Não basta parecer.

“Não basta, à mulher de César, ser séria, também tem de o parecer”.

Quando os vemos, no grande ecrã, nas capas de jornais ou nas rádios, os responsáveis pelos destinos do país, desde a mais pequena junta de freguesia até aos ministérios, todos parecem sérios.

Em tempos, quem entrasse nos edifícios das câmaras municipais, deparava com indivíduos, pasta debaixo do braço, junto do gabinete do vereador ou engenheiro, com o qual queria tratar de algo importante.

Os funcionários, escolhidos entre as candidaturas, em boa parte apresentadas por vizinhos, compadres, cunhados e outros títulos de influência, cirandavam entre secções e departamentos.

“Olha o filho de fulano! A Filha de sicrano!”

De uma porta sai um pequeno empresário falido. De outra, uma ex. operária que, com mais uma camada de verniz ou oxigénio, ficou apta para qualquer serviço.

Toda aquela gente aderiu ao cartão, que dá acesso directo às vantagens, oferecidas como recompensa de fidelização ou troca de camisola.
Nos ajuntamentos sociais ou nas inaugurações, actos de uma futilidade miserável, aparecem entalados em fatiotas vistosas, sorrindo forçadamente para a roda de figurantes que, nestas ocasiões, nunca faltam.

É no meio destas assistências, que se sabem as novidades, começadas com meias verdades e acabadas com verdades absolutas.
-Aquele não é filho de um que passava a vida a criticar a câmara? Agora percebo, porque é que ninguém o ouve!
-Estás admirada!? Olha aquele ali, foi eleito presidente de junta por um partido, nas últimas mudou-se para este e já é presidente de uma empresa camarária.

Conversas deste género, ouvidas em qualquer café ou tasca, tem, na maioria das vezes, um fundo de verdade.
Daí que, ao político ou responsável pela coisa pública, não baste parecer sério, tem, obrigatória e claramente, de o ser, caso contrário, continuará a conspurcar o nome, de quem deve estar acima de qualquer suspeita.

Em política não deve valer tudo. Nem sequer os silêncios cúmplices, que se geram à volta dos compadrios e dos favores particulares.

As teias de interesses, quantas vezes instaladas, à custa de todo o tipo de chantagens, dão origem a uma promiscuidade e podridão que, nos dias que correm, nem se dão ao trabalho de disfarçar.

Joaquim Teixeira é militante do Bloco de Esquerda e é sócio-fundador e atual tesoureiro da associação NCulturas.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.