Vitória de Gala

O Vitória é um dos clubes históricos do futebol português. Fundado em setembro de 1922, desde cedo se tornou notória a relação de proximidade entre o clube e as gentes da cidade berço.

Apesar de ter sido criado por um grupo de estudantes, filhos da sociedade industrial e proprietária que dirigia a cidade, o clube rapidamente se abriu a todos independentemente do seu estatuto social, tornando-se num dos símbolos da cidade.

Já nos anos 30, aquando da criação do emblema oficial do Vitória, Mário Cardoso – que desenhou o emblema oficial do Vitória SC – usou as cores preta e branca numa alusão à igualdade e à admissão de todos sem distinção, sem discriminação de raças ou estatutos sociais.

Ao longo de quase um século de História foram muitas as páginas bonitas, de glória e de conquistas que escrevemos. Para tal ser possível, o Vitória contou com a bravura de atletas, o conhecimento de treinadores, a dedicação de dirigentes, o trabalho de funcionários e, acima de tudo, a persistência e apoio dos seus adeptos. Independentemente do momento que se vivesse no clube, os adeptos do Vitória sempre tiveram a capacidade de, através do seu apoio, empurrar a equipa para a frente, rumo aos golos, rumo às vitórias, rumo às Conquistas.

Não é do Vitória quem quer, é preciso senti-lo e o povo de Guimarães sente o clube da sua cidade como ninguém. O povo de Guimarães vive o clube de uma forma única. Só quem é vitoriano sabe o que é aquele sentimento nobre de gostar do clube porque ele é o “nosso” clube, é o clube da “nossa” terra. Mais do que adeptos de um clube, nós somos uma família. Mais do que um estádio de futebol, o D. Afonso Henriques é a nossa casa. Ser do Vitória é pertencer a algo especial muito superior a nós.

Os adeptos do Vitória são um dos componentes mais importantes da nossa identidade como povo vimaranense. É este povo com o seu bairrismo exacerbado que torna esta cidade especial. É este amor sem limites, esta lealdade quase cega que nos torna especiais (eu prometo que vou limitar o número de “especiais” a um por parágrafo a partir deste momento). Em fases más, como a que vivemos no início da época (e que espero ter chegado ao fim), são os adeptos que reforçam a tradição do passado e redefinem o presente, mantendo este clube vivo e empurrando-o para as vitórias.

Desta forma, o clube tem de ser capaz de manter viva a tradição e a História vitoriana, percebendo que os adeptos não são apenas meros pagantes de quotas, mas parte integrante do espetáculo.

Hoje à noite realiza-se no Centro Cultural Vila Flor a Gala dos Conquistadores e a celebração do 95.º aniversário do clube mais bairrista de Portugal suscita uma necessidade de refletir e repensar os nossos ideais e valores.

Não me interpretem mal, como especialista (não gosto nada deste termo, desculpem-me por usá-lo) em Protocolo Desportivo, a notícia da realização de uma Gala do Vitória com toda a poupa e circunstância deixou-me extremamente feliz. Vi-a como uma evolução e uma boa adaptação aos tempos modernos. Por razões profissionais não pude assistir à primeira (a primeira edição da Gala dos Conquistadores foi aberta ao público), mas visionei a segunda na televisão.

A Gala da época passada foi extremamente bem planeada e executada (ter um dos convidados a saudar outro clube foi indecoroso, mas parece-me sensato avaliar a gala positivamente) e em termos de organização esteve efetivamente ao mais alto nível.

Como adepta vitoriana a avaliação já não foi assim tão positiva. O problema (para mim) não está no facto de fazerem uma Gala dos Conquistadores e não convidarem aqueles que fazem o clube sui generis: os adeptos (é uma Gala, é suposto ser para uma minoria, é suposto ter convidados e é suposto incluir todo o requinte e sofisticação que uma Gala exige). Para mim, o problema reside na falta de envolvência dos adeptos na vida do clube.

Esta é (na minha opinião) uma das principais falhas desta direção. Eles não conseguem perceber – ou pelo menos não sabem como o exprimir/executar – que a relação com os adeptos, como qualquer outro relacionamento, tem de ser bilateral. Como o próprio nome indica, a relação tem de ter duas partes envolvidas que têm direitos e obrigações em relação à outra. Se isso não acontecer, então não é mais uma “relação”, mas uma união de duas partes com um fim comum (eu sempre pensei que eramos muito mais do que isso, espero não estar enganada).

Pelo contrário, ao longo dos últimos anos temos testemunhado momentos que nos fazem sentir desvalorizados e totalmente substituíveis. Os adeptos servem para mostrar à comunicação social e aos possíveis patrocinadores o quão incrível o clube é, mas depois fazem questão de nos dizerem que os adeptos servem apenas para apoiar (se ao fim de todos estes anos continuam a achar que isso é verdade, desculpem-me, mas devem estar no clube errado)…

Os vitorianos são exigentes. O Vitória não é só um clube, o Vitória é algo que nos estrutura e justifica. Os vitorianos vão querer estar sempre envolvidos o máximo possível no clube, vão analisar e escrutinar cada decisão, vão vasculhar até terem o mais ínfimo detalhe sobre tudo o que se refere ao clube (eu sei que isso por vezes pode ser prejudicial para o clube, mas será muito difícil de mudar – para o bem e para o mal, nós somos adeptos do Vitória).

Os vitorianos vão apoiar em todos os segundos, desde que tenham noção de que aqueles que vestem a camisola do Rei darão tudo em campo (e fora dele) pelo clube que representam. Cada um de nós, naquelas bancadas, daria tudo para representar este clube. A quem o faz, só exigimos respeito, esforço, dedicação total e garra. É tão simples assim…

Os Vitorianos estão sempre presentes e querem sentir-se parte integrante do Vitória. Ao celebrarem o aniversário do clube apenas com a elite vimaranense estão obviamente a quebrar esses laços de união.

A Gala dos Conquistadores é uma ótima ideia (é um momento para valorizar o trabalho daqueles que representam o nosso clube, é um momento para mostrar ao país a qualidade do que se faz neste clube), mas tem de estar incluída numa série de atividades de celebração do aniversário do clube que incluam a presença dos seus sócios/adeptos como comemorações nas ruas da cidade, eventos especiais, promoções na loja, celebrações no estádio, visitas guiadas ao estádio (e de preferência aquando do aniversário do Vitória – que é em SETEMBRO – continuo sem perceber a lógica da celebração do aniversário do clube em Dezembro)…

Ao longo dos anos apercebi-me que qualquer conversa que tenha com vitorianos sobre o estádio acaba irremediavelmente com alguém a lamentar-se por nunca ter visitado o nosso estádio. Como é possível que numa cidade em que se respira futebol, em que as pessoas vivem o clube de uma forma intensa seja tão complicado e burocrático fazer uma visita ao estádio? Como é possível que adeptos tão fervorosos como os do Vitória nunca tenham entrado no balneário dos seus jogadores, vislumbrado o estádio desde a tribuna presidencial, visitado a sala dos troféus ou pisado o palco de todos os sonhos: o relvado do D. Afonso Henriques?

Eu já tive o privilégio de o fazer 3 vezes e cada uma delas foi mais mágica do que anterior (consegui não usar a palavra especial). Não imaginam a minha felicidade ao fazê-lo; eu não conseguia parar de sorrir: parecia uma criança num parque de diversões (imaginam a felicidade que podiam dar aos nossos sócios se eles pudessem entrar lá?). Não precisam de colocar visitas guiadas ao estádio todos os dias (porque sabemos que não teriam público), mas por favor, permitam que, pelo menos uma vez por ano – o aniversário do clube parece-me ideal -, os vitorianos possam conhecer os bastidores da sua casa. Permitam que os vitorianos possam entrar na sala dos troféus e rever a Taça de Portugal, permitam que se relembrem do quão bom foi o momento em que ela se pintou de preto e branco. Permitam que os vitorianos voltem a ver (ou vejam pela primeira vez) a Supertaça (a minha primeira visita no estádio foi com o Neno – ganhei um passatempo do dia da Mãe – e o momento em que ele pegou na Supertaça e a colocou nas minhas mãos marcou-me para a eternidade). Permitam que os vitorianos passem por aquele túnel onde os seus ídolos passaram e pisem o relvado de todos os sonhos.

Nós não vos pedimos muito. Nós só vos pedimos que parem de nos afastar e que nos tratem com o devido respeito que merecemos. Tenho certeza que a Gala dos Conquistadores seria muito mais apreciada e muito menos fustigada se os adeptos do Vitória tivessem a possibilidade de estarem mais envolvidos no clube que tanto amam.

Os fervorosos adeptos do Vitória são aquilo que nos define como clube e o que nos distingue como povo, daí ser de extrema importância a valorização da sua existência. Para isto, o Vitória não pode pertencer apenas a uma elite ou estar ajustada ao nível de vida dos mais ricos da cidade. Não são os títulos ou as grandes exibições (apesar de ser isso que queremos/exigimos cada vez mais e de ser isso o que nos fará crescer) que levam o nome do Vitória além-fronteiras. São os seus adeptos que o levam aos quatro cantos do mundo. É incrível ver como os nossos olhos brilham quando falamos do Vitória, a emoção que temos ao relembrar determinado jogo ou momento que nos marcou, a incapacidade de usar outra pessoa gramatical que não a primeira do plural para nos referirmos ao Vitória, a forma como as gerações mais novas ouvem atentamente as histórias de outros tempos, a felicidade que sentimos em falar sobre o “nosso Vitória”, o orgulho que sentimos ao exibir o nosso cartão de sócio e a partilhar as experiências que vivemos ao apoiar este clube. Torna-se, pois importante, que sejamos reconhecidos pelo que somos neste clube e garantir uma posição de destaque no futuro, aberta a todos independentemente dos estratos sociais.

Queremos ser um Vitória reflexo da tradição e da honra do passado, com a irreverência e a inovação do futuro. Um Vitória fiel à sua origem e em sintonia com os seus adeptos.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.