O Santo Graal dos Vitorianos

“Para o ano estamos aqui outra vez”

– Júlio Mendes, Presidente do Vitória SC, Estádio Nacional, 28 de maio de 2017

A Taça de Portugal sempre teve um encanto peculiar para os vitorianos. Para muitos de nós o Jamor foi, durante muitos anos, um local encantado que fazia apenas parte das memórias daqueles que por lá passaram (penso que por vezes nos chegamos a questionar se aquele local existia mesmo ou se aquele dia seria apenas fruto da memória coletiva de uma cidade que vive e respira o clube da terra de uma forma intensa).
As histórias das finais da Taça, relatadas pormenorizadamente por aqueles que as viveram e ouvidas com o máximo de atenção por aqueles que desejavam experienciá-las fizeram sonhar gerações e gerações. Aquelas histórias mantiveram acordado o desejo de um dia ali voltar e, acima de tudo, de conquistar a Taça de Portugal.
O Jamor era “o sonho” dos vitorianos. A menção dos piqueniques na mata, do ambiente no Estádio Nacional e daquele troféu faziam (e ainda fazem) os olhos de qualquer vitoriano brilharem. Há 5 anos o “improvável” aconteceu: o sonho tornou-se realidade e a felicidade daquele dia ainda hoje nos arranca um sorriso da cara de cada vez que é mencionado/lembrado.
Durante esta fase menos boa do Vitória a frase proferida pelo Presidente do Vitória no final do jogo da época passada foi “assombrando” os meus dias (e é aquela promessa que eu não perdoo que não seja cumprida). As coisas podiam estar a correr menos bem nas restantes competições, mas a esperança de voltar ao Jamor, de voltar àquela mata, de voltar àquele estádio e, acima de tudo, a esperança de voltar a ver aquela Taça decorada de preto e branco tornou isto um pouco mais fácil de suportar.
A Taça de Portugal sempre foi o Santo Graal dos vitorianos: aquela competição que nos faz acreditar que tudo é possível. Aquele troféu mágico capaz de trazer vida e prosperidade mesmo nos piores momentos, capaz de trazer paz ao Reino Vitoriano.
Apesar da nossa associação automática com o Santo Graal ser ao cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia, a primeira referência a ele aparece num poema onde é narrada a busca do rei Artur e dos seus cavaleiros por um recipiente mágico, um caldeirão. Este caldeirão poderia dar novo sabor a alimentos, vida e vigor às pessoas.
Numa época de Murphy em que “qualquer coisa que possa ocorrer mal, ocorrerá mal, no pior momento possível”, a Taça de Portugal torna-se o objetivo da busca dos Conquistadores de Pedro Martins: o único objeto com capacidade de devolver a paz ao Reino Vitoriano.
Ontem, mais do que qualquer coisa, era preciso vencer. O Vitória precisava de inverter a tendência de resultados negativos e manter o sonho da Taça de Portugal vivo. A busca dos Conquistadores pelo Santo Graal trouxe uma nova vida ao inferno branco e um vigor diferente aos jogadores que envergavam o emblema do Rei (esperemos que este espírito os acompanhe nas restantes batalhas que se avizinham).
A Taça de Portugal é aquele objeto mágico capaz de trazer vida e prosperidade num período de miséria e o Vitória entrou na partida a todo o “gás”, aproveitando também a grande passividade dos fogaceiros. Aos 4 minutos Héldon abria o marcador e acordava o inferno branco, mostrando que o Vitória está vivo e continua com pretensões de voltar ao Jamor.
Ontem a equipa de Pedro Martins reagiu à humilhação sofrida na semana anterior com a urgência e intensidade que o momento exigia e ganhou mais uma batalha rumo ao Jamor.
Não havia necessidade de nos terem feito sofrer tanto… Depois de uma entrada eletrizante e do golo notável de Raphinha, dificilmente se esperava que precisássemos de passar por qualquer nível de sofrimento até ao final, mas, como eu costumo dizer “se fosse fácil não era para o Vitória”.
Podemos passar a semana a esmiuçar tudo o que correu mal ou podemos valorizar a evolução na equipa (mesmo que intermitente). A realidade é que face a um Feirense quase sempre de manta curta, o Vitória conseguiu ser superior e tornar-se até bastante perigoso em campo sempre que conseguiu criar ligações. A bomba lançada por Raphinha do meio campo ofensivo do Vitória parecia colocar um ponto final na resistência do Feirense, mas a redução de intensidade trouxe momentos de desassossego para o Vitória na segunda parte. Acabaríamos por sofrer um golo, mas isso não deve desvalorizar o trabalho que foi conseguido em campo.
Como alguém que já ganhou uma Taça de Portugal pelo Vitória costumava dizer “o caminho faz-se caminhando” e parece-me que ontem encontramos o caminho a seguir. Ontem assistimos a um Vitória forte na sua ideia de jogo, mas limitado nas alternativas a essa ideia (é fundamental trabalhar-se esse aspeto). Podemos passar a semana a discutir se o copo está meio cheio ou meio vazio ou podemos ajudar a encher o copo.
Não estou a sugerir que ninguém ignore a realidade dos factos, nem que deixe de descortinar o lado feio e negativo desta época. Estou, sim, a pedir que façamos o mínimo que nos compete como vitorianos que é acreditar na equipa independentemente de tudo o que se passa. Estou sim, a pedir, que face aos recentes acontecimentos, demos ao plantel uma oportunidade de evoluir e de se transformar numa equipa (não é isso que todos desejamos?). Estou sim, a pedir que coloquemos de lado as desavenças e nos unamos para apoiar o Vitória. Afinal, se nós não acreditarmos no Vitória, quem é que vai acreditar?
Todas as equipas têm fases más, mas eu prometo que elas não duram para sempre. Ontem foi tão bom ver o Vitória a reagir e a reerguer-se. O jogo pode não ter sido perfeito, mas acredito que estamos no bom caminho para termos o Vitória que queremos: um Vitória resiliente, que não baixa os braços, que luta até ao fim. Podemos não ter jogado a 100% em todos os momentos, mas nunca perdemos o objetivo de vista. Continuamos na luta e eu espero continuar a narrar esta busca de Pedro Martins e os seus meninos (não tão) perdidos pelo Santo Graal até ao momento em que estes o levantem no Jamor. Afinal de contas, prometeram-me que dia 20 de Maio “estaremos [lá] outra vez” e um vitoriano cumpre sempre as suas promessas (certo?).

P.S.: permitam-me deixar uma nota de admiração para com o Vasco da Gama da Vidigueira e pelo apoio demonstrado ao Vitória. Permitam-me manifestar o meu agrado por ver adversários a transformarem-se em apoiantes e pela relação de proximidade que se criou entre estes dois clubes. O futebol português precisa de mais clubes como o Vasco da Gama.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.