UM BANDO PARA A MÃE (NOS DUZENTOS ANOS DO PREGÃO DE SÃO NICOLAU)

A Lua conspira em silêncio. As cores da Cidade ganham outros contornos.

Há um bando que à passagem pela velha rua Nova desafia o João Cucusio, por entre altos berros, a mostrar-lhes o rabo. Ele, claro está, não se faz rogado;

As Capas Negras estão, hoje, especialmente espirituosas: dois futricas que pelo Toural se passeavam acabam, para mal dos seus pecados, lançados à água do Chafariz Quinhentista.

São tantos! Parecem nascer do seio do escuro. Uma turba, vinda dos lados do Mercado Velho, agita placas, vasos, penicos e vassouras à medida que avança, não escondendo o riso e a alegria. Ao passar pelo Toural, dá vivas aos demais, que imediatamente se lhe juntam.

A multidão atravessa a Rua Dona Maria II, passa diante da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira e sobe a Rua de Santa Maria, desaguando na imensa mole que se lhe depara. Em frente ao antigo Convento de Santa Clara, também antigo Liceu, verdadeira algazarra reina: Bombos e caixas em cortejos e voltas intermináveis, gritos e vivas, abraços.

Alguns dos que descem a Rua pelo lado de que vem do Carmo trazem uma Senhora em ombros. Ainda que um sorriso traga no rosto, é bem perceptível, no demais, o embaraço. A imagem em todos desperta atenção:

– É a Aninhas!

A mesma expressão começa a ler-se em mais e mais lábios e a ser escutada por e mais ouvidos, aumentando a excitação e a emoção.

É instintivo, todos se precipitam em direcção à sua Mãe, à Madrinha das horas boas e más.

Todos a querem ver, abraçar, tocar.

– Aninhas, trouxe-lhe um frango!, grita um dos estudantes, que ela logo reconhece.

Com as mãos encostadas à cara e usando a meiga voz que Deus lhe deu, pergunta-lhe:

– A quem foste tu tirar o pobre do frango, meu filho?

Gargalhada geral.

– Aninhas, tenho aqui hortaliça.

– Trago aqui nabos.

– Bom nabo és tu!

Outra gargalhada.

– Aninhas, Aninhas…

A solicitações eram mais do que muitas, e a Rainha da Gente de Capa e Batina de Guimarães só conseguia responder com o sorriso, aquele sorriso que verdadeiramente aquece corações.

O Faria Martins, que é dos que sabe a altura certa das coisas, pede silêncio aos companheiros Nicolinos, incitando a Aninhas a falar. Ela, lá do alto do seu trono, um trono feito de braços e de ombros que tão bem conhece, só sabe sorrir.

– Senhora Aninhas – insiste o Faria Martins – diga-nos o que quer, aonde deseja ir, diga-nos qualquer coisa que possamos fazer por si, depois de tanto que por nós já fez. Tudo será pouco para si.

A Aninhas, sempre modesta, na vida, depois da morte e na maneira, notando o brilho nos olhos dos rapazes e com o próprio olhar brilhante, pede:

– Quero ouvir o Pregão, meus meninos. Quero ouvir o Pregão.

Nota:

Era costume os estudantes pagarem os seus “calotes” à Senhora Aninhas com a passagem do Pregão à sua porta e também dedicando algumas das suas estrofes à Santa que tanto lhes valeu. A Senhora Aninhas gostava muito de ouvir o Pregão.

Foto: CM de Guimarães