UM CONTO NICOLINO (NOS TREZENTOS ANOS DO DÍZIMO DE URGEZES)

Com os seus olhos de outrora, aqueles que parecem não estar, mas que sempre estão, observam as coisas da modernidade.

A pressa da nova vida quotidiana surpreende-os. Ainda não se habituaram. Na verdade, nem precisam.

Trazem o Passado e a Tradição ao Agora, fazendo o que souberam e o que ainda manifestamente sabem. E isso basta.

Sentado no alto da antiga Torre da Alfândega, hoje sobejamente reconhecida por ter na sua parede a inscrição “AQUI NASCEU PORTUGAL”, encontra-se o “catedrático da alegria e da juventude”, o “Nicolino Velho”, Jerónimo Sampaio.

Observa o que o visualmente o rodeia: a Penha, bem diferente dos seus dias de meninice, nos quais os penedos dominavam sobre o actual verde; o Monte do Cavalinho, a Avenida Velha, o Toural: Tudo tão mudado, tudo afectado pela mão do progresso.

Ainda que o ruído das ruas se espalhe por toda a parte, é a memória do tonitruar das caixas e dos bombos que lhe cativa a atenção, por uma questão de familiaridade e afecto, adensada por anos e anos de dedicação à causa. O seu coração compassa ao ritmo daquela batida.

É, repentinamente, invadido por uma sensação de amor muito forte: não que o Amor, nas suas mais variadíssimas formas, em si não se manifeste, mas esse Amor, essa sensação descomunalmente agradável e envolvente, arrebata-o.

Num momento mais rápido que um piscar de olhos, a Senhora Aninhas juntara-se-lhe no palanque. Estava explicado.

A mão Dela já lhe percorria as feições, concedendo-lhe um mimo vezeiro. O Jerónimo sorri, levanta ligeiramente as pernas do rude assento e desprende a capa que por baixo de si se encontrava.

Estende-a à Mãe dos Estudantes, envolvendo-lhe as costas e o restante corpo. Ficam os dois submersos pelo manto negro.

Ele pousa a cabeça no ombro da Imortal Madrinha. Ela, aconchegando a capa no seu pescoço e também no dele, pergunta-lhe:

– Menino, é aqui que vamos ver passar o cortejo das Posses?

O Jerónimo, sem se mexer, responde-lhe:

– Não, Mãe. O meu lugar é lá em baixo, pelas ruas, mas, se preferir, ficarei aqui consigo.

A Aninhas, experimentada pelo tempo e pelas circunstâncias, mas também pelo Amor único que se lhe conhecia e do qual algo havia sempre a esperar, responde-lhe:

– O meu lugar é aquele aonde os meus meninos estiverem.

O Nicolino-Velho ouviu, levantou a cabeça e entregou um beijo à testa da Aninhas, abraçando-a. Volto a pousar a cabeça no ombro da Mãe, com um sorriso na cara. A Aninhas também sorriu.

Lá em baixo, na rua, passa o Nicolino-Mor, que lhes grita com entusiasmo:

– Vai começar! Já vai começar…

Hordas de Nicolinos Antigos seguem para Urgezes, muitos dos quais vão ao duo acenando, e também desafiando a juntarem-se-lhes.

O Jerónimo e a Aninhas deixam-se ali ficar. Eles sabem que, para eles, não há pressa.

Gil Vidente, médium e cartomante;

Foto: CM de Guimarães