Porque é que doeu tanto ver o Vitória a ser humilhado?

 

Porque é que doeu tanto ver o Vitória a ser humilhado e envergonhado no sábado ao ser goleado por 4-1 pelo Oliveirense?

Eu não me lembro da última vez que saí verdadeiramente humilhada e envergonhada do estádio. Eu já vi o Vitória a perder 5-0 contra o Porto e mantive-me no meu lugar a apoiar a equipa sem parar. Eu sou aquele tipo de pessoa que acredita numa reviravolta no marcador até que o árbitro apite para o final da partida (por mais impossível que ela pareça). O estádio pode estar quase em silêncio, mas eu continuo a usar todas as forças do meu ser para berrar o mais alto possível para apoiar a equipa. Quando vou ao estádio ver o Vitória a jogar essa é a minha função: apoiar o clube e fazer tudo para que esse apoio encaminhe a equipa para a vitória.

No sábado, aquando do 4-1, pela primeira vez na minha existência como vitoriana, eu deixei de acreditar. Depois do 4-1 eu fiquei paralisada na minha cadeira incrédula de que aquilo estava a acontecer. Quase 48h depois, parte de mim ainda está à espera que alguém salte de detrás das câmaras e me diga que aquele jogo era para algum tipo de programa de apanhados…

Infelizmente não era. Infelizmente esta é a nossa equipa (torna-se difícil de compreender como uma é que uma equipa ganha (e joga bem) ao Marselha, mas depois se deixa humilhar pelo Oliveirense (com o devido respeito)). Infelizmente esta é a nossa realidade e está mais do que na hora de eu parar de viver num mundo de fantasia crente de que o D. Sebastião aparecerá numa manhã de nevoeiro para salvar o Vitória de todos os seus problemas. Continuo a acreditar na capacidade de Pedro Martins de transformar este fragmento de equipa numa equipa à Vitória, mas torna-se cada vez mais desolador vê-lo a perder as forças jogo após jogo, derrota após derrota (eu quero acreditar nas suas palavras quando nos diz que ainda tem força para lutar, mas a sua comunicação não verbal contradiz as palavras que saem da sua boca).

Esta devia ser a época de dar o salto, a época de reforçar a equipa para realizar uma ótima caminhada europeia e para se consolidar como o quarto grande de Portugal (continuo a querer o Vitória como primeiro, mas temos de começar por algum lado), contudo, em vez da época da consolidação, esta tem sido a época de Murphy, a época em que “qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”.

Perdemos jogadores importantes da época passada, a contratação de jogadores peca pelo tardio e os jogos realizados demonstram cada vez mais as fragilidades desta equipa. As constantes viagens, associadas à maior carga de jogos deixam os jogadores exaustos e isso reflete-se nos jogos. O estado atual do Vitória (quer a equipa A, quer a equipa B) deve-se a vários fatores que têm sido mais do que discutidos, mas acho que também está na hora de chamarmos os preparadores físicos e o apoio psicológico (na forma que este existir ou não no clube – admito não ter conhecimento sobre o que se faz) para a discussão pois o número elevado de lesões e o rendimento dos jogadores (principalmente na segunda parte dos jogos) começam a ser extremamente preocupantes.

A época está a correr mal e nem eu com todas as minhas eternas crenças consigo nega-lo. No sábado senti-me humilhada na minha casa. Senti que o Castelo estava a ser invadido e que o nosso exército era incapaz de o proteger.  Ao 4-1 senti-me sem forças para continuar a apoiar e ainda me custa admiti-lo.

No sábado senti que falhei. Mas não fui eu que perdi o jogo… então, porquê que eu sinto que fui eu que falhei? Eu não joguei mal – eles jogaram. Eles são atletas absurdamente bem pagos (ninguém se ofereceu para me pagar milhares de euros para eu fazer o que eu faço) para fazerem aquilo que mais gostam na vida. Foram eles que perderam, não eu…

Então, porquê que eu saí daquele estádio irritada e acabei por descontar naqueles que amo? Porquê que passei um serão em família a celebrar o S. Martinho e a comer castanhas (que eu tanto adoro) cabisbaixa e a responder monocordicamente? Porquê que eu passei o fim-de-semana preocupada com Pedro Martins?

Afinal, porquê que nós adeptos ficamos chateados quando a nossa equipa perde?

Acredito que seja porque tratamos o Vitória como uma experiência espiritual e transcendente. Passamos inúmeras horas a estudar os pontos fortes e fracos da equipa, assistimos aos jogos, compramos merchandising, discutimos o seu estado atual, cantamos e gritamos com todas as forças do nosso ser no estádio (e até mesmo em frente à televisão quando não conseguimos estar presentes), jubilamos com as vitórias da equipa e quase que entramos em luto com as suas derrotas – mas sempre esperançosos e otimistas de que as vitórias estão a caminho, de que as coisas vão melhorar.

A razão pela qual nós sentimos tanto as derrotas e as vitórias da nossa equipa é porque atribuímos à nossa equipa as qualidades que queremos em nós mesmos; e o Vitória acaba por se tornar uma metáfora e um símbolo para a história das nossas vidas.

A maioria de nós passa a vida a esforçar-se para ser o melhor em alguma coisa, a tentar progredir na carreira, ganhar o amor e a devoção de uma pessoa que desejamos ou ter dinheiro suficiente para viver confortavelmente – essencialmente, todos nós queremos ganhar uma “Taça de Portugal” nas nossas próprias vidas (devia referir-me à Taça da Liga, mas todos nós sabemos que ela não tem a mesma relevância para nós). Nós esforçamo-nos para alcançar algo especial para que possamos provar ao mundo (e a nós mesmos) que não somos apenas bons, mas que somos os melhores.

Mas, muitas vezes, um erro de julgamento, uma má decisão, uma inversão do mercado ou a má sorte intervêm e o nosso objetivo é atrapalhado e os nossos sonhos são intercetados – então perdemos o que tão valentemente nos esforçamos para alcançar (ou pelo menos temos de parar a nossa caminhada para superar um grande contratempo).

Quando o Vitória entra em campo não são só os jogadores que querem ser campeões. De alguma forma inexplicável nós também queremos triunfar. E quando os jogadores do Vitória jogaram mal e estavam completamente perdidos no sábado, isso lembrou-nos de todas as nossas próprias perdas, das nossas falhas, das nossas deceções e dos nossos sonhos fracassados. Mas nós somos resilientes e vamos recuperar. E espero que também o Vitória no próximo domingo.

No domingo não será só o Miguel Silva ou o Rafael Martins (ou qualquer um dos jogadores que entrar em campo) que vão tentar voltar ao Jamor para serem vencedores da Taça de Portugal. De alguma forma inexplicável, cada um de nós naquele estádio (e todos aqueles que por algum motivo não puderem estar lá, mas que estarão a apoiar) estará a tentar ser vencedor da Taça também. O vencedor da medalha de ouro. Alguém que estabelece os seus objetivos altos e depois os alcança. Um verdadeiro conquistador da vida real.

Quer reconheçamos ou não, quando estamos no estádio a apoiar o Vitória não estamos apenas a torcer pelos conquistadores. Nós estamos também a torcer por nós próprios.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.