Fast live, Kundera e o poder da alienação.

Em 1992, 1700 cientistas escreveram uma carta, com o objectivo de ser um alerta à humanidade sobre os perigos de ignorarmos o ambiente e as causas ambientais. 15 anos depois, foram 15000 aqueles que lançaram um segundo alerta. 15000 cientistas originários de 184 países voltam a alertar publicamente para os perigos ambientais que o nosso modo de vida está a provocar, e de que o tempo para fazermos alguma coisa por isso está a esgotar-se.

Nada, claro, tão grave e que mereça tanta discussão pública como um jantar no Panteão Nacional.

Assumo que, tal como os 15000 cientistas, não vou dizer nada de novo, mas a forma como a Internet, o acesso à “informação” e as constantes evoluções tecnológicas mudaram as nossas vidas é arrepiante. Cada vez mais vivemos a correr. Há um sentido de urgência constante que paira como uma neblina em cima das nossas cabeças.

A tecnologia avança, o que faz como que os nossos pequenos investimentos em tecnologia, em poucos meses, se tornem quase obsoletos. Ainda ontem me lembro de sair o Iphone 6 e das filas em frente às lojas e quando dei por mim já se está a preparar o lançamento do Iphone X. Onde é que eu estava quando saíram todos os outros? Ninguém sabe, incluindo eu.

Os nossos padrões de consumo evoluíram e a obsolescência programada tomou conta dos meios de produção. É tudo para durar pouco tempo, porque nós também nos deslumbrarmos por termos sempre tanta coisa para comprar, e é uma chatice não haver nada de novo nas nossas vidas.

A forma como consumimos assume este novo padrão de adquirimos coisas que sabemos durar pouco tempo, mas que isso também não interessa, porque nós próprios nos vamos aborrecer e vamos querer mais coisas e coisas diferentes.  E isto não acontece apenas na tecnologia, mas em todas as dimensões do consumo humano, mesmo em termos culturais.

A velha piada de “não li o livro, vi o filme” é, também, exemplo disso, com uma pequena alteração, “não li o livro, vi a série”. O consumo desenfreado de séries o e sentido de urgência para o “binge watching” rouba-nos tempo de vida e noção de realidade. De repente, passamos tanto tempo a ver ficções e a envolver-nos com personagens como perdemos a noção daquilo que é real e o que é importante.

Eu própria sofro da doença de que reclamo e cada vez mais ganho noção disso. Pergunto-me muitas vezes se esta vida é a vida que quero ter, sempre a correr de um lado para outro. Quando estou parada, estou a ver/ler coisas e consumir informação, que depois não me dou ao luxo de ter tempo para processar. Para pensar.

Hoje leio muito menos (ficção) do que há 10 anos atrás, apesar do sentimento de que estou constantemente a ler. Os livros têm essa coisa, exigem mais tempo para digerir e obrigam-nos a pensar. Fiquei com saudades do Kundera, dos livros que nos fazem parar a leitura desenfreada para reflectirmos sobre a última frase que lemos. Tudo o que sei sobre a vida, e não é muito, aprendi com o Milan Kundera. No último livro que li dele “O Livro do Riso e do Esquecimento” aprendi a única palavra checa que sei até hoje. Litost. É daquelas palavras que não tem tradução para mais nenhuma língua, mas tem um significado universal. Litost, numa tradução possível, refere-se ao sentimento de tormento e agonia que sentimos quando nos deparamos com as nossas próprias falhas, defeitos e infelicidades. E nós, como humanos, temos falhado como notas de 5 contos. Não só a falta de empatia que se verifica hoje para com os outros que são diferentes de nós, como o aumento da expressão de sentimentos xenófobos e ultra – nacionalistas, como a indiferença com que encararmos que o presidente de uma das maiores potencias mundiais é provavelmente doente mental e inapto para o cargo, como o desrespeito que sentimos e com o qual brindamos o nosso ambiente e a Planeta Terra.

O melhor é, então, não pensarmos de todo e continuarmos a correr de um lado para outro, do trabalho para o ginásio, do ginásio para casa para jantarmos a correr e irmos para o sofá ver o último episódio da última série da moda. Sempre melhora as nossas skills de conversa de ocasião e ficamos imunes à litost..

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.