A responsabilidade do Vitória

O sol brilha lá fora, o toque do Pinheiro quebra o silêncio do amanhecer, o Natal invadiu a cidade e eu estou sentada no meu quarto com dificuldades de esboçar um sorriso.

Ser vitoriana sempre foi amar incondicionalmente. Apoiar o clube nos bons e nos maus momentos. Acreditar até ao último segundo. Ser bairrista. Cantar até que a voz nos doa. Reclamar de tudo e todos durante a semana, mas depois estar no estádio durante 90 minutos sem parar de apoiar. Exigir cada vez mais na esperança de que um dia o Vitória se torne aquele Vitória de primeira que neste momento existe apenas nas nossas cabeças.

Mas esta época, como adepta que vive cada momento do jogo intensamente e para quem o Vitória é basicamente a sua vida, assistir a um jogo do Vitória tem sido uma forma lenta e dolorosa de tortura para mim.

Esta não era a época que estávamos à espera. Depois da época passada ter sido bastante acima daquilo que nos tinham habituado, as nossas esperanças estavam demasiado elevadas e tem sido desolador ver este Vitória a existir em campo (não sei se posso considerar aquilo que temos feito em campo jogar futebol). Jogo após jogo, derrota após derrota, a nossa vontade de apoiar e a nossa capacidade de acreditar têm ficado fragilizadas.

Eu ainda não sei muito bem onde vou buscar toda a fé que tenho no clique, no momento de viragem em que este fragmento de equipa se tornará numa equipa “à Vitória” e nos permitirá voltar a experienciar a felicidade da época passada; mas a realidade é que ser vitoriana é não ter explicação para ter fé. Ser vitoriano é sofrer nos momentos difíceis em que o esférico persiste em não entrar, mas também é sentir a felicidade em todo o seu esplendor nos momentos em que vemos o Vitória a ser aquele Vitória que todos desejamos que seja (por mais efémero que esse momento seja).

Infelizmente para todos nós, esta época as coisas más não se ficam apenas pelo Vitória. A realidade é que o clima que se vive no futebol Português está a chegar a níveis absurdos e torna-se imperativo discuti-los e, acima de tudo, tomar medidas para os corrigir antes que seja tarde demais.

Como vitorianos (sendo reconhecidos como uma força do futebol nacional) é nossa responsabilidade fazer algo para alterar o estado a que chegou o futebol português.

A ameaça de greve dos árbitros nesta jornada parece ter desencadeado uma onda de desassossego e fez com que os principais intervenientes desportivos (aos quais devíamos prestar mais atenção) se pronunciassem sobre o estado atual do nosso futebol. Parece que finalmente deixamos de estar todos num choro copioso sobre o “estado a que chegou o futebol português” e começamos a agir.

Se antes as pessoas se sentavam nos cafés para discutir o futebol, agora essas conversas (focadas maioritariamente nos erros da arbitragem) acontecem em programas de televisão e jornais que se protegem atrás das vendas e das audiências para justificar os autênticos circos de feras inflamadores de ódio que se tornaram. Nós adeptos também somos culpados, pois continuamos a alimentar este descrédito do futebol nacional assistindo a horas e horas de comentários desportivos que há muito deixaram de ser sobre futebol e que se tornaram fundamentalmente num constante incentivo ao ódio.

É assustador pensar sobre o poder de controlo que a televisão tem neste momento no futebol (e ainda mais mensurar o domínio que terá em 2018 quando os contratos dos direitos de transmissão entrarem em vigor). A Liga – patrocinada por uma operadora de televisão – parece mais focada em ver o desenvolvimento das transmissões dos jogos na televisão do que em criar as condições necessárias para atrair os adeptos para o estádio. Os jogos são agendados para horários absurdos (daqui a umas horas o Vitória estará a jogar em Vila do Conde às 21h de uma segunda-feira) pensando unicamente nas transmissões televisivas. O futebol não foi criado para ser um espetáculo de televisão, foi pensado para ser vivido nas bancadas dos estádios. Nós, adeptos de futebol, que gostamos verdadeiramente de futebol, não somos telespectadores, nós somos parte integrante do espetáculo (quando é que vão perceber isso?).

No final desta época os lugares europeus reservados para os clubes portugueses serão muito mais reduzidos do que aquilo que estamos habituados e isso tem vindo a aumentar a promiscuidade entre representantes e agentes de clubes que continuam a interferir e condicionar as atividades e juízos de observadores, árbitros, conselhos de disciplina e demais agentes desportivos (enquanto isso vemos a Liga mais inerte do que os jogadores do Vitória aquando de um ataque do adversário permitindo que tudo seja feito sem criarem qualquer tipo de sanções).

Os árbitros ameaçaram fazer greve esta jornada: sentem que têm de fazer o seu trabalho com medos e condicionalismos e apelam para a mudança. Talvez nunca consigamos eliminar o hábito dos adeptos de discutirem os erros dos árbitros constantemente, mas talvez possamos alterar mentalidades. Talvez seja possível que as novas gerações cresçam sem ver o árbitro como o nosso maior inimigo e sem a necessidade de o insultar constantemente (isso já seria uma evolução).

Ao mesmo tempo, há árbitros que efetivamente cometem erros nas suas decisões – prejudicando a qualidade dos jogos e influenciado diretamente os resultados – e continuam sem qualquer tipo de penalização.

Os problemas financeiros fazem com que os clubes continuem a sujeitar-se à aparente soberania austera dos ditos 3 grandes, sentindo-se incapacitados para mudar a direção da roda.

A violência no futebol permanece impune e tem como consequência atos de intimidação, vandalismo e outras formas de barbaridade… O permanente discurso de ódio faz com que a violência no futebol tome proporções pavorosas.

Apesar de toda a legislação em vigor, continuamos a ter claques por legalizar, mas que são apoiadas pelos clubes mesmo quando têm comportamentos reprováveis.

Há dirigentes que não sabem respeitar a função que desempenham e persistem e ter um discurso populista, mal-educado e provocador, focando-se apenas no mal do adversário.

Os diretores de comunicação de alguns clubes têm-se tornado na voz do descrédito do futebol português, servindo-se das redes sociais para inflamar ainda mais as discussões, criticando tudo que não seja das suas cores, descredibilizando não só a sua função e o seu clube, mas acima de tudo, tornando o futebol português num ringue de porrada onde todos saímos a perder.

Torna-se, pois, imperativo que todos os clubes e os agentes desportivos assumam as suas responsabilidades e ajam para mudar esta realidade. A ação tem de começar pelas entidades que gerem o futebol e passar obrigatoriamente pela alteração de comportamento dos dirigentes dos clubes.

Mas afinal, qual é a responsabilidade do Vitória no meio disto tudo?

Ser vitoriano é um sentimento de identidade que nos estrutura e justifica, mas é também uma responsabilidade. Somos uma grande força do futebol português e precisamos de ser a voz da mudança: torna-se também nossa responsabilidade parar de dar tempo de antena aqueles que persistem em estimular este clima de ódio e dar a voz aos verdadeiros intervenientes do jogo. Precisamos de fazer tudo o que está ao nosso alcance para eliminar as ameaças, as insinuações e acima de tudo o ódio do futebol português.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.