de cor ou procuro agradar a futuros eleitores. Falo-vos de transporte público porque acredito a sua utilização regular nos dá saúde. Falo-vos de transporte público porque tenho a convicção de que, para que todos se deixem conquistar por ele, é necessário que seja atractivo.

A CDU sempre se bateu pelo direito à mobilidade. Foi assim, aqui bem perto, em Matosinhos, quando o vereador da CDU ficou responsável por esse pelouro, retomando rotas e serviços. Foi assim no Barreiro que aumentou os utilizadores dos TCB durante a maioria da CDU. Em Guimarães a CDU sempre defendeu que a mobilidade dentro do concelho era desigual e muito deficitária. À boleia da candidatura a Capital Europeia Verde, o PS fez dela uma bandeira, mas depressa lhe passou o fervor, remetendo-a para uma das áreas que será avaliada.

Após esta pequena mas necessária introdução podia referir-vos as várias afirmações sobre os Transportes Públicos que todos fomos ouvindo ao longo de 4 anos e que nos fariam corar de vergonha. No entanto, não vejo os seus protagonistas a corar, vejo-os numa cruzada contra o transporte público enquanto a população lhes mostra claramente que quer ter a opção de andar de transporte público, entre as várias existentes.

O problema é que os mesmos que empurram os vimaranenses para a opção pelo que têm – o transporte individual, depois apontam-lhes o dedo como se esses prevaricadores do automóvel individual fossem os responsáveis pelo fim das rotas dos transportes.

Diz-nos o senhor administrador da ARRIVA a um órgão de comunicação social, depois de reivindicar mais subsídios da Câmara Municipal: “Não é o transporte que não atrai passageiros, é a viatura privada que atrai mais” (!!!). Atrevo-me a citar apenas esta frase, porque li toda a entrevista e não fica descontextualizada.

E eu, sentada no comboio a caminho do trabalho, pensava que porventura viveremos em mundos distintos. Já vi o comboio para o Porto mais vazio, já vi a oferta de horários mais reduzida, já ouvi as pessoas a criticarem-me por optar pelo comboio que demora mais de uma hora quando podia fazer a viagem em 40 minutos. Hoje vejo o comboio a encher quando parte de Guimarães e a chegar cheio a Guimarães. Já vi fila no parque de estacionamento da CP para que os utentes do comboio possam deslocar-se para as suas casas depois de um longo dia de trabalho ou de estudos. Já vi a CP a apostar em mais horários e até no Alfa para Guimarães e depois somos obrigados a ler estas afirmações das pessoas da área em letras garrafais.

O senhor administrador tem razão, é administrador de uma empresa privada. O carro individual é atractivo onde o colectivo não passa com regularidade, é caro ou desconfortável, ou nas freguesias onde só chega uma vez por semana ou onde não existe simplesmente.

A câmara de Guimarães está coberta de erros no que ao transporte público diz respeito e mais uma vez parece que vai “arrastar o problema com a barriga”, quando o pode encarar de frente. Não, não é com subsídios a empresas privadas que se tornará o transporte público atractivo. É assumindo a gestão dos transportes para que cheguem a todo o concelho, é aumentando a oferta, diminuindo os preços e tornando-os confortáveis.

No dia em que isso acontecer, os vimaranenses vão apostar no transporte público, porque querem um ambiente saudável para a cidade que amam e que trazem ao peito e porque já perceberam que fica mais barato para os seus orçamentos familiares.

As minhas últimas palavras são para dar os parabéns à Catarina por este projecto de comunicação tão interessante como é o Duas Caras. Vida longa para o projecto e que a criatividade nunca falte à equipa que a acompanha.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.