E tu, qual é a tua utopia?

dis·to·pi·a*

(inglês dystopia)
substantivo feminino
Ideia ou descrição de um país ou de uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma opressiva, assustadora ou totalitária, por oposição à utopia.

u·to·pi·a**
(latim tardio utopia, palavra forjada por Thomas More para nomear uma ilha ideal em A Utopia, do grego ou-, não + grego tópos, ou, lugar)
substantivo feminino

Ideia ou descrição de um país ou de uma sociedade imaginários em que tudo está organizado de uma forma superior e perfeita.

Esta última semana, tive a oportunidade de ver o filme “Os Filhos do Homem” (Alfonso Cuarón, 2006).

Apesar de o filme ser antigo, só agora tive a oportunidade de o ver e ainda bem. O filme retrata a fuga de uma mulher grávida de uma Inglaterra de 2027, em guerra e repleta de campos de refugiados, onde estes, mesmo quando fora dos campos, são mantidos em gaiolas para não se misturarem com a população inglesa. Ora, o filme começa com a morte da pessoa mais nova do mundo, um adolescente de 18 anos. Ou seja, há 18 anos, naquela distopia, o mundo já se tinha tornado infértil.  Isto remeteu-me imediatamente para a série já aqui mencionada anteriormente “The Handmaid’s Tale”, onde imediatamente encontrei vários pontos de ligação, desde logo a guerra entre territórios e a questão da infertilidade.

O que me assusta tanto na série como no filme é que são realidades que me parecem próximas, demasiado próximas. O filme de Alfonso Cuarón é de 2006, muitos antes desta vaga de refugiados, muito antes do Brexit e no entanto, parece-me uma realidade com a qual nos podemos deparar num futuro próximo.

Desde aí, o pensamento que me ocorre é: se quando imaginamos o futuro, imaginamos distopias, que futuro estamos a criar?

Sou apologista de que o cinema, tal como a arte na sua diversidade de manifestações deve inquietar em vez de adormecer, alienar ou entreter. Mas e então, o que acontece se começarmos a assumir que este será o nosso futuro e uma nova “realidade”?

Eu, que sou um a natural pessimista – sempre – a – tentar – ser – optimista, tenho medo dos dias que correm e dos dias que ainda vêm. Tenho medo do individualismo, da falta da empatia com o outro, das manifestações de ódio, racismo e xenofobia que nos chegam. Tenho medo do machismo – ainda tão impregnado na nossa cultura, da diferença de classes que cada vez se agudiza mais, das mudanças tecnológicas que vão limitar cada vez mais o acesso à informação e ao trabalho, das alterações climáticas e da nossa apatia e desinteresse em cuidar do planeta Terra.

E, no meio deste medo todo, é-me realmente difícil vislumbrar alguma espécie de utopia. Que fazer então quando nos falta a clareza de pensamento, a discussão política necessária e a definição do caminho que queremos/temos de percorrer?

*”utopia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/utopia [consultado em 29-11-2017].

**”distopia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/distopia [consultado em 29-11-2017].

Luísa Alvão, 32 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha em cinema, como produtora no FEST – Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, em Espinho, e como programadora do Shortcutz Guimarães.