Hotel da Oliveira | Os nossos corações

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“Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada – disse-lhes ele. Vocês são bonitas, mas vazias – insistiu o principezinho. – Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é igual a vocês. Mas sozinha, é muito mais importante do que vocês todas juntas, porque foi ela que eu reguei. Porque foi ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi ela que eu abriguei com o biombo. Porque foi a ela que eu matei as lagartas (menos duas ou três, por causa das borboletas). Porque foi a ela que eu ouvi queixar-se, gabar-se e até, às vezes, calar-se. Porque ela é a minha rosa. Depois o principezinho voltou para o pé da raposa e despediu-se: O essencial é invisível para os olhos” Antoine de Saint-Exupéry, em O Princepezinho

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A “viagem” através das palavras (e algumas imagens) leva-nos hoje a conhecer um dos mais emblemáticos hotéis da cidade de Guimarães, o Hotel da Oliveira. Através da transformação de uma antiga Pousada de Portugal, o designer Paulo Lobo deu à luz uma unidade hoteleira contemporânea na conceção, mas nada anacrónico na forma. É pincelado com um luxo vintage discreto e é banhado pelo misticismo do local onde se encontra plantado.

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Cada quarto tem uma temática diferente, e dentro delas, é possível conhecermos verdadeiros tesouros da história da cidade, da nossa história. Neste hotel, cada habitação representa uma memória dedicada a uma figura ou tradição histórica de Guimarães, tendo algumas delas uma vista completamente apaixonante para a praça mais emblemática da cidade berço.

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Voltado para a praça da Oliveira e inserido no hotel, surge o restaurante HOOL onde, mais tarde, iriamos jantar. Isto porque, após um passeio pelas ruas e ruelas desta cidade património da humanidade, o estomago já começava a dar sinais de inquietação 😛 Há uns anos visitamos este espaço, e a experiencia não correu lá muito bem, desta vez, as coisas foram um pouco, aliás bastante, diferentes. Hoje é um restaurante-bar que pretende oferecer o melhor da cozinha tradicional, bebendo inspiração no que melhor se faz além-fronteiras.

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O pano de fundo para o nosso jantar foi o que podem comprovar na imagem. Haverá melhor cartão-de-visita? Coberta e ladeada por românticas arcadas, a explanada do restaurante prolonga os momentos de prazer e faz-nos viajar no tempo.

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Já na mesa fomos recebidos pelo simpático Pedro Machado e por uma vieras coradas com caril acompanhadas por um multipremiado Quinta de Gomariz Colheita Selecionada Loureiro 2015. As vieiras estavam cozinhadas no pronto e carregadas de um sabor marinho muito bem conjugado com a acidez e doçura do molho. Essa acidez fez uma ótima combinação com a frescura do vinho. O maracujá, manga, toranja deste Loureiro equilibraram um pouco a orientalidade do caril, fazendo com que a harmonização resultasse muito bem.

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Seguiram-se cogumelos frescos, queijo parmesão e ovo a baixa temperatura. O ovo ajudou a realçar os aromas terrenos dos cogumelos, o queijo revestiu-os com voluptuosidade e riqueza aromática, e o Vinha da Urze Douro 2015 enriqueceu-os com fruta preta madura e notas de madeira tostada.

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Como pratos principais tivemos filete de robalo com batata, molho de tomate, cenoura, couve-de-bruxelas e espargos e; vitela de comer à colher, batata assada e grelos salteados. No peixe, o molho de tomate apesar de ser bastante rico e denso não cansa e aromatiza todo o prato. É uma criação muito elegante, ponderada e equilibrada. Se o robalo era todo elegância, a vitela era toda voluptuosidade. Após ter sido grelhada e estar a guisar durante 8 horas, ficou com uma textura semelhante a queijo derretido, carregada de sabor e suculência. A batata parece simples mas não é, crocante por fora e com uma espécie de puré por dentro, provoca uma explosão de sabores aquando pressionada. Gostei, gostei muito!!!

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O equilíbrio do peixe foi desconcertado pela acidez, hortelã, lima e melão do Vinha da Urze Branco 2016 e o “exagero” libidinoso da vitela foi contrabalançado pela discrição dos morangos, cereja, ameixas e taninos sedosos do Monte da Peceguina Tinto 2015.

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Nas sobremesas tivemos a densidade açucarada do toucinho de Guimarães, creme inglês e um delicioso gelado de hortelã acompanhado pelos frutos secos, laranja confitada e figos do Niepoort Branco 10 anos.

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Conhecemos também a alma refrescante do sorvete de lima, petit gateau (no ponto, com o chocolate derretido) e molho de frutos vermelhos (muito concentrado, quase em licor) escoltado pelo cacau, caramelo e frutos do bosque do Taylor´s 10 anos. Depois era tempo de recolher aos aposentos para recarregar baterias.

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O dia amanheceu melancólico, e com cheiro a café e doçaria tradicional acabada de fazer.

Acordei com vontade de escrever sobre a natureza enigmática, medieval e “cinzento-romântica” deste hotel, mas por muito que se possa escrever há locais que têm uma alma muito própria, e nem mil imagens farão justiça àquilo que costumo chamar de conforto dos sentidos e embalo da alma. Porque o essencial é invisível para os olhos, apenas o conseguiremos ver com…

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Isso mesmo, com os nossos corações…

E é somente com ele que nos apercebemos da intimidade requintada que este hotel nos proporciona. Em cada um dos 20 quartos do hotel é possível encontrar uma caixa de luz, com uma obra artística alusiva a Guimarães, imitando os tradicionais lenços dos namorados.

Já dizia Antoine de Saint-Exupéry, que o seu maior segredo, é um segredo muito simples, que só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. Alguns homens esqueceram essa verdade, mas nós não a deveremos esquecer, assim como o pessoal do Hotel da Oliveira não o esqueceu 😉

Hotel da Oliveira
Rua de Santa Maria, Largo da Oliveira, 4800-443 Guimarães
253 514 157
http://www.hoteldaoliveira.com